De hoje em diante fica decretado que todo brasileiro tem que ouvir Belchior

Jacilene Cruz
Sou apaixonada por música, não é à toa que sempre falo delas nos meus escritos. Mas minha relação com ela é pela metade. Isso porque o que entra por todos os meus poros é a letra. A melodia é legal, porém as letras conversam comigo em todos os modos, tempos e pessoas verbais.
Em minhas tentativas de estabelecer uma rotina de caminhada semanal, levo comigo o celular cantando no meu ouvido. Apenas no meu, sou adepta da filosofia que nem todos precisam conhecer e compartilhar do meu gosto musical. Se bem que...
De vez em quando, sonho que tenho o poder de baixar um decreto e induzir todas as pessoas a ouvirem Belchior ao menos uma vez ao dia. Sei que vocês podem pensar que eu perdi o senso, inclusive ele pensaria isso, mas não perdi. Seria a oportunidade de experenciar poesia e serem poetas, ao menos por um breve instante.
Falo com convicção porque é impossível ouvir Paralelas sem imaginar o sulco fugaz que os pneus deixam quando passam pelas ruas alagadas pela água da chuva.
Quem defende que letra de música não é poesia, tem que se curvar diante da grandiosidade poética de Antonio Carlos. Foi ele quem melhor ilustrou a recepção que os nordestinos comuns tinham (ainda têm) quando chegavam no Sul/Sudeste: “Em cada esquina que eu passava, um guarda me parava / Pedia os meus documentos e depois sorria / Examinando o 3X4 da fotografia / E estranhando o nome do lugar de onde eu vinha”.
Eu poderia dizer que os versos: “Eu sou apenas um rapaz / Latino-americano, sem dinheiro no banco / Sem parentes importantes / E vindo do interior”, são a melhor resposta que o guarda poderia receber.
Na perspectiva do seria, as letras mais variadas se encadeiam. O latino-americano, em possível regresso a terra natal, já chegaria se defendendo: “Se você vier me perguntar por onde andei / No tempo em que você sonhava / De olhos abertos, lhe direi / Amigo, eu me desesperava”.
E, para colocar um pouco de drama, ele completaria: “E eu quero é que esse canto torto feito faca / Corte a carne de vocês / E eu quero é que esse canto torto feito faca / Corte a carne de vocês”.
Quem, ouvindo esses versos, não se permitiria expor e dizer: “Eu tenho medo e medo está por fora / O medo anda por dentro do teu coração / Eu tenho medo de que chegue a hora / Em que eu precise entrar no avião”?[i]
[i] Respectivamente, os títulos das músicas que estão entre aspas são: Fotografia 3x4, Apenas um rapaz latino-americano, A palo seco, A palo seco novamente e Pequeno mapa do tempo.

