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Em algum lugar, ainda existo


Por: Fabiana Margonato
Data: 01/06/2026
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Quando estou exausta, quase sempre lembro de uma fala da minha mãe. Foi quando nasceu meu filho mais velho. Na época, achei exagero.

Estávamos no hospital e ela disse, antes de virmos para casa: “Esse pacotinho de gente exige cuidado e vai te dar preocupação por no mínimo mais uns cinquenta anos”.

“É um trabalho sem férias, mesmo que o corpo descanse, a mente não consegue”. Com o tempo, passei a compreender. Em momentos de dúvida e cansaço, seus dizeres ainda ecoam em meus pensamentos, como em uma certa noite de domingo.

Chovia. Dentro do carro, eu sentia um peso invisível. O corpo todo doía. O que eu mais queria era chegar em casa.

O carro estava cheio. Os meninos faziam brincadeiras bobas, gritavam, riam. Tudo em mim pedia descanso. Eu olhava para eles. Sentia a culpa pelo cansaço e o medo de não dar conta.

Às vezes lembrava de um filme — uma mãe se escondia no armário, comia algumas bobagens e tinha alguns minutos de sossego. E, por um instante, eu me sentia mais normal.

Lembrei da vez em que um menino estranho na rua gritou “mãe”. Parei tudo achando que era comigo.

Por um momento, achei ter esquecido meu próprio nome.

Mas, bem lá no fundo, sabia que, em algum lugar, eu ainda existia.

 

Sobre a autora: 

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.

Instagram: @fabiana_margonato

 

Fabiana Margonato

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: fabiana_margonato


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