As falsas conclusões sobre a doutrina da graça (Rm 3.7-8)

Por Sem. Fernando Razente[1]
No último texto desta coluna – ainda em 2025 – refletimos sobre Romanos 3.5–6, onde o apóstolo Paulo responde à terceira objeção levantada contra o seu argumento acerca da justiça graciosa de Deus.
Com o início deste novo ano, retomamos a exposição sequencial da Epístola aos Romanos, avançando agora para os versos 7 e 8 do capítulo 3, nos quais Paulo enfrenta a calúnia dirigida à doutrina da justificação graciosa.
Desde o início deste capítulo, Paulo estrutura seu raciocínio antecipando possíveis objeções ao ensino da justificação pela fé. Trata-se de um método didático e pastoral: o apóstolo não apenas afirma a verdade, mas também responde às distorções que naturalmente surgem quando essa verdade é mal compreendida ou deliberadamente deturpada.
A primeira objeção diz respeito à utilidade da circuncisão: se a salvação não depende dela, qual seria então a sua vantagem? (vv. 1–2).
Em seguida, Paulo enfrenta a questão da fidelidade divina: a incredulidade de alguns judeus teria o poder de anular as promessas de Deus? (vv. 3–4).
A terceira objeção é ainda mais ousada: se a injustiça humana serve para evidenciar a justiça de Deus, seria Ele injusto ao aplicar sua ira? (vv. 5–6).
Analisamos cada uma dessas objeções nos textos anteriores. Voce pode ler acessando o link: https://jornalnoroeste.com/pagina/expondo-as-escrituras/expondo-as-escrituras.
Hoje, chegamos à quarta objeção, que será o foco de nossa meditação: a acusação de que o ensino sobre a justificação pela fé abriria espaço para o pecado, como se o mal pudesse ser praticado para que o bem resultasse dele.
Nos versos 7 e 8 de Romanos 3, Paulo responde com veemência a essa calúnia, deixando claro que tal conclusão não apenas falseia o evangelho, mas revela um coração que não compreendeu a graça de Deus.
Vejamos. No verso 7, Paulo apresenta a quarta objeção: “E, se por causa da minha mentira, fica em relevo a verdade de Deus para a sua glória, por que sou eu ainda condenado como pecador?”
O raciocínio do interlocutor imaginário de Paulo é simples e não deixa de ser bem popular. Se a santidade, verdade e glória de Deus fica em relevo ou em maior evidência devido a minha mentira, pecado e corrupção, porque eu deveria ser condenado? Eu não estou “ajudando” a fazer com que a glória de Deus seja mais evidente?
De fato, quando o homem pecador é comparado com Deus, a santidade e glória de Deus é realçada! No entanto, isso não significa que o pecado se torna legítimo. Este é um pensamento absurdo e falacioso. Não é porque Deus é capaz de tornar o mal em bem – como ele maravilhosamente faz (Gn 50.20) – que ele aprova a prática do mal.
Não é porque Deus usou a traição dos irmãos de José para salvar José e a família da aliança da fome, que Ele aprova a traição familiar. Esse tipo de pensamento é falacioso, conhecido na filosofia como falácia da non sequitur moral.
Em lógica, non sequitur (“não se segue”) descreve um argumento em que a conclusão não decorre necessariamente das premissas. No caso em questão, o raciocínio falacioso é baseado numa premissa verdadeira. Qual? A de que Deus é soberano e é capaz de transformar o mal em bem e usá-lo para sua glória.
Mas a conclusão de que, por causa disso o mal pode ser praticado ou é moralmente aceitável, é uma conclusão falsa que não se segue (non sequitur). Observe: há um salto ilegítimo da crença no poder divino de transformar o mal em bem para o da ética humana ímpia, como se o poder de Deus anulasse a responsabilidade moral do homem.
E, no v.8, Paulo apresenta um segundo argumento baseado numa calúnia: “E por que não dizemos, como alguns, caluniosamente, afirmam que o fazemos: Pratiquemos males para que venham bens? A condenação destes é justa.”
Paulo responde aqui no v.8 a uma das mais perversas calúnias dirigidas à fé cristã desde seus primórdios. Havia inimigos do evangelho que, de forma deliberadamente mentirosa, acusavam os cristãos de ensinarem que o mal deveria ser praticado para que o bem resultasse dele.
O raciocínio era este: se Deus salva pecadores unicamente por graça, sem consideração de méritos, então pouco importa como se viva; quanto mais se peca, mais a graça se manifesta. Logo, façamos o mal para que o bem venha.
Essa acusação não é apenas falsa; ela é profundamente maliciosa. De fato, a doutrina da justificação afirma que não importa quão grande seja o pecado: a salvação é obra exclusiva da graça de Deus, não fundada em qualquer mérito humano. Contudo, jamais se segue daí que o cristão deva permanecer na prática do pecado ou que o pecado seja um instrumento legítimo para a glorificação de Deus.
A ideia de que a justificação abre espaço para a libertinagem não revela apenas um erro lógico ou teológico. Ela denuncia um coração perverso, obscurecido e mal-intencionado, que busca distorcer o propósito da misericórdia divina para falar mal da obra de Cristo ou explorar indevidamente a providência de Deus para legitimar a própria impiedade. Trata-se de uma tentativa consciente de transformar a graça em licença para o pecado.
Não é diferente do que vemos ainda hoje, quando se constroem subterfúgios teológicos para acomodar práticas pecaminosas, ou quando se professa uma confissão cristã correta com os lábios, mas se vive uma vida ímpia na prática. Contra tais distorções, o apóstolo é categórico em sua conclusão no final do v. 8: “A condenação destes é justa”.
Com estas palavras, Paulo mostra que a graça que justifica jamais é aliada do pecado; ao contrário, ela o mortifica e transforma o pecador que alcança. O pecador que permanece em pecado, distorcendo a graça de Deus ou querendo achar meios para pecar e ser considerado legítimo, mostra que nunca experimentou verdadeiramente a graça de Deus, e longe de ver a misericórdia do Senhor, tal homem verá exatamente o juízo e a condenação eterna, de forma justa e adequada!
Agora, por fim, deixe-me apresentar duas aplicações com base neste texto de Romanos 3.7-8.
A primeira aplicação é que a soberania de Deus nunca é desculpa para o pecado. O fato de Deus ser capaz de usar até o pecado humano para cumprir seus propósitos (cf. Gn 50.20) não autoriza moralmente a prática do mal. Na vida cristã, isso nos ensina a rejeitar qualquer racionalização pecaminosa travestida de teologia. O crente não pergunta “Deus pode usar isso?”, mas “isso glorifica a Deus e está de acordo com sua vontade revelada?”.
A segunda aplicação é que a boa teologia sempre produz santidade, não permissividade. Paulo trata como calúnia a ideia de que sua doutrina da graça levaria ao relaxamento moral. A aplicação prática é clara: doutrinas bíblicas bem compreendidas conduzem à obediência, não à libertinagem. Onde a graça é usada como pretexto para o pecado, há distorção doutrinária. Isso é especialmente relevante no ensino, na pregação e na formação cristã.
Ore comigo agora:
“Senhor nosso Deus, santo e justo,
Nós te louvamos porque a tua graça é perfeita e a tua soberania é reta em todos os teus caminhos. Confessamos diante de ti que, muitas vezes, nosso coração tenta justificar o pecado, usando mal a tua verdade para aliviar a própria consciência.
Livra-nos, ó Deus, de toda racionalização do mal e dá-nos temor diante da tua santidade. Ensina-nos a compreender corretamente a tua graça, para que ela nunca seja pretexto para a desobediência, mas força viva para a santificação.
Que a boa doutrina não permaneça apenas em nossas palavras, mas produza frutos de arrependimento, obediência e amor sincero por ti.
Em nome de Jesus. Amém.”
[1]Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minelli e pai de Edith e Teófilo.
Fernando Razente
Diácono ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil, em Paranavaí, Congregação de Nova Esperança, e seminarista do Seminário Presbiteriano do Sul – Extensão de Curitiba. Professor de Ciências Humanas, Filosofia e Ciência da Religião. Marido de Renata Minel
