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Entre Linhas


Por: Jacilene Cruz
Data: 20/07/2026
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Na lata do poeta tudonada cabe[1]

 Há que pense que escrever poesia é privilégio de poucos, como se os poetas fossem seres iluminados que recebem inspiração dos deuses.

Na verdade, o que o poeta faz é pegar uma ideia e escarafunchá-la até que ela se esvazie ao mesmo tempo que fique preenchida por palavras imaginadas, ditas e por dizer. Não sei se concordo com Fernando Pessoa quando diz que o poeta é um fingidor. Creio que, à moda aristotélica, o poeta é um imitador. Imita a dor sua e de  outrem, envolve-a num emaranhado de sensações que, ao final, o vazio existencial ganha vida.

Gosto de fazer poesia dizendo como se faz poesia, minha metalinguagem. Nesse estilo, entrego-lhes dois poemas.

 

Metalinguagem barata

 

Escrevo poesia

É isso!

Palavras soltas

sem emendas

Fruto do pouco pensar

do muito sentir

 

Gosto de soltar substantivos, adjetivos, verbos

ao vento

Aprisiono as ligações

não cabem na poesia

Para que atar palavras?

Deixo-as virem e irem

sozinhas, aos pares, trios

livres.

O faz-poema

 

Escrever um poema

é tarefa agridoce

Às vezes

as palavras saltam

se aconchegam umas às outras

naturalmente

Outras vezes

elas são presas difíceis

é árdua a caça

é necessário domá-las

para o verso existir

Fonte: Jacilene Cruz – As impressões das pontas dos dedos de Mainha no Cuscuz

 



[1] Verso da canção Metáfora de Gilberto Gil. Disponível em: https://www.letras.mus.br/gilberto-gil/487564/

Jacilene Cruz


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