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Cultura, capital e crítica: o pensamento de Adorno


Por: Especial para JN
Data: 06/08/2025
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Arthur Alexandre Quiamolera Tonial[1]

 Felipe Zanutto[2]

 

“A amargura autofágica da estética de Adorno transformou-se em pessimismo agudo.”  

– MERQUIOR, José Guilherme. Arte e cultura em Marcuse, Adorno e Benjamin (1969-1981 edição original), p.º70.

Fotos: Divulgação

Em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão, o pensamento de Theodor W. Adorno (1903-1969) se mantém atual e provocador. Filósofo da famosa Escola de Frankfurt e sobrevivente das feridas da Segunda Guerra Mundial, Adorno se pergunta com incômodo: “Como pôde acontecer Auschwitz?”. Sua resposta é dura: a razão moderna, ao invés de libertar, foi instrumentalizada e tornou-se meio técnico a serviço da dominação, medindo tudo por sua utilidade e apagando os fins éticos. Assim, a racionalidade que deveria nos humanizar acabou por legitimar horrores em nome da eficiência econômica.

Inspirando-se em Marx (1818-1883), Adorno critica não só a exploração econômica do capitalismo, mas também sua capacidade de colonizar o imaginário coletivo. Vai além da fábrica: denuncia a indústria cultural, onde arte vira mercadoria e cultura se transforma em entretenimento vazio, anestesiando o pensamento crítico e reforçando a lógica da conformidade. Nesse modelo, até sentimentos e relações humanas são precificados, comprometendo a própria ideia de liberdade.

Adorno critica a razão moderna por ter se tornado um instrumento de controle no capitalismo, reduzindo tudo à utilidade e ao lucro. Inspirado em Marx, ele aponta como isso desumaniza o trabalhador e empobrece a cultura, anulando o pensamento crítico. O sistema prefere que as pessoas não pensem, pois assim mantém sua ordem, transformando até desejos e ideias em mercadoria.

Contudo, o pensamento de Adorno não escapa a críticas. Seu diagnóstico sobre a cultura de massa, tratada quase exclusivamente como alienante, peca por generalização e profundo pessimismo. A realidade contemporânea mostra fissuras nessa lógica. Redes sociais e produtos culturais populares, embora inseridos no sistema, também se tornam espaço de resistência, crítica social e produção de sentido. Ignorar isso é apagar a criatividade e o protagonismo que emergem ainda que nos moldes capitalistas.

Além disso, o pessimismo de Adorno, por vezes excessivo, pode imobilizar. Sua crítica, embora potente, precisa ser complementada com olhares mais abertos à complexidade da cultura contemporânea, onde opressão e resistência coexistem. Como afirma José Guilherme Merquior, a estética adorniana acabou por se tornar uma “amargura autofágica”, incapaz de ver as potências criativas do presente.

Portanto, Adorno deve ser lido como um alerta, rigoroso, incômodo e necessário, mas não como voz absoluta. Embora Adorno tenha sido um crítico agudo do capitalismo, é importante reconhecer os aspectos positivos que esse sistema econômico proporcionou ao longo da história, especialmente quando associado a instituições democráticas e ao Estado de Direito.

O capitalismo, ao promover a propriedade privada, o livre mercado e a competição, gerou níveis de prosperidade, inovação tecnológica e liberdade individual sem precedentes na história da humanidade. O capitalismo favoreceu o surgimento de uma classe média numerosa e instruída, que ampliou o acesso à educação, saúde, tecnologia e cultura. O mercado de bens culturais, ainda que criticado por Adorno, viabilizou que milhões tivessem acesso a livros, filmes, música e conhecimento antes restrito às elites.

Mesmo a crítica à mercantilização da arte e da cultura precisa ser vista com nuance. A popularização da cultura permitiu que artistas das periferias, minorias e movimentos sociais ganhassem visibilidade e voz. Hoje, projetos culturais independentes, coletivos artísticos e mídias alternativas circulam dentro do sistema capitalista, utilizando seus próprios meios de produção e distribuição. A lógica do mercado, nesse caso, não anula o valor artístico ou crítico da obra, mas pode até viabilizá-lo.

Portanto, embora as advertências de Adorno sobre alienação e massificação devam ser levadas a sério, elas não invalidam os ganhos concretos do capitalismo, especialmente quando equilibrado por instituições democráticas, ética pública e liberdade cultural.

 

Referências bibliográficas:

ADORNO, Theodor W. Dialética do Esclarecimento. São Paulo: Zahar, 1985.

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: Fragmentos filosóficos. Tradução: Guido Antônio de Almeida.

ADORNO, Theodor W. Educação após Auschwitz. In: Educação e emancipação. Tradução: Wolfgang Leo Maar.

 ADORNO, Theodor W. A indústria cultural: O esclarecimento como mistificação das massas. In: Cultura e sociedade. Tradução: José Carlos Bruni.

DATAFOLHA. Jovens e o consumo cultural nas redes sociais. São Paulo: Datafolha, 2023. Disponível em: https://datafolha.folha.uol.com.br.

EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. Tradução: Sandra Duarte.

HAYEK, Friedrich. O Caminho da Servidão. São Paulo: Instituto Liberal, 1990.

MATTELART, Armand. História das teorias da comunicação. Tradução: Horácio Denis de Moura.

MERQUIOR, José Guilherme. Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1981.

MARX, Karl. O Capital – Crítica da Economia Política. São Paulo: Boitempo, 2013.

MISES, Ludwig von. As Seis Lições. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.

RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV. Rio de Janeiro: Record, 2000.

 



[1] Educando da 1ª série 1 do Ensino Médio do Colégio Coração de Jesus.

[2] Educando da 1ª série 1 do Ensino Médio do Colégio Coração de Jesus.


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