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Falar diferente não é falar errado


Por: Especial para JN
Data: 07/05/2026
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Quando alguém diz ‘‘nós foi ao mercado’’ e recebe, em resposta, uma correção constrangedora ou um olhar de reprovação, a questão ultrapassa a gramática, levando a um julgamento social. O preconceito linguístico uma prática recorrente no Brasil mostra-se um dos mais implícitos e, ao mesmo tempo, prejudiciais mecanismos de exclusão. Em um país com desigualdades regionais, étnicas e socioeconômicas fortemente presentes, a língua se tornou uma área de disputa de poder, onde certas formas de falar são ‘‘corretas’’ e outras, marginalizadas. Defender o respeito e o reconhecimento às variedades da língua portuguesa não é defender o erro, mas sim a dignidade humana.

          O linguista brasileiro Magnos Bagno, em sua obra “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz”, questiona o mito de uma língua única e imutável. Para Bagno, o preconceito linguístico é baseado no julgamento negativo referente à fala de pessoas específicas com base em critérios nada científicos. A língua, como qualquer fenômeno humano vivo, é marcada pela diversidade e constantes variações. Portanto, não existe uma única forma ‘‘certa’’ de falar, apenas a forma que seja adequada à situação.

          A diversidade linguística do português brasileiro é ampla. No tópico regional, evidenciam-se as entonações e vocabulários que diferenciam o sotaque gaúcho do nordestino, o carioca do mineiro. No tópico social, diferenciam-se as falas de grupos com maior ou menor acesso à escolarização. No tópico situacional, percebe-se a mudança de registro que ocorre de forma natural: ninguém fala com o chefe do mesmo modo que fala com os amigos. Essas variações não são erradas ou imperfeitas, mas a prova viva de que a língua é dinâmica, moldando-se a partir das experiências humanas.

          O problema central não está na variação, mas no modo como ela é interpretada e hierarquizada. Ao julgar como erradas determinadas falas, não se julga apenas a língua, mas a própria pessoa, seu lugar de origem, sua classe social. A conexão entre fala e valor humano não vem de hoje, ela é profundamente consolidada. Essa desvalorização linguística provoca a exclusão ao mercado de trabalho, à vida acadêmica e ao espaço público daqueles que falam de forma diferente do padrão.

          O sociólogo francês Pierre Bourdieu traz uma importante base teórica para compreender esse fenômeno. Bourdieu mostra que a língua para além de um meio de comunicação, é também um capital simbólico que foi distribuído de forma desigual entre os grupos sociais. Quem domina a variedade linguística de prestígio, obtém mais sucesso nas interações sociais, ao contrário de quem não a domina, que é frequentemente desvalorizado. A norma culta não é uma herança natural ou universal, é uma construção social feita e mantida pelos grupos dominantes para manter suas posições de poder. Portanto, colocá-la como única forma de expressão é uma ação política disfarçada de questão pedagógica.

          A escola ocupa um lugar central nesse debate, embora nem sempre atue de forma inclusiva. Stella Maris Bortoni-Ricardo, pesquisadora pioneira da sociolinguística educacional no Brasil, argumenta que o ensino tradicional de língua portuguesa tem privilegiado a norma padrão, negligenciando as variações trazidas pelos alunos. Há de se considerar que a norma culta – de prestígio – tem seu lugar, o problema é tratá-la como unívoca e legítima, ou seja, é essencial que se fale das adequações de aplicação da língua no cotidiano.

          Acerca disso, é fundamental incluir nos currículos escolares uma educação linguística que valorize a diversidade e desconstrua a ideia de ‘‘erro’’. Profissionais da educação devem ser formados para apoiar e reconhecer as diferentes formas de falar de seus alunos, não julgá-las ou hierarquizá-las. Nas empresas, nas instituições públicas e na mídia, a consciência sobre o preconceito linguístico deve crescer, pois são nesses espaços que a exclusão se manifesta, o que impacta negativamente a trajetória de vida das pessoas. Atuar contra o preconceito linguístico é sinônimo de combater a intolerância, que se faz muito presente no cotidiano.

          A língua portuguesa é um patrimônio coletivo, construído por séculos de encontros, conflitos e interações entre povos indígenas, africanos, europeus e tantos outros. Dizer que existe somente uma forma ‘’correta’’ é empobrecer essa herança e atacar a identidade de milhões de falantes. Quando ouvimos o outro sem julgá-lo pelo modo de falar, não estamos apenas praticando a tolerância, mas principalmente o respeito. E respeitar a diversidade da língua é, antes de tudo, respeitar as diversidades da vida.

 

Referências Bibliográficas

BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.

BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em Língua Materna: a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989.

 


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