Song Sung Blue: Um Sonho a Dois


As semanas que antecedem o Oscar costumam ser o melhor momento para ir ao cinema. É quando surgem estreias interessantes, quase sempre indicadas em uma ou mais categorias, que chamam a atenção por diferentes motivos. Desta vez, o destaque é um drama musical cheio de personalidade, que rendeu a Kate Hudson uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Sobre Song Sung Blue: Um Sonho a Dois, uma obra singular, baseada em fatos reais, você confere uma análise completa na coluna Sétima Arte desta semana.
O diretor Craig Brewer nunca pareceu muito seduzido por histórias de sucesso pleno, daquelas em que tudo se encaixa no último ato e o aplauso final soa como recompensa justa. Basta olhar para sua filmografia: em Ritmo de um Sonho, de 2005, o rap surge menos como promessa de ascensão social e mais como válvula de escape para personagens presos a um ciclo de frustrações. Já em Meu Nome é Dolemite, de 2019, mesmo ao narrar uma trajetória marcada pela inventividade e pela insistência, Brewer se interessa mais pelo processo, pelos tropeços e pela precariedade do fazer artístico do que por um final plenamente redentor. Seu Song Sung Blue: Um Sonho a Dois que acabou de chegar aos cinemas parte exatamente dessa recusa. Ainda que vista as roupas conhecidas do cinema biográfico musical, o filme prefere observar o que acontece quando o triunfo vem pela metade ou quando ele simplesmente não vem.
A história real de Mike e Claire Sardina, conhecidos nos palcos como Lightning & Thunder, não é a de uma dupla que conquistou o mundo. É a de um casal que encontrou na música uma forma de continuar existindo. Eles cantaram por anos em bares, eventos regionais e palcos improváveis no interior dos Estados Unidos, construindo um show-tributo a Neil Diamond que lhes rendeu reconhecimento local, algum dinheiro e momentos tão improváveis quanto dividir o palco com Eddie Vedder em meados dos anos 1990. Nada disso, porém, muda o fato de se tratar de uma fama modesta, frágil, sempre à beira de desaparecer.
Brewer parece genuinamente interessado nessa zona intermediária entre o anonimato e o estrelato. O filme não tenta convencer o espectador de que Lightning & Thunder foram “injustiçados” pela indústria, nem de que estavam destinados a algo maior. Pelo contrário, o que se vê é uma sucessão de esforços sinceros que nunca encontram um terreno realmente favorável. E talvez por isso Song Sung Blue seja menos sobre carreira e mais sobre insistência.
O problema é que, de acordo com a narrativa, o filme nem sempre confia nessa simplicidade. Há uma clara tentação de seguir o manual do Oscar: tragédias sucessivas, trilha sonora emocionalmente sublinhada, diálogos que explicam sentimentos antes mesmo que o espectador tenha tempo de percebê-los. Em determinados momentos, a sensação é a de que o roteiro tem medo do silêncio, da ambiguidade ou do desconforto. Tudo precisa ser organizado, compreendido, conduzido. E aí vem a o resultado final, seguiu tão à risca a cartilha que levou somente uma indicação ao Oscar 2026!
A escolha por trilhar esse caminho fica evidente na maneira como os acontecimentos mais duros da vida do casal são apresentados. Acidentes, doenças, lutos e frustrações se acumulam quase como itens de uma lista. Não há glamourização do trauma, o que é um mérito, mas também falta espaço para que essas dores realmente se instalem. O filme avança rápido demais, como se estivesse sempre preocupado em chegar ao próximo ponto da linha do tempo.
Curiosamente, é no palco que Song Sung Blue encontra sua melhor forma. Quando Mike e Claire se transformam em Lightning & Thunder, o filme relaxa. A câmera se aproxima, os cortes diminuem, os olhares passam a dizer mais do que os diálogos. Hugh Jackman assume novamente o papel de showman com a naturalidade de quem passou anos no teatro musical (a mesma exibida no empolgante O Rei do Show, de 2017), e isso nunca surpreende. Já Kate Hudson, por outro lado, carrega o filme com uma entrega mais instável, mais arriscada e justamente por isso mais interessante. Sua Claire é ao mesmo tempo excêntrica, vulnerável e teimosa, uma mulher que se recusa a abrir mão da música mesmo quando o corpo e a vida parecem pedir o contrário. É justamente essa complexidade que garantiu a ela a indicação tão esperada ao Oscar. Não por acaso, é ela quem dá ao filme seu centro emocional mais consistente. Hudson sustenta bem os exageros performáticos exigidos pelo palco e encontra alguma delicadeza nos momentos fora dele, especialmente após o acidente que redefine sua relação com o próprio corpo e com a ideia de futuro. A química entre ela e Jackman funciona menos como romance idealizado e mais como parceria de sobrevivência, o que combina com a proposta do filme.
Ainda assim, existe uma sensação persistente de que Song Sung Blue poderia ir mais longe e escolhe não ir. Brewer não abraça totalmente a artificialidade da performance, nem se permite mergulhar na tragédia de maneira mais dura. Tudo fica num meio-termo confortável, que agrada, mas raramente desafia. É um filme que prefere conduzir a emoção do espectador pela mão, em vez de confiar que ele pode chegar lá sozinho.
As músicas de Neil Diamond cumprem bem seu papel, especialmente “Sweet Caroline”, usada com plena consciência de seu poder coletivo. Não é exatamente sobre a canção em si, mas sobre o gesto de cantá-la junto, de pertencer a algo por alguns minutos. Nesse sentido, o filme acerta ao entender a música como espaço de comunidade, não como promessa de redenção.
Por que ver esse filme? No fim das contas, Song Sung Blue: Um Sonho a Dois é um filme que talvez funcione melhor quando lembrado do que quando assistido e é claro que isso já justifica a ida ao cinema. Ele não reinventa o gênero, não explora todas as possibilidades de sua história e certamente não escapa de fórmulas conhecidas. Mas há algo de honesto em sua recusa ao triunfo fácil. É um filme sobre continuar cantando mesmo quando a vida insiste em desafinar e, embora isso não seja suficiente para torná-lo memorável, é o bastante para torná-lo digno de atenção. Boa sessão!

