BR 376: Rota dos afetos
Joyce Allane Apolinário Ferreira
Doutoranda em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Eu sempre fui muito observadora dos lugares por onde passei. Também sempre gostei de fazer analogias para falar de coisas que aprendi e senti. Foi assim que, em uma dessas minhas idas e vindas, escrevi este texto sobre a BR-376, não exatamente sobre a rodovia em si, mas sobre o que ela simboliza para mim e para tantas outras pessoas que a percorrem. Pessoas que aprenderam, desde cedo, que estrada nenhuma é apenas asfalto ou poeira. Estradas são feitas das paisagens que as ladeiam, das pessoas que as percorrem e dos afetos profundos que motivam as partidas e os retornos.
Dessa forma, esse texto fala mais do que sobre uma rodovia. Fala um pouquinho sobre mim, sobre você e sobre nós: estudantes que deixaram a casa do pai e da mãe para buscar formação; trabalhadores que encontraram emprego em cidades maiores, como Maringá; trabalhadores pendulares da região que partem cedo e chegam tarde; enfim, filhos e filhas que deixaram a casa dos pais para seguir rumo ao estudo ou ao trabalho e que têm, nessa estrada, o caminho que leva de volta para o colo dos pais, à mesa de domingo, à cidade pequena que guardou nossas primeiras paisagens e os trajetos que moldaram nossos primeiros passos.
Neste sentido, a BR 376 é um fio estendido sobre o mapa do Paraná, costurando cidades e carregando histórias de partidas e retornos.
Do ponto de vista estritamente geográfico, a BR-376 desenha uma longa diagonal pelo Sul do país, ligando Garuva (SC) a Dourados (MS) ao longo de aproximadamente 950 quilômetros que costuram paisagens distintas. Ao atravessar diferentes regiões, o percurso da rodovia evidencia a variação do relevo, o uso do solo e as dinâmicas econômicas inscritas no território. No Paraná, seu nome mais conhecido é Rodovia do Café, termo que, historicamente, se referia aos trechos que ligavam cidades produtoras de café. A cafeicultura influenciou diretamente a ocupação, a estruturação fundiária e a formação urbana no Norte e no Noroeste do estado.
Mas, para além da rota oficial, existe a rota percorrida individualmente, aquela que guarda os afetos. Em minhas memórias, recordo-me especialmente do trecho entre Maringá e o trevo que dá acesso a Loanda e aos municípios adjacentes. É nesse intervalo particular que a BR-376 ultrapassa a função de ligar pontos distantes no mapa e transforma-se em uma rota de lembranças, de vínculos e de pertencimentos que escapa à objetividade da cartografia.
Nesta rodovia, partido de Maringá em direção ao Noroeste, as placas ao longo do trajeto anunciam, uma a uma, as localidades que se sucedem: Iguatemi, Mandaguaçu, Nova Esperança, Alto Paraná, Paranavaí, a famosa Piracema, o trevo de Guairaçá, o trevo de Loanda...Cada um desses pontos constitui uma espécie de rosário territorial, marcando as etapas de quem parte e de quem retorna. Meu rumo, saindo de Maringá, sempre apontou para o extremo Noroeste, até Santa Cruz de Monte Castelo. Guardo muitas lembranças desse percurso: conversas distraídas entre amigos que dividiam a carona; malas improvisadas para o fim de semana com a família; a expectativa de chegar a tempo para o almoço em família.
Neste percurso, era comum receber uma ligação ou a mensagem da mãe, da avó ou do pai perguntando: “Está chegando, filha?”. E, do outro lado, a resposta quase automática: “Estou passando por Paranavaí”; “Já cheguei em Loanda”. Essas respostas funcionavam como um código afetivo que significava que faltava pouco mais de uma hora (no caso de Paranavaí) ou cerca vinte minutos (no caso de Loanda) para o reencontro.
Talvez seja por isso que, mesmo depois de anos, seguimos repetindo o ritual afetivo das mensagens enviadas no meio do caminho, como quem partilha uma atualização de localização emocional: “Mãe, estou passando por Paranavaí.” É o anúncio silencioso de que a distância está diminuindo e de que, em breve, o reencontro deixará de ser expectativa para se tornar presença.
Paranavaí, neste trajeto, assume um papel especial. Ao cruzar a cidade rumo a Loanda, no alto do espigão que separa as bacias hidrográficas do rio Paranapanema, à direita, e do Ivaí, à esquerda, a paisagem se abre e o ar muda. Quem conhece o caminho sabe: aquele ponto é mais do que um divisor de águas. É um divisor de pertencimentos. Assim como o relevo orienta os cursos d’água que, embora sigam direções distintas, caminham para o encontro com o grande rio Paraná, também o viajante, ao passar por esse trecho, passa a orientar o coração. Dali em diante, cada quilômetro é aproximação: do lugar familiar, dos vínculos afetivos, da memória que se reconhece no território. Assim, tal como a água dos rios segue ao seu leito maior, o coração encontra sempre uma forma de voltar para casa.
E, por falar em lugares que redefinem rumos, próximo a esse mesmo trecho da BR-376 está a Unespar campus Fafipa, espaço de conhecimento, onde tantos estudantes da região aprenderam a ler o mundo por meio da educação e da ciência. Eu mesma percorri, por quatro anos consecutivos, os cerca de 100 quilômetros que separam aquele campus de Santa Cruz de Monte Castelo. Era a geografia, mais uma vez, desenhando caminhos que são, ao mesmo tempo, partida e regresso: rumo ao estudo, rumo à casa, rumo a quem somos e àquilo que ainda poderemos vir a ser.
E assim, quando o carro enfim desacelera na entrada de uma dessas pequenas cidades do Noroeste, algo acontece com o tempo: ele parece mudar, ficando mais lento, mais nosso.
É justamente nesse momento que a geografia oferece uma analogia interessante. Em cartografia, a escala pequena representa áreas grandes, com poucos detalhes; já a escala grande aproxima, revela os detalhes. Assim também acontece nesse percurso: na velocidade da rodovia, tudo se apresenta grande, amplo, distante, como se a vida se desenhasse em escala pequena. Mas, ao entrar na pequena cidade, quando as ruas estreitas se mostram familiares, a “escala” da vida muda. O sentimento se amplia, os olhos se voltam ao simples, e aquilo que parecia diminuto ganha nitidez. Os detalhes se revelam: os comércios conhecidos que resistem ao tempo, as vozes conhecidas que anunciam quem se aproxima e o aceno de quem ainda te reconhece pelo nome.
Por tudo isso, escrevi este texto para expressar que a BR-376 é, para mim, também uma rota de afetos.

