Entre Linhas
Na lata do poeta tudonada cabe[1]
Há que pense que escrever poesia é privilégio de poucos, como se os poetas fossem seres iluminados que recebem inspiração dos deuses.
Na verdade, o que o poeta faz é pegar uma ideia e escarafunchá-la até que ela se esvazie ao mesmo tempo que fique preenchida por palavras imaginadas, ditas e por dizer. Não sei se concordo com Fernando Pessoa quando diz que o poeta é um fingidor. Creio que, à moda aristotélica, o poeta é um imitador. Imita a dor sua e de outrem, envolve-a num emaranhado de sensações que, ao final, o vazio existencial ganha vida.
Gosto de fazer poesia dizendo como se faz poesia, minha metalinguagem. Nesse estilo, entrego-lhes dois poemas.
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Metalinguagem barata
Escrevo poesia É isso! Palavras soltas sem emendas Fruto do pouco pensar do muito sentir
Gosto de soltar substantivos, adjetivos, verbos ao vento Aprisiono as ligações não cabem na poesia Para que atar palavras? Deixo-as virem e irem sozinhas, aos pares, trios livres. |
O faz-poema
Escrever um poema é tarefa agridoce Às vezes as palavras saltam se aconchegam umas às outras naturalmente Outras vezes elas são presas difíceis é árdua a caça é necessário domá-las para o verso existir |
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Fonte: Jacilene Cruz – As impressões das pontas dos dedos de Mainha no Cuscuz |
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[1] Verso da canção Metáfora de Gilberto Gil. Disponível em: https://www.letras.mus.br/gilberto-gil/487564/

