Marc Bloch. “Apologia da história, ou, O ofício de historiador”

Resumindo tudo, as causas, em história como em outros domínios,
não são postuladas. São buscadas.
Marc Bloch, 2001, p. 159.
Recordo-me das primeiras aulas da disciplina de Introdução aos Estudos Histórico, no primeiro ano da graduação, em que o professor indicou o livro do mestre francês. Uma pena, porém, que não lemos todo o livro, mas somente a Introdução, o que me deixou com o desejo de, algum dia, lê-lo inteiramente. A leitura inicial foi em 2007 e só o li por completo em 2021. Antes tarde do que mais tarde ainda. O que hoje sei é que “Apologia da história, ou, O ofício de historiador”, deveria ser lido ao menos duas vezes ao longo da graduação, de tão fundamental que é.
O livro de Marc Bloch parte da pergunta de seu filho sobre o que é a história e qual a sua importância. A partir desse fio condutor, perseguido incansavelmente, Bloch escreveu cinco capítulos: 1º A história, os homens e o tempo; 2º A observação histórica; 3º A crítica; 4º A análise histórica; 5º (Sem título). E por que o último capítulo não tem título? Porque o historiador não conseguiu concluí-lo, pois foi fuzilado, em 16 de junho de 1944, por ordens de Klaus Barbie. Sobre “Apologia da história”, dirá de modo magistral Jacques Le Goff: “Este livro inacabado é um ato completo de história.” (LE GOFF, 2001, p. 34).
Para deixar esta resenha nítida, a dividirei em cinco tópicos. Este teor didático casa bem com a preocupação metodológica de “Apologia”.
1 – O ofício de um escritor
Conforme dito, “Apologia da história, ou, O ofício de historiador”, parte de uma pergunta do filho de Marc Bloch, e, por causa disso, o historiador terá por preocupação falar sobre o seu ofício da forma mais clara possível, senão vejamos: “Pois não imagino, para um escritor, elogio mais belo do que saber falar, no mesmo tempo, aos doutos e aos escolares. Mas simplicidade tão apurada é privilégio de alguns raros eleitos.” (BLOCH, 2001, p. 41). Entretanto, essa clareza em nada perde em profundidade, ao contrário, nesta obra são discutidos temas como o método crítico, nomenclaturas, o positivismo, a observação histórica, os documentos e o papel das testemunhas. Acontece que, como bom escritor, Marc Bloch não precisa escrever difícil; e, como bom historiador que é, sabe aliar a erudição ao engajamento, à ação. Percebe-se, desde já, uma crítica ao eruditismo, posto que o historiador só pode ser assim chamado se for, ao mesmo tempo, um homem de ação, um homem que vê a história como algo vivo. Qual o sentido de associar a história ao passado? Nenhum, pois pó faz qualquer um espirrar. Segundo o mestre, a história é “ciência dos homens no tempo” (BLOCH, 2001, p. 67).
“Apologia da história”, ainda, é um livro metodológico, o que não poderia ser diferente, pois tratará do historiador em sua oficina. E qual é a oficina do historiador? A busca pelo saber, que é ativa, e o lidar constante com o método crítico. Este método sabe que as coisas não podem ser restauradas em sua pureza, em sua originalidade, o que não significa relativismo: “O historiador, já o dissemos, não estuda o presente com a esperança de nele descobrir a exata reprodução do passado. Busca nele simplesmente os meios de melhor compreender, de melhor senti-lo. É do que as falsas notícias da guerra dão, se não me engano, um exemplo muito bom.” (BLOCH, 2001, p. 109). Na verdade, o que se busca é a verdade, mas esta traz em si nuances, sendo estas investigadas pela observação histórica.
Há parâmetros para avaliar testemunhos e documentos, mas, é preciso jamais se encerrar no dogmatismo dos parâmetros. Às vezes, é preciso quebrá-los, é o que nos revelam as revoluções e as descobertas. Por causa de tudo isso, a história é vida, logo, o historiador é um homem de ação. Marc Bloch, por exemplo, se engajou contra o nazismo, filando-se à Resistência Francesa, e o preço, o trágico preço, foi a sua morte. É por causa disso que Jacques Le Goff que “Apologia” é um “ato completo de história”.
2 – A erudição
Sim, Marc Bloch tinha uma erudição excepcional, porém, não daquela ordem passiva, que se prende aos documentos pelos documentos, descuidando-se da vida, do poder da vida. A crítica ao eruditismo, todavia, em nada se confunde com a promoção da ignorância. O que se percebe na postura de Bloch é uma crítica interna, sempre necessária. Em tempos sombrios, como bem relatados por Theodor Adorno, em “Educação e emancipação”, e por Hannah Arendt, em “Homens em tempos sombrios”, parece que criticar o eruditismo é fazer apologia à ignorância. Há quem cinicamente diga, contra a ciência: “lendo estudo e nunca viram doente na vida.” Ora, levar uma crítica pura, como a de Bloch contra o saber pelo saber, para outra direção, é antes prova de má-fé.
O ponto crucial é que o erudito não olha a vida em sua potência criativa. Ele pode ser útil ao saber, sim, organizando arquivos, criando índices, como um “útil antiquário”, porém, daí a considerar-se um historiador o caminho é longo, e é essa a crítica do historiador francês. A vida, para Bloch, é intensa, obscura, o que não é a torna impossível de ser considerada de modo inteiramente claro. O que o eruditismo criticado por Bloch quer é justamente esquadrinhar a vida, não se conformando com o fato de que, por mais que ele, erudito, se esforce, a vida está sempre a passos largos à sua frente. Nas palavras de Bloch: “Mas o erudito que não tem o gosto de olhar a seu redor nem os homens, nem as coisas, nem os acontecimentos, [ele] merecerá talvez, como dizia Pirenne, o título de um útil antiquário. E agirá sensatamente renunciando ao de historiador.” (BLOCH, 2001, p. 66).
3 – O ofício de historiador
Segundo citado, a história é “a ciência dos homens no tempo”. Não há ciência parada no tempo, mas, para a história, essa possibilidade é ainda mais remota. Os fatos já aconteceram, no entanto, a forma de olhá-los se transforma dia após dia. certamente, um historiador de 2021 observa os fatos diferente de um historiador do início do século XX, sendo um dos motivos, a forte presença de Marc Bloch e da Escola dos Annales no cenário internacional. Como é possível alguém estudar história medieval sem tomar conhecimento de Bloch e de Jacques Le Goff? Esses historiadores expressaram a verdade? As coisas não simples assim, mas, sob a ajuda do método crítico, souberam, sem dúvida, explorar, sob múltiplos olhares, a história. Ai de quem acreditar que pode dizer o que realmente aconteceu durante as Cruzadas, como se tivesse, ele próprio, vivido naquela época! Primeiro que nem por isso ele poderia dizer que sabe o que são as Cruzadas, pois o seu olhar é, no máximo, apenas um bom olhar, e, segundo, uma força se conecta a outras, ou seja, o sujeito fala sobre as Cruzadas a partir de uma linguagem, a partir de uma perspectiva de mundo, a partir de uma circunscrição histórica. Isso redunda em um relativismo? Não, mas em uma necessária prudência.
O que é o livro “Apologia da história”, nos termos do próprio autor? Uma “caderneta”, “o memento de um artesão”: “Só posso apresentá-lo pelo que é: o memento de um artesão que sempre gostou de meditar sobre sua tarefa cotidiana, a caderneta de um colega que manejou por muito tempo a régua e o compasso, sem por isso se julgar matemático.” (BLOCH, 2001, p. 50). Em outros termos, um testemunho de alguém que viveu o ofício que se propôs a explicar. Para que este ofício possa ser escritor de modo vivo – pois a história é viva -, o historiador precisa ser ele próprio um sujeito de ação. Ele pensa e sente, ele sente e pensa, de modo que teoria e prática lhe são indissociadas. É sob essa dinâmica que a universidade se estrutura, por meio do ensino, da pesquisa e da extensão. Ai do professor que só se considerar um pesquisador. Porém, se a sua pesquisa encontrar-se articulada com a vida, ninguém pode dizer que a sua ação é um conhecimento pelo conhecimento.
Comentários sobre a universidade à parte, ao aparecerem palavras como “caderneta” e “o momento de um artesão”, significa que são testemunhas do agir de Bloch em prol da ciência histórica. A história é, sim, uma ciência, com métodos, como o crítico, que busca a verdade. logo, ela tem como uma de suas premissas combater notícias falsas, as daninhas fake news, que no contexto pandêmico da covid-19 se multiplicaram. Ao o historiador posicionar-se contra as notícias falsas, ao promover uma alfabetização científica, ele está sendo um sujeito de ação, pois está atento às demandas de seu tempo.
4 – A história e a verdade
É o historiador um cético? É o historiador um crédulo? Nem uma coisa e nem outra. O ceticismo exacerbado leva ao relativismo. A credulidade exacerbada leva à cegueira. Relativismo e cegueira existem nos dois polos, pois são irmãos inseparáveis. O historiador duvida e acredita; acredita duvidando. Como alguém pode viver somente sob a esfera da dúvida? Isso é impossível. Como alguém pode viver só pela credulidade? A história morreria. O que se percebe é que tanto uma coisa quanto outra são prejudiciais ao historiador, que, antes, tem cuidado pela história como algo vivo. é preciso ter fé na humanidade sem, contudo, idolatrá-la.
A ciência histórica busca a verdade. todavia, a história também tem um pé na arte, sendo que esta também pode buscar a verdade. Quem há de dizer que não há muita verdade nos quadros de Portinari? Ou nos de Da Vinci? Ou nos de Picasso? A verdade histórica, porém, não é a da ordem do 1 + 1, mas, nem por isso é relativista. O perigo da história é quando não ampara nesses exemplos e em um livro como “Apologia da história” como seu guia. Porém, bem entendido, um guia que pode e que deve ser criticado, o que bem observou Marc Bloch: “Permanecerei portanto fiel às suas lições criticando-as, ali onde julgo ser útil, bastante livremente, como desejo que um dia meus alunos, por sua vez, me critiquem.” (BLOCH, 2001, p. 41). Eis a esfera do acreditar, eis também a da dúvida.
5 – A verdade é diferente do todo
Alguém querer estudar toda a história? Impossível. Porém, isso não significa que cada parte da história não deva ser estudada. O que está em jogo é que ninguém poderá jamais dizer: “Conheço toda a história.” Um historiador que assim falar deve renunciar ao título de historiador. Afirma Edgar Morin, em “A cabeça bem-feita”, que o todo é mais que a soma das partes e que se alguém estudar parte por parte de um objeto ainda assim não atingirá o todo. Quem é capaz de reproduzir a própria vida? Ou a de um ente querido? Ninguém. Todavia, isso não significa o oposto, o absoluto não saber. O que muitos eruditos não se conformam é justamente com isso: creem que sabem tudo de certo ponto da história ou de certo autor. Eis uma atitude frágil e infantil que deve ser evitada pelo cientista.
A história se afirma como fundamental para a sociedade na medida em que permite um maior rigor sobre a observação. Quem há de dizer que só por isso ela já não seria importante? Mas, tem mais, além de buscar a verdade, a história também diverte, como bem apontou Marc Bloch. É preciso, portanto, um múltiplo olhar sobre a história por parte do historiador, sob o risco dela se separar da vida. A história, conforme afirma o mestre francês, é a “ciência dos homens no tempo”. Eis um bom problema metodológico e pedagógico: ensinar com diversão.
Jacques Le Goff. Prefácio. In: March Bloch. Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Trad. de André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
Marc Bloch. Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Trad. de André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

