Modernidade líquida e a emancipação
Joana Simões Souza[1]
“A emancipação não é mais um destino a ser alcançado, mas um fardo a ser carregado diariamente.” Essa frase de Zygmunt Bauman (1925-2017) sintetiza uma das tensões centrais da contemporaneidade: a promessa de liberdade pessoal convertida em peso individual.
Em Modernidade Líquida (2000), Bauman descreve a transição da modernidade sólida, baseada em estruturas estáveis, para uma modernidade líquida marcada pela volatilidade das relações sociais e pela instabilidade dos vínculos, alterando profundamente como o indivíduo busca autonomia.
Na modernidade sólida, a emancipação estava associada a um projeto coletivo de superação das tutelas sociais e morais, fortemente influenciado pelo Iluminismo de Immanuel Kant (1724–1804), que afirmava: “Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado.” (KANT, 1784). Entretanto, Bauman observa que o projeto moderno, ao pretender libertar, acabou gerando novas formas de sujeição, como o controle burocrático e a vigilância social.
Na modernidade líquida, os vínculos estáveis cedem lugar a relações voláteis. A emancipação deixa de ser um projeto comum para se tornar uma responsabilidade solitária: “A liberdade de escolha tornou-se uma obrigação de escolher, e de lidar com as consequências da escolha.” (BAUMAN, 2000, p. 13).
A distinção entre liberdade subjetiva – a sensação individual de autonomia – e liberdade objetiva – o acesso real a recursos e oportunidades – é fundamental para compreender essa ilusão de liberdade. “A distância entre as possibilidades de escolha subjetivamente percebidas e a objetividade das alternativas realmente disponíveis tem aumentado.” (BAUMAN, 2000, p. 26). Assim, a emancipação aparenta existir, mas se apresenta como um fardo, responsabilizando o indivíduo por fracassos e frustrações em contextos adversos.
Outro conceito-chave é a “hospitalidade à crítica”, em que Bauman, citando Ulrich Beck (1944-2015), descreve uma sociedade que evita enfrentar coletivamente seus problemas, preferindo que o indivíduo busque soluções privadas: “Num acampamento, os abrigados jamais contestam a administração, muito menos assumem a responsabilidade pelo gerenciamento. Preferem simplesmente buscar outro abrigo.” (BAUMAN, 2000, p. 35).
Essa postura fragiliza a crítica social e reforça a individualização das responsabilidades. Essas ideias explicam fenômenos atuais, como a precarização do trabalho, em que a suposta “flexibilidade” significa insegurança e descartabilidade: “uma liberdade que pode, a qualquer momento, se transformar em abandono.” (BAUMAN, 2000, p. 31).
Todavia, a crítica de Bauman não está isenta de limitações. Sua visão da modernidade é excessivamente pessimista, associando o Iluminismo principalmente a fracassos e processos de dominação, sem reconhecer plenamente suas conquistas em direitos civis e democracia (HABERMAS, 2003). Sua crítica ao capitalismo tende ao fatalismo, ignorando formas de contestação e regulação social que revelam a historicidade e a vulnerabilidade do sistema (GIDDENS, 2006).
Além disso, o conceito de “modernidade líquida”, embora metáfora poderosa, carece de delimitação teórica clara e pode se tornar um diagnóstico totalizante que obscurece possibilidades reais de resistência e transformação social (INNERARITY, 2018).
Referências bibliográficas:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Loyola, 2003.
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: o que é o Esclarecimento? In: Obras escolhidas.
INNERARITY, Daniel. O novo espírito do tempo: Sobre a crise da democracia e da política. São Paulo: Unesp, 2018.
[1] Educanda da 2ª série 2 do Ensino Médio do Colégio Coração de Jesus.