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Inclusão


Por: Dr. Felipe Figueira
Data: 31/03/2025
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         Certa vez ouvi um infectologista e professor do curso de medicina dizer que muitos médicos não sabem estabelecer vínculo com os pacientes, em especial com pacientes pobres, porque eles nunca conversaram com pobres. A maioria dos médicos vem de famílias ricas e o universo deles nada ou pouco tem a ver com o pobre. Uma vez que o ser humano fala daquilo que vive, quando se tem uma vivência tão diferente da do paciente, pouco se fala. Talvez dessa perspectiva venham consultas tão breves e superficiais? Apenas para deixar claro: não estou aqui a criticar o médico que atende no SUS (ainda que este também possa vir a ser criticado pelos mesmos motivos), mas um tipo de médico cuja consulta não tem uma troca de olhares.

          Através do exemplo acima eu fico a imaginar o quão profundo ele é e o tanto de consequências que possui. Há profissões que se voltam ao povo e há profissões que se voltam às classes mais ricas. Isso é medieval, e é possível afirmar que é além do mundo medieval. Poucas são as pessoas abastadas que frequentam História, e poucos são os pobres que, por conta própria, aguentam pagar um curso de Medicina. O que fazer, então?

          Uma das respostas à questão anterior é: cotas, bolsas, políticas de inclusão, ampliação da universidade pública. Não se trata de vitimismo, tampouco de esmolas, mas que a sociedade, ainda que só um pouco, seja mais igual e, portanto, mais justa. É pedir demais que em uma sala habitem pobres e ricos? Sei que esse discurso facilmente pode flertar com o simplismo, mas ele também pode flertar com utopias, com sonhos possíveis. A partir do momento que a pluralidade passa a ter espaços – e isto se o oprimido não se tornar um opressor, algo que também ocorre -, as relações humanas podem dar um salto de qualidade, como a entre médico e paciente.

          Algumas estruturas, de tão rígidas, podem até não se alterar em um curto espaço de tempo. Na verdade, podem até não mudar em dez ou vinte anos. Mas, quem sabe em cinquenta anos se tornem diferentes por causa de ações no passado. É preciso pensar a médio e longo prazo, ainda que o beneficiário seja alguém para nós desconhecido.

Dr. Felipe Figueira

Felipe Figueira é doutor em Educação e pós-doutor em História. Professor de História e Pedagogia no Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Paranavaí.


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