O Diabo Veste Prada 2


Não há dúvidas de que a sensação do cinema no último fim de semana prolongado foi a estreia de O Diabo Veste Prada 2. É incrível como essa história de 20 ano atrás ainda se mostra presente no imaginário de toda uma geração que, com avidez, lotou salas de cinema para bisbilhotar um pouco mais da vida tão fascinantes e tão diferentes quanto as protagonistas. Essa semana a Coluna Sétima Arte vai deixar você muito bem informado sobre esse grande sucesso do cinema.
Voltar ao universo de O Diabo Veste Prada depois de tanto tempo parecia uma aposta arriscada. O primeiro filme se fechava com elegância, deixando seus personagens em um ponto de equilíbrio raro entre ambição e consciência. Bem por isso, retomar essa história duas décadas depois poderia soar como insistência desnecessária. Felizmente, a continuação encontra um caminho próprio e, mais importante, entende que o mundo mudou e que, de certa forma, seus personagens também precisavam mudar com ele.
A trama reposiciona a revista Runway em um cenário que já não é mais dominado pelo papel. Com o advento da era digital, tudo gira em torno de cliques e métricas. Esse deslocamento não é apenas pano de fundo, ele move a narrativa. Miranda Priestly já não é a figura intocável de antes; ainda poderosa, ainda temida, mas agora pressionada por decisões corporativas que fogem ao seu controle. É nesse contexto que Andy Sachs retorna, não mais como assistente insegura, mas como uma profissional experiente, com cicatrizes e conquistas que pesam em suas escolhas.
O grande acerto do filme está justamente nesse reencontro. Há um jogo interessante entre passado e presente, especialmente na forma como Miranda e Andy se observam. Não é mais uma relação de submissão e aprendizado. Existe tensão, respeito e, em alguns momentos, até uma espécie de cumplicidade silenciosa. O roteiro acerta ao não repetir a dinâmica original, permitindo que as duas ocupem espaços mais complexos. Ao mesmo tempo, mantem o ritmo e inclusive referências que só quem é fã do filme original irá perceber, como, por exemplo, uma certa comparação de cintos (risos).
Sobre as protagonistas, Meryl Streep continua impressionante. Sua Miranda mantém a postura rígida, o olhar calculado e o controle absoluto das palavras, mas agora expondo, mesmo que de forma fria e controlada, uma certa vulnerabilidade. Vulnerabilidade esta que se faz perceber em certas pausas, em silêncios e em escolhas sutis de interpretação. Streep encontra momentos de humanidade sem descaracterizar a personagem, o que dá ao filme algumas de suas cenas mais interessantes. Não é uma reinvenção, mas um aprofundamento. O roteiro consegue ir além da personagem apresentada na obra original, no caso o livro, e ampliá-la de forma convincente. Anne Hathaway, por sua vez, sustenta o filme com naturalidade. Sua Andy carrega um cansaço que faz sentido para alguém que percorreu um caminho exigente. Ainda existe carisma, mas ele vem acompanhado de inseguranças mais maduras. Hathaway consegue equilibrar essa nova fase sem perder a essência que fez a personagem funcionar no primeiro filme. Em muitos momentos, é ela quem ancora emocionalmente a história.
Já o elenco de apoio ostenta o grande Stanley Tucci de volta com a mesma leveza de antes e continua sendo um dos maiores trunfos do elenco. Seu Nigel funciona como respiro, mas também como consciência crítica daquele universo. Ele transita entre o humor e a sensibilidade com facilidade, e há pelo menos uma cena em que sua presença muda completamente o tom do filme. Emily Blunt, apesar de eficiente, acaba um pouco limitada pelo roteiro. Sua personagem ainda rende bons momentos, especialmente nas interações mais ácidas, mas falta um desenvolvimento mais consistente. Há a sensação de que sua trajetória poderia ter sido melhor explorada dentro dessa nova realidade da moda.
Do ponto de vista visual, o filme mantém o apelo estético que sempre foi uma de suas marcas. As locações ajudam bastante, principalmente nas sequências realizadas em Milão. Existe um cuidado em preservar o glamour, ainda que ele apareça contrastado com um ambiente mais pragmático e menos encantado do que antes. Em alguns momentos, no entanto, a fotografia parece genérica, quase próxima de produções feitas para streaming, o que tira um pouco da identidade que marcou o original. Já o roteiro oscila. Quando se concentra nos conflitos centrais, especialmente na crise da Runway e na transformação da indústria, ele funciona bem. Há reflexões interessantes sobre a perda de valor em nome da velocidade e da eficiência. O roteiro é assertivo também quando se propõe a aprofundar a personalidade das personagens centrais. Porém, em outros momentos, a narrativa se apressa, explicando demais e antecipando situações que poderiam ter mais impacto se fossem construídas com mais calma.
Mesmo diante da oscilação do roteiro, o filme encontra ritmo suficiente para se manter envolvente. Ele sabe equilibrar nostalgia com atualização, sem depender apenas de referências ao passado. As participações especiais e os acenos ao primeiro longa estão ali, mas não dominam a experiência. No fim das contas, o que faz essa continuação valer a pena é a forma como ela revisita personagens que já conhecemos, colocando-os diante de um mundo que não funciona mais como antes. Existe um interesse genuíno em entender o que sobra quando o prestígio deixa de ser garantido e quando o sucesso precisa ser constantemente reinventado.
Por que ver esse filme? Assistir a O Diabo Veste Prada 2 no cinema vale pela experiência completa. Pelo elenco que ainda funciona muito bem em conjunto, pelos momentos em que o filme encontra sua melhor forma e, principalmente, pela curiosidade de reencontrar figuras tão marcantes em uma fase diferente da vida. Não é um retorno perfeito, mas é um retorno que faz sentido e isso já é mais do que se poderia esperar depois de tanto tempo. Boa sessão!

