Os meus sonhos, os meus feijões

Ao escrever este texto eu tenho 37 anos, e talvez quando ele for publicado eu tenha 38, e ao longo desse percurso minha vida tem sido um flertar entre o feijão e o sonho. "O feijão e o sonho" é uma obra de Orígenes Lessa, que traz a história de Campos Lara, um escritor que vive a alimentar os seus sonhos, e Maria Rosa, a esposa do escritor, que vive na pindaíba porque o marido esquece do sustento da casa para alimentar os sonhos.
No meu caso, os sonhos já custaram o feijão em algumas oportunidades, mas, também nunca deixei de comer e de honrar com as minhas dívidas, ao contrário de Campos Lara. Eu não sou um apologista da miséria. Mas, a metáfora continua valendo porque eu tive a felicidade de não matar a criança no adulto, o que, segundo Nietzsche, seria uma das tragédias: "A maturidade do homem é ter reencontrado a seriedade que tinha quando criança ao brincar".
Por causa dos sonhos eu continuo a escrever os meus livros, a viajar, a comprar livros e a ter conversas aleatórias com a minha família. Por outro lado, sobretudo após o nascimento da minha filha, o feijão me faz priorizar a qualidade de vida da minha casa, visando uma base para podermos crescer e viver com dignidade.
Mas, o que permanece é que o ser humano deve se alimentar não somente de feijão, mas de sonhos, de modo que se ele deixar os sonhos de lado a sua vida perderá o sabor, e, ainda que ele tenha feijões, estes serão insosso.

