Michael,

Alguns ícones do pop são figuras tão emblemáticas que, por mais que suas trajetórias de vida sejam um material rico para uma boa história no cinema, não deveriam ser exploradas de maneira comercial como entretenimento. Para isso, vale a pena lançar mão do distanciamento do tempo, pois, quando gerações começam a se esquecer das obras e da vida de grandes astros, esse seria o melhor momento para trazê-los de volta à tela grande. Porém, para o lançamento desta semana, tenho minhas dúvidas se essa era a melhor hora de acessar a trajetória de alguém que marcou tão profundamente o mundo da música quanto Michael Jackson, mesmo assim, para os fãs, a obra é muito mais do que entretenimento. Sobre Michael, que acaba de chegar aos cinemas, você ficará muito bem informado na coluna desta semana.
Assistir a Michael no cinema é, antes de tudo, entrar em contato com uma figura que dispensa apresentações e, ao mesmo tempo, parece sempre escapar de qualquer tentativa de definição completa. O filme dirigido por Antoine Fuqua entende bem o tamanho do desafio que tem nas mãos, ainda que nem sempre saiba como aprofundá-lo. O resultado é uma experiência que oscila entre o encantamento imediato e uma certa sensação de superficialidade.
A narrativa acompanha a trajetória de Michael Jackson desde os tempos de Jackson 5 até a consolidação da carreira solo nos anos 1980. É um recorte estratégico, que privilegia a ascensão meteórica e evita zonas mais espinhosas da vida do artista. Essa escolha não chega a comprometer o envolvimento do público, mas limita o alcance emocional da história. Em vez de um retrato completo, o que se vê é uma seleção de momentos-chave organizados para manter o ritmo e destacar o brilho do protagonista.
E brilho é algo que não falta quando Jaafar Jackson entra em cena. Sua interpretação é o coração do filme. Mais do que uma simples imitação, ele constrói um Michael convincente nos gestos, na postura e, principalmente, na energia de palco. Há momentos em que a semelhança impressiona, mas o que realmente sustenta o trabalho é a naturalidade com que ele ocupa o papel. Ele não tenta reinventar o ícone, nem caricaturá-lo. Apenas o deixa acontecer diante dos olhos do espectador.

Essa construção ganha ainda mais força nas sequências musicais. O filme sabe que tem em mãos um repertório praticamente imbatível e usa isso a seu favor. As apresentações são filmadas com cuidado e têm impacto. É quase impossível segurar a vontade de cantar junto. Existe uma pulsação ali que funciona, que conecta o público diretamente com aquilo que fez de Michael Jackson um fenômeno global. Outro acerto importante está na escolha de Juliano Valdi para interpretar o Michael criança. Ele traz leveza e carisma, mas também sugere, ainda que de forma discreta, o peso que já existia naquela infância. Sua presença em cena é marcante e ajuda a dar início à trajetória com um tom mais humano, antes que a grandiosidade da fama tome conta de tudo. Colman Domingo, como Joe Jackson, segue um caminho mais intenso. Sua atuação é carregada, às vezes até exagerada, mas cumpre bem o papel de representar uma figura rígida e dominante. Ainda assim, o roteiro evita explorar com profundidade as consequências dessa relação. Há sinais de conflito, mas eles aparecem de forma diluída, como se o filme tivesse receio de se demorar nesses momentos.
Esse cuidado excessivo em não entrar em terrenos mais delicados acaba sendo um dos pontos que mais chamam atenção. O filme sugere muito, mas desenvolve pouco. Aspectos importantes da vida de Michael, como suas transformações físicas, suas inseguranças e suas relações profissionais, são apresentados de maneira rápida. Para quem já conhece a história, isso pode soar como uma oportunidade perdida. Para quem não conhece, funciona como uma introdução acessível, ainda que simplificada.
A direção de Fuqua aposta em uma estrutura dinâmica, com cortes frequentes e uma montagem que tenta manter o ritmo sempre em alta. Em alguns momentos, isso funciona bem, principalmente nas passagens musicais. Em outros, especialmente nas cenas mais íntimas, a sensação é de que falta tempo para respirar. O filme parece sempre com pressa de chegar ao próximo grande momento. Apesar dessas limitações, há algo que sustenta a experiência do começo ao fim. Existe um cuidado evidente na recriação de época, nos figurinos e na ambientação. O espectador é transportado para diferentes fases da carreira do artista com relativa facilidade. Isso contribui para a imersão e ajuda a manter o interesse mesmo quando a narrativa não se aprofunda tanto quanto poderia.
No fim das contas, Michael é um filme que aposta mais no impacto imediato do que na construção de longo prazo. Ele prefere emocionar pela música, pela presença de palco e pela nostalgia do que provocar reflexões mais complexas sobre seu personagem. Isso não o torna um filme vazio, mas define claramente suas prioridades.
Por que ver esse filme? Vale a pena ver no cinema justamente pela experiência coletiva, pelo som alto, pela imagem ampliada e pela força das performances musicais. É o tipo de filme que ganha outra dimensão na sala escura, cercado por gente que reconhece aquelas músicas nos primeiros segundos. Talvez não seja o retrato definitivo de Michael Jackson, nem o mergulho mais profundo em sua história. Mas é um convite honesto para revisitar sua trajetória e, principalmente, lembrar por que ele se tornou um dos maiores artistas de todos os tempos. E, só por isso, já justifica o ingresso. Boa sessão!

