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Nicolai Gogol. “Diário de um louco”


Por: Dr. Felipe Figueira
Data: 03/06/2026
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O conto “Diário de um louco”, de Nicolai Gogol, é uma delícia de ser lido. Há vários textos que são deliciosos, mas este, junto com outro conto, “O Nariz”, do mesmo autor, flertam com o humor, com a imaginação e com a loucura de uma ponta à outra.

            Não à toa Nicolai Gogol se relacionará com o que é chamado de “literatura fantástica”: em “O Nariz”, este membro do corpo, abruptamente, desloca-se do rosco de um funcionário do governo russo (a burocracia russa é um personagem nos contos de Gogol) e passa a ter vida própria, ora indo se esconder no pão de um barbeiro, ora até usa um nobre uniforme de ouro. “Meter o nariz onde não é chamado”, nesse conto, e mais do que um ditado popular.

            Já em “Diário de um louco”, a história começa de modo razoável, até coerente, mas, de repente, a loucura se manifesta, não sem ter, em diversos momentos, pitadas ácidas em torno da estrutura política e social russa. Basta dizer as seguintes situações: um cachorro se corresponde com outro por meio de cartas; o funcionário do governo, que detém a patente de capitão (novamente o personagem “governo russo”), se descobre enquanto Fernando VIII, rei da Espanha; e que a Terra se senta na Lua, lugar onde habitam narizes (uma vez mais o tema do nariz). Parece uma loucura despropositada, e pode até ser uma pura distração, mas há tanta acidez em Gogol a ponto dele ter recebido, ainda que parcialmente, censuras por parte da Rússia.

 

E todos estes que estão vendo, todos estes pais de família graduados, todos estes homens que fazem piruetas em todas as direções e que tomam a Corte de assalto, dizendo-se patriotas, e patati e patatá: fazendas, propriedades, eis o que querem estes patriotas! Seus pais, suas mães, o próprio Deus eles seriam capazes de vender em troca de dinheiro, os ambiciosos, os judas! (GOGOL, 2013, p. 87-88). 

Ano 2000. 43º dia de abril.

Hoje é um dia de solenidade! AEspanha tem um rei. Foi encontrado. Este rei sou eu. Apenas hoje fui descobrir. Confesso que fui bruscamente inundado de luz. Não compreendo como pude pensar, imaginar que eu era um conselheiro titular. Como este pensamento extravagante pôde penetrar em meu cérebro? Felizmente ninguém teve na ocasião a ideia de me trancafiar num hospício. Agora, tudo me foi revelado. Agora tudo está claro... Antes, eu não compreendia, antes, tudo estava a minha frente envolto numa espécie de nevoeiro.

Tudo isso resulta, creio, no fato de que as pessoas julgam que o cérebro está localizado dentro de seu crânio. De modo algum: ele é trazido por um vento que sopra do Cáspio. Imediatamente revelei a Mavra quem eu era. Quando soube que estava diante do rei da Espanha ela bateu as mãos uma contra a outra e quase morreu de pavor. Esta tola jamais havia visto o rei da Espanha. Apesar de tudo, me esforcei por tranquilizá-la e de assegurar a ela, em termos amáveis, minha benevolência; lhe disse que não guardava dela qualquer rancor pelo fato de haver engraxado mal minhas botas. Esta gente é ignorante. Não se pode entretê-los com assuntos elevados. Ela ficou com medo por estar convencida de que todos os reis da Espanha se assemelham a Felipe II! Mas eu lhe expliquei que não havia nada em comum entre Felipe e eu.

Não fui ao ministério. O diabo os carregue! Não, meus amigos, agora vocês não me pegarão mais; eu não vou continuar a copiar vossas papeladas sujas! (GOGOL, 2013, p. 84-85).

             “Diário de um louco” tem o formato de um diário, com data, mês e ano, mas, abruptamente, as datas perdem a lógica, o ano perde a lógica. Do século XIX a ano 2000, o “louco” salta sem pensar. A quem supor “que perda de tempo ler um livro desse”, que não se esqueça que a vida é mais do que técnica, é mais do que utilidade do tempo, é imaginação. Nesse aspecto, o conto de Gogol ajuda o ser humano a, de fato, ser humano, no caso, louco para certo tipo de lógica (estrita).

            Quem nunca saltou, em um piscar de olhos, da realidade imediata à Lua? Quem nunca “andou no mundo da Lua?” Quem nunca se considerou mais importante do que de fato é? Quem nunca conversou com os cachorros e imaginou o que eles conversavam entre si? Vide as fábulas de Esopo. Vide a animismo trabalhada por Jean Piaget quando das estruturas pré-operatórias. Vide Nietzsche querer que o adulto valorize a infância. Exemplos multiplicam-se à exaustão. Esse quê animista anima a vida. Eu mesmo sempre converso com o Dom Quixote, com a Kyara e com a Atenas, meus filhos caninos.

            O surrealismo, tão identificável no filme “Um cão andaluz”, de Buñuel e Dalí, tem o poder de perturbar o espectador porque o tira da lógica linear e propõe o absurdo. Outra obra que flerta com o absurdo é “O Alienista”, de Machado de Assis, a ponto de que o médico interna todo mundo no hospício chamado “Casa Verde”, pois, não considera ninguém normal. E não é possível deixar de mencionar a Bíblia, quando ela diz, textualmente: “Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia.” (1 Cor 3:19).

            Por fim, “Diário de um louco” também possui as características das obras acima, por perturbar a lógica e, perdoe-me por contar o final, por implorar com o suposto rei implorando a ajuda da mãe. Dizia o poeta Sérgio Rubens Sossélla: “se você não se sente à vontade/ chorando diante de sua mãe/ essa uma não é a sua mãe” (SOSSÉLLA, 2000, p. 117). Que rei não apela, mesmo diante de sua magnitude, para o amor materno? Vide o caso de Aquiles, em “Ilíada”. Quem pode governar a si e aos outros tranquilamente? E há, enfim, alguma loucura maior do que o amor de uma mãe?

 Bíblia Sagrada. Trad. de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Geográfica, 2010.

Nicolai Gogol. Diário de um louco. Trad. de Roberto Gomes. Porto Alegre: L&PM, 2013.

Sérgio Rubens Sossélla. A linguagem prometida. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2000.

Dr. Felipe Figueira

Felipe Figueira é doutor em Educação e pós-doutor em História. Professor de História e Pedagogia no Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Paranavaí.


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