A farinha nossa de cada dia – primeira parte

Estou em estudos de pós-graduação, e a avaliação mais solicitada pelos professores, ao final de cada componente curricular – como agora chamamos as disciplinas – é a escrita de um artigo científico. Minha pesquisa fala, a grosso modo, sobre a poética de Francisco Alves, um multiartista que, assim como eu, é roraimado.
No folhear de seus livros, me deparei com um poema chamado Farinha da Amazônia[1]. Nele, o poeta canta a farinha, lógico! Alimento muito importante para o amazônida. Pra variar, os seus versos trouxeram minha memorável infância de volta. Lembrei de quando ia para a Casa de Farinha raspar a mandioca para fazer... farinha e outras delícias mais, claro!
Não era fácil, depois de raspadas, as mandiocas eram trituradas e transformadas numa pasta que ficava doze horas na prensa para depois ser peneirada, torrada e peneirada novamente. Só assim nascia aquele pozinho que, há exatos 26 anos, um paraense me disse que parecia poeira. A torra era feita no quente alguidar – bacia enorme feita de argila. Era tarefa dos homens mexer a farinha com um rodo de madeira, afinal, precisava ter braços fortes e muita agilidade.
Lá por casa, a farinha ia para mesa em todas as refeições: comíamos ovo batido, café, leite e farinha pela manhã, feijão, arroz e farinha ao meio-dia. À noite, farofa d’água com ovo ou alguma carne e umas gotinhas de azeite de dendê por cima para deixar o prato mais colorido. Mas não era só isso, de vez em quando Mainha fazia cozido com verduras e pirão, cujo ingredientes principais são caldo e... farinha. Aliás, a gente fazia pirão de todo jeito, inclusive de leite. Uma delícia.
Mas não é somente lá pelas bandas da Bahia que a farinha é sagrada. Um tal de Djavan fez uma música em sua homenagem: “Você não sabe o que é farinha boa, farinha é a que a mãe me manda lá de Alagoas [...][2]”. Mas um outro, infelizmente já falecido, de nome Bezerra da Silva cantou: “Farinha pouca, meu pirão primeiro, Farinha pouca, meu pirão primeiro, Este é um velho ditado do tempo do cativeiro [...][3]”.
A farinha também é sagrada aqui pelo Norte, não foi à toa que Francisco escreveu: “Era uma vez uma feirinha cheia de árvores raras/ era, um era uma vez sem príncipe ou sapo, / na feira apenas as mãos encontram os sacos / há muito calor dentro dos sacos de farinha, / e uma gota de suor / de um caboco guapo [...]”.
Em ambas as regiões, era suado e cansativo fazer farinha. Hoje em dia, tudo está mecanizado, por isso mesmo, deixo aqui meu agradecimento às mãos que, independente de onde, transformavam a mandioca em alimento.
Viva a Farinha! Um salve aos Farinheiros!!!
[1] Poema publicado no livro Ruídos noturnos e poemas do esquecimento vivo, no ano de 2017.
[2] Letra e música disponível em https://www.letras.mus.br/djavan/45525/.
[3] Música e letra disponível em: https://www.letras.mus.br/bezerra-da-silva/meu-pirao-primeiro/.

