Moana 2
Eu ainda sou da época em que as continuações de animações da Disney eram lançadas diretamente em home video (para serem consumidas em casa), nunca no cinema. Naquele tempo, ir até a locadora para alugar uma fita era uma febre e, para quem tinha mais posses, comprar um filme da Disney em VHS era um luxo – o que tornava essa estratégia uma opção bastante rentável. Os tempos mudaram. O streaming eliminou o conceito de home video, e a Disney até tentou resgatar essa ideia durante a pandemia, por meio do Disney+, mas a iniciativa não vingou. Agora, o que temos são os grandes sucessos da empresa do Mickey entrando na onda das franquias e lançando suas continuações diretamente nos cinemas. À primeira vista, parece uma ideia promissora, mas não se engane: uma sequência é sempre um desafio. A estreia desta semana ilustra bem essa realidade. Hoje, a Coluna Sétima Arte vai falar sobre a continuação da jornada da princesa polinésia Moana em Moana 2, que acaba de chegar às telonas.
De início, é importante contextualizar: Moana 2 começou como um projeto para o Disney+, e essa origem acaba transparecendo no filme. A estrutura episódica, com momentos que parecem feitos para uma pausa ou clímax de capítulo, e até a cena pós-créditos que inspira a ideia de uma deixa para a próxima temporada, deixam claro que a história foi adaptada para caber na grandiosidade de uma estreia no cinema. Isso não seria necessariamente um problema, mas a sensação de “algo reaproveitado” dificulta que o filme alcance o impacto emocional e narrativo que marcou o original.
A trama principal tem potencial: Moana, agora mais madura, parte novamente em uma jornada pelo oceano para restaurar as correntes marítimas e conectar povos que vivem isolados. Mas, desta vez, há mais em jogo. Moana tem uma irmãzinha (claramente adicionada para conquistar o público infantil) e demonstra uma relutância compreensível em deixar para trás sua terra e sua família. Essa nova camada emocional – a de uma heroína que entende o peso de suas escolhas – poderia ser um diferencial incrível. No entanto, é rapidamente abandonada em prol de uma narrativa que, embora divertida, não vai muito além do esperado.
Visualmente, o filme é um espetáculo. A Disney, como sempre, entrega um trabalho tecnicamente impecável. O oceano continua a ser um personagem por si só, com ondas vibrantes e criaturas que parecem saídas de um conto lovecraftiano. As sequências musicais são embaladas por um show de cores e criatividade, o que ajuda a compensar a falta de profundidade em outros aspectos. Ainda assim, um filme não vive só de visuais, é a história que nos prende, e nesse quesito, Moana 2 patina.
A principal crítica está no vilão e na motivação que move a trama. Um deus maligno quer manter os humanos isolados, mas as razões por trás disso são rasas e pouco convincentes. É difícil sentir a urgência ou o perigo que a premissa promete. O filme tenta compensar essa falta de peso com momentos leves e divertidos no caminho, e é aí que os personagens secundários brilham. Os Kakamora, que já conquistaram o público no primeiro filme, ganham mais espaço aqui e continuam hilários. Já Matangi, uma personagem nova, é uma surpresa agradável e protagoniza o melhor número musical do filme. É uma pena que ela tenha apenas 10 minutos de tela, pois teria sido interessante vê-la com um papel mais robusto na história.
Falando em música, a trilha sonora é funcional, mas não chega nem perto de causar o impacto do primeiro filme. Enquanto Moana nos deu clássicos como “Saber Quem Sou” e “De Nada”, as canções de Moana 2 parecem depender mais dos visuais exuberantes do que de sua própria força. Lin-Manuel Miranda faz falta, e apesar de Any Gabrielly brilhar nos vocais da protagonista em português, as composições não têm a mesma alma ou memorabilidade. Dificilmente as músicas desse segundo filme irão conquistar o mesmo feito do primeiro, legando os pais à loucura e as crianças a entrarem num loop interminável ouvindo a mesma música repetidas vezes, como foi o caso de “Saber Quem Sou”.
Outro ponto curioso é a dublagem brasileira, que aposta em expressões modernas como “arrasta pra cima” e “o pai tá on”. Uma iniciativa inaugurada no âmbito das dublagens lá em meados dos anos 1990 com a icônica e lendária primeira dublagem do anime Yu Yu Hakusho, veiculado na intenta Rede Manchete e que conectou o público com o anime que era ambientado no tempo presente. Embora isso não seja e novidade e figure como uma tentativa de se conectar com a audiência jovem, essas escolhas acabam destoando do contexto da história. Afinal, é um pouco difícil levar a sério uma narrativa que se passa há milhares de anos quando Maui solta gírias que podem sair de moda em poucos meses. Faltou bom senso e sobrou anacronismo.
Apesar de suas limitações, Moana 2 não é um filme ruim. Há momentos de genuíno encantamento, o carisma dos personagens continua presente, e a mensagem sobre conexão entre culturas e povos ainda ressoa, especialmente no mundo atual. O problema é que o filme parece estar sempre jogando pelo seguro, sem arriscar ou se aprofundar nas questões que apresenta. O resultado é uma aventura que, embora divertida, não deixa uma impressão duradoura como seu antecessor.
Por que ver esse filme? Se Moana foi um mergulho em águas profundas, Moana 2 é mais como um dia agradável na beira do mar, tudo meio raso (risos). Ainda assim, é uma experiência que vale a pena, especialmente para os fãs da primeira animação, mas a expectativa de algo maior e mais impactante pode deixar alguns espectadores um pouco decepcionados. Por outro lado, para quem busca uma dose de nostalgia e um espetáculo visual para toda a família, Moana 2 cumpre seu papel – mesmo que não alcance as ondas mais altas do oceano. Boa sessão!