“A Metamorfose”, de Franz Kafka
Esta será uma resenha diferente das que usualmente são feitas, que apresentam a obra como um todo. O foco deste trabalho é Grete Samsa. Para tanto, me deterei no excerto final da obra, que se passa logo após a morte do “inseto monstruoso” (Gregor):
Depois os três deixaram juntos o apartamento, coisa que não faziam havia meses, e foram de bonde elétrico para o ar livre no subúrbio da cidade. O bonde em que ficaram sentados sozinhos estava totalmente iluminado pelo sol cálido. Recostados com conforto nos seus bancos, conversaram sobre as perspectivas do futuro, descobrindo que, examinadas de perto, elas não eram de modo algum más, pois os três tinham empregos muito vantajosos e particularmente promissores – sobre os quais, na verdade, nunca tinham feito perguntas pormenorizadas um ao outro. É claro que a grande melhora imediata da situação viria, facilmente, da mudança de casa; eles agora queriam um apartamento menor e mais barato, mas mais bem situado e sobretudo mais prático do que o atual, que tinha sido escolhido ainda por Gregor. Enquanto conversavam assim, ocorreu ao senhor e à senhora Samsa, quase que simultaneamente, à vista da filha cada vez mais animada, que ela – apesar da canseira dos últimos tempos, que empalidecera suas faces – havia florescido em uma jovem bonita e opulenta. Cada vez mais silenciosos e se entendendo quase inconscientemente através de olhares, pensaram que já era tempo de procurar um bom marido para ela. E pareceu-lhes como que uma confirmação dos seus novos sonhos e boas intenções quando, no fim da viagem, a irmã se levantou em primeiro lugar e espreguiçou o corpo jovem (KAFKA, 1997, p. 84-85).
O que é possível apreender do trágico fragmento anterior é que a vida, apesar dos pesares, segue o seu rumo. A família acabara de perder um importante membro, que por anos a sustentou, mas, nem por isso, lamentou, antes, por Gregor ter se tornado uma coisa, a família respirou aliviada. É por causa desse alívio que os pais de Grete, observando sua metamorfose de moça a mulher, lhe pensaram em um marido. Que clichê maior do que esse, a saber, dos pais preocupando-se com o futuro matrimonial dos filhos? Nenhum. Porém, diante da trágica obra de Kafka, esse final nada tem de clichê, antes de naturalização do absurdo, do fatalismo.
É justamente o fatalismo que marca obras como “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, e o curta “Vida Maria” (2007). Na primeira obra, os filhos de Fabiano, em especial o menor, querem ser iguais ao pai; também é digno de nota a forma com que Fabiano se considerava: “- Você é um bicho, Fabiano.” (RAMOS, 1983, p. 18). E no curta, Maria tem sua história espelhada na de sua mãe. Fica a pergunta: estariam os pais de Grete, pensando em um “bom marido”, com a intenção de que este, a exemplo de Gregor, os sustentasse? Assim, seria Grete a aposentadoria dos pais?
Grete, que gostaria de ser violinista, vê os planos mudarem drasticamente ao longo da obra. A bem da verdade, Gregor tinha por si que a irmã era boa com a música, por isso, se esforçaria para colocá-la em um bom conservatório. No entanto, a vida muda o tempo todo, e, com ela, também Grete. Qual o futuro de Grete? Segundo o desejo dos pais, um “bom marido”. Há um ditado que diz que para fazermos Deus rir é só planejarmos o futuro. Por sua vez, Tiago, em sua carta bíblica, diz: “Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? é um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece” (Tiago 4:13). No caso de “A Metamorfose”, Gregor e a irmã são apenas peças de um jogo maior, e eles só têm valor enquanto forem úteis. Estaria a utilidade de Grete no casamento? Se assim for, ela é uma repetição de Maria, de “Vida Maria”.
Bíblia Sagrada. Trad. de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Geográfica,
2010.
KAFKA, Franz. A metamorfose. Trad. de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio, São Paulo: Record, 1983.

