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O que terá acontecido a baby Jane?


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 04/07/2024
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Ah, o mundo do Cinema! Existem semanas que ostentam vários lançamentos de peso e outras, como essa, que nada de interessante surge de novo na telona. Provavelmente o feriado americano da independência (4 de julho) influenciou para que os filmes mais interessantes ficassem para a próxima semana. Bem por isso, dei-me o direito de utilizar o espaço para fazer algo que tenho planejado há algum tempo, comentar sobre grandes clássicos esquecidos do cinema. Recentemente me surpreendi com a forma como as gerações mais jovens pouco conhecem ou se interessam pelo vasto e valioso material produzido pela Sétima Arte no passado.

Algo realmente preocupante, pois como dizia Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, a “modernidade é líquida”, de forma que a sociedade, segundo ele, é caracterizada pela efemeridade, volatilidade e fragilidade das relações e estruturas. Esse conceito pode ser aplicado também na cultura do entretenimento, pois a era digital que vivemos acelerou a velocidade com que consumimos e descartamos conteúdo. Séries, filmes, músicas e até memes têm um ciclo de vida curto. Plataformas como Netflix, YouTube e redes sociais incentivam o consumo rápido e a busca incessante por novidades, fazendo com que o que é popular hoje possa ser esquecido amanhã. Assim, cada vez mais o que é antigo, mesmo que seja valioso vai sendo deixado para trás e esquecido.

Por isso, de tempos em tempos, procurarei utilizar esse espaço para compartilhar com o público minha visão particular a respeito de grandes obras da história do cinema. Uma tentativa de despertar o seu interesse, caro leitor, por estéticas e formas diferentes de levar uma boa história para o cinema e de resgatar essas obras que permanecem na memória de poucos e no esquecimento para muitos. Como bom historiador que sou, eventualmente tenho garimpado filmes antigos de sucesso para poder absorver melhor ideias conceitos e tramas que se alteraram ao longo do tempo, uma busca prazerosa e surpreendente. Um bom exemplo disso é o filme sobre o qual a Coluna dessa semana se dedica: O que terá acontecido a baby Jane?

Lançando em 1962, após o grande sucesso de Psicose, O que terá acontecido a baby Jane? É uma obra-prima do suspense psicológico dirigida por Robert Aldrich. Provavelmente você ainda não viu este clássico, por isso, prepare-se para uma viagem fascinante e, por vezes, perturbadora ao coração sombrio das relações humanas.

O filme nos apresenta Jane Hudson (interpretada pela magnífica Bette Davis), uma ex-estrela infantil cuja fama desapareceu com o tempo. Ao lado dela, temos Blanche Hudson (interpretada pela sempre elegante Joan Crawford), que encontrou sucesso como atriz adulta, mas acabou confinada a uma cadeira de rodas após um acidente misterioso. As duas irmãs vivem isoladas em uma decadente mansão, onde a tensão entre elas é quase palpável. Jane, amargurada e mentalmente instável, é obrigada a cuidar de Blanche, criando uma dinâmica de dependência e ressentimento que se intensifica a cada minuto.

A trama, ambientada quase inteiramente dentro da mansão Hudson, gera um clima meticuloso de claustrofobia, opressão e tensão. A habilidade de Aldrich em transformar um espaço confinado em um cenário de constante suspense é nada menos que brilhante. O público sente o peso das paredes se fechando à medida que os segredos e a loucura vêm à tona, criando uma experiência visceral de entretenimento.

Sobre o ponto de vista técnico, a escolha de filmar em preto e branco, mesmo numa época onde o cinema colorido já era o padrão, foi um golpe de mestre. As sombras e contrastes não apenas intensificam o suspense, mas também refletem o estado emocional das personagens. Tudo bem que provavelmente a escolha de filmar em preto e branco tenha sido tomada devido ao baixo orçamento do filme, mas no caso, isso veio bem a calhar. Cada quadro é cuidadosamente construído, e a cinematografia de Ernest Haller é tão eficaz que cada cena parece uma pintura em movimento.

O roteiro, baseado no romance de Henry Farrell, é outro triunfo. Ele entrega diálogos carregados de subtexto e uma narrativa que não só prende, mas também provoca. É um deleite ver como cada linha de diálogo entre Jane e Blanche está repleta de ressentimento e dor, refletindo anos de rivalidade.

Algo que deve ser destacado nesse filme é a forma como ele traz de volta à ativa duas grandes atrizes da era de ouro do cinema e que, naquela época, estavam esquecidas pelos grandes estúdios: Bette Davis e Joan Crawford. Numa Hollywood que valorizava em suas atrizes muito mais sua beleza do que experiência e o talento, duas das maiores atrizes de todos os tempos venceram as dificuldades e o preconceito e mostraram que o que o público quer ver nem sempre é o que os estúdios querem vender. Ambas entregaram performances que são verdadeiras aulas de atuação. Davis, em particular, é uma força da natureza como Baby Jane. Ela não tem medo de se transformar fisicamente, adotando uma maquiagem grotesca e expressões faciais que são ao mesmo tempo trágicas e aterrorizantes. Sua interpretação teatral e infantilizada da decadência e loucura de Jane é tão intensa que fica difícil desviar o olhar, mesmo quando a situação se torna quase insuportável (como, por exemplo, nas cenas de agressão física).

Já Crawford, por sua vez, traz uma vulnerabilidade tocante para Blanche. Sua atuação é mais sutil, mas igualmente poderosa. Ela captura perfeitamente a fragilidade e o desespero de sua personagem, criando um contraste fascinante com a explosividade de Davis. A química entre as duas, alimentada por sua famosa rivalidade fora das telas, que foi cultivada e explorada por décadas pela mídia, adiciona uma camada extra de autenticidade à sua dinâmica complexa.

Quando O que terá acontecido a baby Jane? foi lançado, ele foi um sucesso estrondoso. Não apenas recebeu aclamação crítica, mas também foi um sucesso de bilheteria, consolidando seu lugar como um clássico instantâneo e lançando um subgênero do terror que está um pouco esquecido, chamado Hagsploitation, que apresenta a exploração de mulheres de idosas como protagonistas. O filme recebeu cinco indicações ao Oscar, incluindo uma merecida indicação de Melhor Atriz para Bette Davis. Ele acabou levando apenas o prêmio de Melhor Figurino em Preto e Branco. Mas fez história no mundo do Cinema. Sua exploração de temas como inveja, decadência e a complexidade das relações familiares ressoa com o público, independentemente da época.

Por que ver esse filme? Para todos aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ver este filme, eu só posso dizer: não percam tempo! O que terá acontecido a baby Jane? é mais do que apenas um filme de suspense; é uma obra de arte que oferece uma visão profunda e perturbadora da psique humana. Ele nos lembra que o cinema é uma forma poderosa de explorar as profundezas do coração e da mente, e que histórias bem contadas podem nos tocar de maneiras que nunca imaginamos. Aproveite que esse clássico está disponível no MAX, o streaming da HBO, assista em casa e se divirta. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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