Sade teria vergonha

Tudo o que um escritor precisa é observar com atenção a sua realidade. Se o escritor vive em um ambiente extraordinário, com pessoas extraordinárias, que escreva sobre o extraordinário. Porém, se um escritor vive em um meio cheio de pessoas comuns e medíocres, que escreva sobre isso, mas não se tornando, ele próprio, corriqueiro e medíocre.
No meu caso, minha vida no mais das vezes é corriqueira e poucas, pouquíssimas foram as pessoas com uma história de vida extraordinária que eu conheci. É certo que o extraordinário é relativo, mas o que quero dizer é que tudo pode se tornar material para um escritor, que não pode dizer que não tem assuntos para escrever só porque não viu o Rei Charles III ser coroado.
Os dois parágrafos anteriores, que soam solenes e metodológicos, servem para introduzir algo banal, mas que virá com um exemplo: quem julga ter líderes políticos medíocres (sejam eles presidentes, governadores, prefeitos ou vereadores), nem por isso não pode dizer que eles não inspiram. E qual o exemplo? Um dia eu estava em um restaurante de beira de estrada e ao eu entrar no banheiro eu reconheci um prefeito da região, com outros políticos (ou aspirantes a político) em um palavreado que Marquês de Sade teria vergonha, seja no conteúdo, seja na forma. A minha vontade foi de dizer "Olá, senhor prefeito", mas, me calei, porque eu próprio estava sem palavras diante da vulgaridade que eu ouvi. Boatos que diziam que as reuniões do prefeito eram uma baixaria? As confirmei em primeira mão.
A história acima, que eu poderia criar um conto, serve para refletir algo que Hannah Arendt explorou com autoridade no livro "Entre o passado e o futuro", a saber, de que a crise que vivemos é algo geral e que possui um forte lastro político. Em síntese: se os líderes não se dão ao respeito, se a tradição é desconsiderada por não servir mais ao presente, o que será do futuro? A partir da conduta do prefeito e de seus asseclas, eu só posso imaginar a crise denunciada por Hannah Arendt se aprofundando, e um autor a exemplo de Marquês de Sade se tornando um ingênuo.

