Uma Sexta-feira Mais Louca Ainda


É preciso falar do bloqueio criativo pelo qual a indústria cinematográfica está passando. Já faz um tempo que grandes estúdios preferem investir e revisitar fórmulas já testadas, aprovadas e de grande sucesso. Hoje em dia, grandes bilheterias estão relacionadas a reboots, remakes ou continuações. O filme em destaque na Coluna desta semana se enquadra na terceira opção, isso porque a Disney resolveu, mais de duas décadas depois, dar uma continuidade a um grande sucesso de 2003, Sexta-feira Muito Louca, uma comédia adolescente que marcou gerações e que desperta a sensação de nostalgia em muita gente. Sobre Uma Sexta-feira Mais Louca Ainda você vai ficar muito bem informado aqui, na Coluna Sétima Arte.
Uma Sexta-feira Mais Louca Ainda chega aos cinemas com o intuito de reacender a chama de uma comédia que, em 2003, já era ela mesma um remake, mas que conquistou uma geração inteira ao colocar a brilhante Lindsay Lohan e a talentosa Jamie Lee Curtis em uma das trocas de corpos mais divertidas do cinema. Agora, mais de duas décadas depois, a Disney aposta novamente nessa dupla, mas expande o jogo para além do binômio mãe e filha. O resultado? Uma comédia que equilibra momentos de puro caos cartunesco com instantes de ternura inesperada.
A trama desta vez amplia o conceito original. Tanto que, se antes bastava uma troca de corpos entre mãe e filha para que o mundo virasse de cabeça para baixo, agora temos quatro personagens envolvidos na confusão. Anna (Lindsay Lohan), hoje uma mãe solteira prestes a se casar, acaba trocando de corpo com a filha Harper (Julia Butters). Paralelamente, Tess (Jamie Lee Curtis) se vê no corpo de Lily (Sophia Hammons), futura enteada de Anna. É claro que essa multiplicação de identidades já seria suficiente para mergulhar a narrativa em absoluto descontrole, algo que em alguns momentos acontece de fato, mas a diretora Nisha Ganatra consegue manter uma certa lógica dentro do caos, o que torna a experiência mais saborosa do que frustrante. Um feito notável, já que Ganatra tem larga experiência no mundo televisivo e que gerou bastante desconfiança ao encabeçar um projeto cinematográfico dessa envergadura.
A diretora, aliás, imprime ao filme uma energia expansiva e colorida, que flerta com o exagero dos desenhos animados. Câmeras angulares, cortes rápidos, sequências coreografadas como se estivessem prontas para viralizar nas redes sociais: tudo isso pode soar artificial para alguns espectadores, mas é difícil negar que há aqui um esforço de estilização que vai além do mero piloto automático que costuma dominar projetos do tipo. Há cenas em que o humor físico alcança um nível de precisão tão grande que lembram a tradição das screwball comedies (subgênero de comédia muito comum nos Estados Unidos entre os anos de 1930 e 1940), especialmente quando Curtis assume sua veia circense e interpreta uma adolescente rebelde dentro do corpo de uma sexagenária. É nesses momentos que o filme brilha de maneira mais autêntica.
No campo narrativo, a roteirista Jordan Weiss busca equilibrar reverência ao passado com uma roupagem atual. A escolha de inserir temas contemporâneos, como as dificuldades das famílias recompostas e o desafio de construir vínculos afetivos em meio a novas configurações familiares, dá ao filme uma camada emocional que vai além da mera repetição de fórmulas. Não é um mergulho profundo em dilemas sociais, isso porque estamos falando de uma comédia da Disney, mas há honestidade na forma como a história sugere que compreender o outro exige, às vezes, literalmente, viver no corpo dele.
Um dos maiores atrativos, sem surpresa, é o reencontro entre Lohan e Curtis. A química entre as duas permanece intacta, como se o tempo tivesse apenas acrescentado novas camadas às suas performances. Lohan, que retorna em grande forma, após anos como garota problema, parece particularmente confortável em revisitar um papel que marcou sua carreira. Ela entrega momentos de leveza e emoção. Curtis, por sua vez, reafirma seu talento único em transitar entre o drama e a comédia, roubando a cena sempre que exagera na fisicalidade de sua atuação.
As jovens atrizes Julia Butters e Sophia Hammons também merecem menção. A primeira traz um frescor encantador, equilibrando insegurança adolescente e sagacidade, enquanto a segunda se sai bem como a enteada que precisa aprender a conviver em uma nova dinâmica familiar. Ainda que, por vezes, o roteiro lhes dê falas forçadas ou situações pouco verossímeis, ambas conseguem sustentar o peso de contracenar com gigantes como Curtis e Lohan.
É claro que o filme não escapa de certos tropeços. Algumas sequências parecem planejadas apenas para agradar algoritmos de TikTok e Instagram, o que pode frustrar quem espera uma narrativa mais orgânica. Há também uma previsibilidade inevitável, afinal, sabemos desde o início que a confusão corporal terá uma solução conciliatória. Além disso, o excesso de referências ao filme de 2003, embora compreensível como estratégia de apelo nostálgico, às vezes funciona como uma muleta criativa. Mas mesmo nesses momentos menos inspirados, a produção nunca perde o senso de diversão.
Um ponto interessante é como o filme dialoga com a ideia da nostalgia. Diferente de muitos produtos recentes que apenas exploram memórias afetivas de forma mecânica, Uma Sexta-feira Mais Louca Ainda tenta recriar a sensação genuína de revisitar o passado. Há uma melancolia doce em ver personagens amadurecidos lidando com novos dilemas, enquanto o público se lembra de quando os conheceu. Esse aspecto talvez explique por que o filme consegue agradar diferentes gerações: os jovens que descobrem a história agora, os que cresceram com Lohan em 2003 e até os que lembram do original de 1976, aquele com Jodie Foster.
Por que ver esse filme? No fim das contas, o longa não pretende reinventar a roda. Ele é, sim, um produto Disney pensado para bilheteria, mas não se resume a isso. Há capricho, há carinho com o material e, sobretudo, há um reconhecimento de que o público merece mais do que um exercício de fan service vazio. Uma Sexta-feira Mais Louca Ainda é engraçado, vibrante e, em seus melhores momentos, até emocionante. Pode não agradar aos que rejeitam qualquer dose de exagero ou constrangimento cômico, mas, para quem se deixa levar pelo jogo, a recompensa é uma experiência calorosa que reafirma o poder da comédia familiar de reunir plateias inteiras em torno de risadas compartilhadas. Talvez esse seja o grande mérito do filme: lembrar ao público de que, por trás das trapalhadas, dos exageros e das piadas físicas, há algo profundamente humano em querer se colocar no lugar do outro, nem que seja só por uma sexta-feira mais louca ainda. Boa sessão!

