Rinha de homens

Na cidade em que nasci, Cruz das Almas, há uma tradição muito perigosa: a guerra de espadas. Só que não estou falando de duas ou mais pessoas fazendo tinir o barulho do metal pelos ares. A famigerada guerra da minha cidade consiste em pessoas que “brincam” jogando para lá e para cá, pequenos canos de bambus preenchidos com barro e pólvora amarrados com encerado barbante.
Não me vanglorio disso, pelo contrário, sigo incrédula que tamanha sandice, que já levou tantas vidas, tenha se tornado orgulho para algumas muitas pessoas lá pelas bandas do Recôncavo. Mas não estou sozinha na minha tristeza “pátria”, creio que lá pelas bandas de Santa Catarina, muitas pessoas também não se sintam envaidecidas com a farra do boi.
Creio que soltar um boi em um local para persegui-lo, agredi-lo e provocá-lo até a exaustão ou morte é pior que lançar espadas de fogo, afinal o pobre animal não tem escolha, diferente do péssimo costume cruzalmense.
Por falar em escolhas, alguns esportes também me deixam contra parede. No boxe e em todas as suas ramificações, por exemplo, o vencedor é quem bate mais, quem mais machuca, quem espanca até quase morte. O Isso me cheira tão anticivilizatório...
Choca, entre os outros fatores, ver a vibração do público. Porém, me choca mais ainda quando não se trata de diversão nem legado cultural e, mesmo assim, diverte grande número de pessoas.
Recentemente, numa das feiras livres aqui em Boa Vista, a Feira do Produtor, dois homens entraram em desavença para ver quem descarregava sacos de limão. Eram dois pobres homens, provavelmente aquele caminhão de limões lhes dariam o alimento do dia. Rolaram uma rampa em luta corporal. Socos, pontapés, cabeçadas, mordidas e grunhidos emergiram daqueles dois corpos agora mais sujos que antes.
Gritei em sobressalto para que a rápida plateia masculina que se formou, acabasse com o tormento, não só dos dois, mas meu também. Me desesperava ver aquele show de horrores, covardia da desigualdade que os une e, ao mesmo tempo, separa.
Enxerguei bichos na imundície no pátio, os outros espectadores enxergaram diversão na desgraça lançada a céu aberto. Entre eles, um se predispôs a acabar com a “festa”. Apenas um em meio as duas dezenas de olhos que riam.
Para mim, eram dois miseráveis que se digladiavam por um prato de comida, para a maioria, porém, eram dois galos de briga, cães raivosos treinados para entreter e enriquecer seus donos. Embate humano alimentado pela deformada civilizada sociedade atual.

