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Bugonia


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 04/12/2025
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As férias já estão, praticamente, batendo à porta e, com elas, chegam também aquele fluxo constante de estreias no cinema. Não faltam opções mais comerciais nas salas neste momento, filmes como O Sobrevivente, a animação Zootopia 2 ou o novo Truque de Mestre: O 3º Ato, são obras pensadas para agradar públicos amplos e lotar sessões. Ainda assim, quando Yorgos Lanthimos resolve lançar um filme, fica difícil simplesmente fingir que nada aconteceu. Bugonia, apesar de ser um dos títulos que menos chamam atenção no meio dessa grande concorrência, acaba sendo, curiosamente, um dos mais instigantes. Por isso mesmo, a Coluna Sétima Arte desta semana abre espaço para comentar essa história tragicômica que, discretamente, pode acabar surpreendendo e conquistando seu lugar nas premiações da temporada.

O grego Yorgos Lanthimos é um daqueles diretores que geram discussão entre os aficionados por cinema (falo isso por experiência própria). Tem gente que o chama de gênio, outros dizem que ele apenas se diverte provocando o público. Bugonia, seu novo filme, cai exatamente nesse meio-termo desconfortável, e talvez seja isso que torne o filme tão interessante. Adaptado do cult sul-coreano Save the Green Planet!, o longa mistura teorias da conspiração, paranoia digital, crises ambientais, desigualdade social e um pouco daquela bizarrice calculada que o cineasta abraça desde O Lagosta. Só que, dessa vez, ele faz tudo isso com um pé mais firme no humor, nesse caso um humor torto, meio trágico, daqueles que fazem a gente rir e engolir seco ao mesmo tempo.

A trama começa com dois primos, Teddy e Don, figuras típicas do nosso tempo. Embora sejam estadunidenses, não são um estereótipo apenas daquele país, mas de vários outros lugares. Eles representam uma parcela da população mundial que é altamente influenciável por qualquer tipo de fake news veiculada deliberadamente por aí! Teddy, vivido por Jesse Plemons em uma atuação impressionante pela sinceridade do delírio, está convencido de que a Terra está sendo invadida por alienígenas disfarçados. E, claro, como todo teórico da conspiração confiante demais, ele acredita ter encontrado a prova definitiva: Michelle. Ela é uma bilionária do ramo farmacêutico interpretada por Emma Stone (pelo jeito musa de Lanthimos), que eles sequestram em um ataque de certeza absoluta. Após isso, o que vemos é uma sequência de acontecimentos perigosamente divertida entre vítima e algozes, onde a gente nunca tem certeza de quem está realmente no controle.

O curioso é que Lanthimos trata essa história absurda como quem expõe uma ferida aberta. Teddy não é apenas um maluco com revistas de ufologia, ele é alguém esmagado por um sistema que promete muito e entrega pouco. Um cara pobre, solitário, afogado em dor, fake news e um ressentimento que encontra nas conspirações uma explicação mais confortável do que encarar a realidade. Don, por sua vez, parece seguir o primo mais por falta de rumo do que por convicção real. A dupla sintetiza, com certa tristeza, aquela parcela já citada da população que se sente esquecida e vulnerável o suficiente para acreditar em qualquer narrativa que lhe devolva um pouco de protagonismo (muitos, às vezes, beirando o fanatismo).

Do outro lado, Michelle não é uma vítima simples. Lanthimos não tem interesse em oferecer inocentes. Ela comanda um império farmacêutico envolto em práticas, digamos, questionáveis. Essas camadas vão sendo reveladas aos poucos, como uma cebola emocional que o roteiro insiste em descascar até chegar no âmago amargo da questão. Emma Stone mergulha fundo nesse mistério, e o resultado é fascinante: cada olhar, cada silêncio, parece esconder uma verdade que a gente nunca sabe se deve acreditar ou não. Ela joga o jogo como poucas atrizes conseguiriam, provando que é um dos grandes nomes do cinema na atualidade.

Um dos pontos positivos do filme é justamente esse equilíbrio, pois mesmo andando à beira do absurdo, Bugonia sempre parece verossímil o suficiente para nos manter presos. Isso acontece porque, debaixo da fantasia conspiratória, existe um retrato muito real da crise de pós-verdade que vivemos. Lanthimos não está apenas rindo das teorias malucas, ele está, sobretudo, apontando o dedo para o ambiente que as alimenta: o desespero, a solidão, a precariedade emocional e até material de tanta gente.

Isso não significa que o filme não escorregue. A assinatura visual do diretor, ou seja, seus enquadramentos milimetricamente estranhos, gestos teatrais, diálogos que parecem sempre deslocados um meio passo da realidade, às vezes pesa mais do que a história precisava. Em alguns momentos, a sensação é de que Lanthimos tenta provar que ainda é aquele cineasta esquisito e inconfundível que chamou a atenção de Hollywood em 2015 e, por isso, acaba esticando a corda mais do que deveria. Há trechos em que a trama patina um pouco, especialmente perto do final, quando a narrativa parece se prolongar mais por vaidade do que por necessidade dramática.

Ainda assim, há algo irresistível em Bugonia. O filme funciona como uma espécie de espelho torto do nosso tempo. Ele é grotesco, cômico, incômodo e, em certos pontos, assustadoramente verdadeiro. Ele nos lembra que a paranoia coletiva não nasce do nada; nasce do medo, da desigualdade, do abandono. E nos lembra também que, muitas vezes, tanto opressores quanto oprimidos estão presos na mesma máquina, apenas ocupando posições diferentes dentro dela.

A cereja do bolo, sem dúvida, é a dupla Plemons-Stone. Ele entrega um personagem que beira o patético sem perder a humanidade; ela, com sua habitual inteligência cênica, interpreta Michelle como um enigma pulsante, alguém que tanto pode ser vítima quanto predadora. É um duelo teatral que o filme sabe aproveitar muito bem.

Por que ver esse filme? Bugonia deve ser visto porque deixa aquela sensação típica dos filmes de Lanthimos, a de que rimos em momentos em que não deveríamos ter rido. E talvez seja exatamente essa a provocação. Em vez de oferecer respostas, o diretor nos entrega um alerta. Ou um espelho. Ou os dois e é isso que justifica a ida ao cinema. Não é um filme perfeito, mas é um filme vivo, inquieto, desses que incomodam um pouco depois que a sessão acaba. E, cá entre nós, esse incômodo às vezes vale mais do que qualquer conforto cinematográfico. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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