LITERATURA DE CORDEL: UMA EXPERIÊNCIA (PARTE 2)
Há quem pense que livros são chatos e cansativos; há quem os associe a textos enormes; há quem desanima só de pegá-los na mão; tudo isso pode ter um fundo de verdade, mas, após décadas de leitura, posso dizer que ler é uma experiência agradável e importante, ainda que possa cansar, ainda que o livro venha a ter mil páginas.
Admito que o parágrafo anterior foi um estranho início de texto, mas ele serve para expressar a complexidade que é o universo literário, intelectual, e também para eu afirmar que a literatura de cordel é, como regra, prazerosa, de rápida leitura e um excelente meio da pessoa se iniciar no universo literário. Quem possui um nível aprofundado de leitura a saboreará de um modo, e quem está nos primeiros rudimentos a verá sob outro ângulo. Essa é uma regra que serve para tudo na vida.
Geralmente, o livro de cordel é de poucas páginas, sendo comum encontrar obras de 4, 6, 8 e 10 folhas. O seu formato, de dimensões enxutas, facilita a impressão, que pode ser feita em qualquer impressora, o que deixa o custo baixo. Em Maringá, Paraná, encontrei livro de cordel de um escritor de Alagoas à venda por R$ 3,50, e, em Natal, Rio Grande do Norte, por R$ 2,50.
Além das características anteriores, a imagem da capa do cordel, geralmente uma ilustração, vem da xilogravura, uma técnica em que se utiliza a madeira como matriz, o que possibilita a réplica da imagem gravada sobre o papel ou sobre quaisquer outros meios propícios. A capa da obra costuma ser colorida, sendo as cores branca, amarelo, rosa, verde e azul as mais constantes. O modo de expô-los é diverso, mas é comum encontrá-los em um varal.
Eu tenho a felicidade de dizer que já conheci cordelistas, e que pude conversar à vontade com dois deles, Abaeté do Cordel e Chico do Iaiá. Ambos são artistas versáteis que não têm receios de tocar em diversos tabus. Na verdade, tocar é com eles mesmo. No caso de Abaeté, seus poemas logo se convertem em música e, com o pandeiro em mãos, passa a cantar as suas histórias. Cordel é música. Já Chico do Iaiá, quando o conheci, foi mais discreto, mas igualmente receptivo, me chamando de amigo ao me dedicar as suas obras. Eu realmente fico à vontade diante desses artistas.
A literatura de cordel é o que é: arte e entretenimento, mas também filosofia e protesto. Ou seja: possui um estilo próprio, diverte, mas também traz consigo um alto teor reflexivo que trabalhos acadêmicos extensos às vezes não dão conta. É nesse universo que se vê, nas páginas dos cordéis, figuras constantes, tais como Lampião e Maria Bonita, Luiz Gonzaga, Seu Lunga e Patativa do Assaré, e temas sociais espinhosos, como a seca, a pobreza e a política.
Eu admito que diante de livros eu me sinto uma criança, seja porque minha cultura é pequena diante do que já foi produzido, seja porque eu quero correr de um lado para o outro e pegar tudo em minhas mãos. Ao eu saber que na Casa do Cordel estava, além do presidente e cordelista Abaeté do Cordel, também Chico do Iaiá, comprei dois cordéis de sua autoria e, claro, pedi para autografá-los. Um desses livros é o forte “O Pobre – a Mola da Economia”, que abaixo passo a comentar, por meio de algumas estrofes.
1.
“A mola da economia
Que gera força e tração;
Move à máquina e dá vazão
Enriquece a burguesia.
São os pobres! Mas, se um dia,
Resolverem protestar
Não sei como vai ficar,
Nesse dia eu quero ver.
Como o rico vai fazer,
Sem ninguém para explorar.” (p. 2).
O protesto de Chico de Iaiá fica patente por meio desses versos. Como ver a pobreza e não se incomodar? Como ver a riqueza e também não se incomodar? Resposta: A menos que a mente esteja cauterizada e tudo tanto faz tanto fez. Contudo, ao ler esses versos, não pude deixar de pensar de modo trágico em “1984”, de George Orwell: “As massas nunca se revoltam por iniciativa própria, e nunca se revoltam não só porque são oprimidas. Acontece que enquanto não lhes for permitido contar com termos de comparação, elas nunca chegarão sequer a dar-se conta de que são oprimidas.” (ORWELL, 2014, p. 244).
2.
“Surge então um capataz,
Em meio dessa tragédia.
O seu nome é: Classe Média,
Que é ainda mais voraz.
Pensa que possui cartaz,
Entre o meio monetário.
Mas, é só um secretário,
Da elite intransigente.
Mas, no fundo ele se sente,
Um grande milionário.” (p. 5).
Ah, a “Classe Média”, que tantas vezes se ressente de sua origem e quer ser mais, sempre mais, nem que para isso ela negue a própria história. Como já citei Orwel, vale uma nova menção: “Os objetivos desses três grupos são inconciliáveis. O objetivo dos Altos é continuar onde estão. O objetivo dos Médios é trocar de lugar com os Altos. O objetivo dos Baixos, isso quando têm um objetivo – pois uma das características marcantes dos Baixos é o fato de estarem tão oprimidos pela trabalheira que só a intervalos mantêm alguma consciência de toda e qualquer coisa externa a seu cotidiano -, é abolir todas as diferenças e criar uma sociedade na qual todos os homens sejam iguais.” (ORWELL, 2014, p. 238). Nesse mesmo contexto, cito o simbólico diálogo entre os franceses Colbert e Mazarino em 1661:
“Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar (o contribuinte) já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...
Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!
Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criamos todos os impostos imagináveis?
Mazarino: Criam-se outros.
Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino: Sim, é impossível.
Colbert: E então os ricos?
Mazarino: Sobre os ricos também não. Eles deixariam de gastar. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
Colbert: Então como havemos de fazer?
Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente situada entre os ricos e os pobres: São os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tiramos. É um reservatório inesgotável.”
Uma observação: a este texto passei a trazer vários autores porque o cordelista, que é historiador, possui uma cultura universal, e sabe que o que se passa na França ou em Samoa bem pode se passar no Brasil.
3.
“Nesta luta desumana,
O pobre é quem paga tudo.
Já o rico pançudo,
Multiplica a sua grana.
Quanto a classe mediana,
Perde renda, mas escapa.
Vai vivendo de garapa
Na sombra da burguesia.
E mantendo a mordomia
Até uma nova etapa.” (p. 6).
Já dizia Carolina de Jesus: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.” (JESUS, 2021, p. 29). E também Cazuza: “A burguesia fede/ A burguesia quer ficar rica/ Enquanto houver burguesia/ Não vai haver poesia”. Sobre a música de Cazuza, em entrevista a Jô Soares, ele admitiu que pesou a mão, porém, o seu conteúdo, sem dúvida, nos faz pensar.
4.
“Aí vai haver lamento,
Muito choro e tantas queixas.
Vão lembrar que Raul Seixas,
Já previa este momento.
Quando em seu discorrimento
Numa música que gravou.
Mas, ninguém acreditou,
No “maluco” que cantava,
Sobre o dia que parava,
Mas, o dia então chegou.” (p. 7).
Por mais que a música de Raul seja de amplo conhecimento, não custa nada trazer alguns trechos a este texto: “O empregado não saiu pro seu trabalho/ Pois sabia que o patrão também não tava lá/ Dona de casa não saiu pra comprar pão/ Pois sabia que o padeiro também não tava lá/ E o guarda não saiu para prender/ Pois sabia que o ladrão, também não tava lá/ e o ladrão não saiu para roubar/ Pois sabia que não ia ter onde gastar”.
Agora que se imagine todas essas estrofes cantadas, ao som da sanfona e do pandeiro. Que se imagine o poeta cantando-as uma por uma. É por essas e muitas outras que eu posso afirmar que só se lê bem com o coração.
5 – Reticências finais
Após a viagem a Natal e dois textos escritos sobre a literatura de cordel, posso pedir a você, caro leitor, que viaje, que leia, que não se contente com o que lhe é imposto, seja pelos outros, mas, sobretudo, por si mesmo. O mundo é grande, vá conhecê-lo! Busque livros, busque escrever, busque conhecer novas pessoas. Como dizia Tom Jobim: “Longa é a arte, tão breve a vida.”
Dados biográficos do artista:
Francisco de Assis da Silva, conhecido como Chico de Iaiá, é natural de Santo Antônio do Salto da Onça, Rio Grande do Norte, nascido em 09 de dezembro de 1960. É historiador, cordelista, poeta, escritor, ocupa a cadeira 15 da Academia de Letras e Artes do Agreste Potiguar (ALAAP) e é membro da Associação Cultural Casa do Cordel.
Carolina Maria de Jesus. Quarto de despejo. São Paulo: Ática, 2021.
George Orwell. 1984. Trad. de Alexandre Hubner e Heloísa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
Dr. Felipe Figueira
Felipe Figueira é doutor em Educação e pós-doutor em História. Professor de História e Pedagogia no Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Paranavaí.