A generic square placeholder image with rounded corners in a figure.


William Zinsser. “Como escrever bem”


Por: Dr. Felipe Figueira
Data: 30/07/2026
  • Compartilhar:

 

          O livro que agora falarei algumas palavras me foi dado por um colega de trabalho que tudo que lê doa. Eu não tenho esse espírito despojado, mas, espero um dia ter, pois, por causa disso tomei contato com um livro marcante, que só tenho a agradecer por William Zinsser, no auge de sua experiência de jornalista, ter se dedicado, enquanto um escritor atuante, a conversar com outros escritores. Caro leitor, o que Zinsser fez é raro: há livros que falam sobre gramática, mas poucos que falam sobre o ato de escrever com tanta fluidez.

          Nas páginas finais de “Como escrever bem”, Zinsser diz: “Escrever é um poderoso mecanismo de busca, e uma de suas satisfações é fazer um acerto de contas com a história da própria vida. Outra é digerir os golpes mais duros – perdas, dores, doenças, vícios, decepções, fracassos – e chegar a algum tipo de compreensão e apaziguamento.” (ZINSSER, 2017, p. 241). Em poucas palavras, tudo foi dito.

          Eu escrevo desde os treze anos, e não foram poucas as vezes, senão todas as vezes, que procurei passar a minha vida a limpo por meio das palavras. Através dos poemas, pois quase tudo com alto teor sentimental eu desaguo em versos, eu pude lidar com perdas, com dores, com decepções e com fracassos. Não está registrado, mas agora eu digo, várias foram as situações em que escrevi por causa de dores que eu vivia. A escrita, para mim, é terapia e sublimação.

          Quantas vezes que, escrevendo, eu senti o fracasso. A minha trilogia “Dionísio, uma biografia”, que o diga; “Dom Quixote” que também o diga. Fracasso no sentido mais amplo: pessoal e profissional. Zinsser, atento a isso, destaca a dimensão do fracasso: “O direito de fracassar era libertador.” (ZINSSER, 2017, p. 210). E outra grande escritora, Clarice Lispector, também destacou essa dimensão, dizendo que a desistência e o erro são atos verdadeiramente humanos. Dizia a escritora, na boca de G. H.: “O erro é um dos meus modos fatais de trabalho.” (LISPECTOR, 1979, p. 108); “A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição. A desistência é uma revelação.” (LISPECTOR, 1979, p. 172).

          Os dois parágrafos acima dão conta da importância do livro de Zinsser para mim. Costumo dizer que ainda bem que o conheci aos 30 e não aos 90 anos, pois poderei usufruir de seus ensinamentos por muito tempo. Tais ensinamentos podem ser visualizados por meio do sumário da obra:

 

PARTE I – Princípios

A negociação

Simplicidade

Excessos

Estilo

O público

Palavras

Usos

 

PARTE II – Métodos

Unidade

O lide e o final

Miscelânea

 

PARTE III – Gêneros

A não ficção como literatura

Escrever sobre pessoas e entrevistas

Escrever sobre lugares: a reportagem sobre viagens

Escrever sobre si mesmo: memórias

 

PARTE IV – Atitudes

O som da sua voz

Prazer, medo e confiança

A tirania do produto final

Decisões de um escritor

Escrever histórias e de família e memórias

Escreva tão bem quanto puder

 

          Logo se vê que a obra sobre a qual conversamos não é um manual de gramática, algo que o autor deixa claro, mas um texto sobre a escrita, feito por alguém que viveu a vida toda a escrever. É um ato de amor, é algo que ultrapassa o próprio escritor, a ponto de ser chamado de “o clássico manual americano de escrita jornalística e de não ficção”. Em “Como escrever bem” não vemos um “faça isso” e “faça aquilo”, mas algo muito maior e que vai a temas elementares sobre o ofício de escritor, como a reescrita. Do início ao fim, Zinsser diz que ao escritor é basilar reescrever, pois dificilmente algo sairá bem logo de primeira, ou de segunda. Ele era considerado alguém implicante consigo mesmo, exigindo o melhor sempre. Nas palavras do escritor: “Você não vai escrever bem enquanto não entender que escrever é um processo contínuo, não um produto acabado. Ninguém espera de você que o faça corretamente já na primeira vez, nem mesmo na segunda.” (ZINSSER, 2017, p. 106).

          Mesmo antes de conhecer Zinsser, meus textos eram construídos da seguinte forma: primeiro eram manuscritos em um papel sulfite, já recebendo várias correções; depois, eu os digito e, então, novas correções; antes de publicá-los, reviso mais umas cinco vezes. Dito em outras palavras: escrever é reescrever, tal qual ensinou o mestre estadunidense.

          Outra linha fundamental de “Como escrever bem” é a preocupação com a clareza. Para isso, o autor ensina desde o não contentamento com clichês, que representam o problemático “testado e aprovado” (ZINSSER, 2017, p. 187), até a elaboração de frases curtas. Quanto aos clichês, eles têm a ver com facilitações e desleixos intelectuais, é como se o escritor copiasse fórmulas. Quanto às frases curtas, elas são quase sempre melhores do que as longas. Muitas vezes eu digo aos meus alunos: “Por que uma frase de quinze linhas? Isso cansa o leitor.” Sim, há pessoas que conseguem escrever frases de quinze linhas, mas elas, como regra, são excepcionais no ofício de escrever. Há parágrafos de Nietzsche com quatro páginas, mas, é preciso dizer, ele é um mestre da língua alemã. Conselho de Zinsser: uma frase, uma ideia. Esse conselho é útil tanto para profissionais da escrita quanto para qualquer um que preciso escrever um trabalho escolar.

 

Cada frase contém uma ideia – e apenas uma. O leitor processa uma ideia por vez, e de forma linear, sequencial. Grande parte dos problemas, para um escritor, decorre da tentativa de fazer uma frase cumprir muitas funções ao mesmo tempo. Nunca tenha medo de cortar uma frase longa, dividindo-a em duas ou até três frases menores. (ZINSSER, 2017, p. 216).

 

          Essa resenha, já percebo, pode ultrapassar as poucas palavras que indiquei, beirando o infinito, pois essa obra toca em algo que me é fundamental, a escrita. Quantas coisas que nela são ditas e que me tocaram profundamente, como a questão da voz do autor. E o que é essa voz? É algo tão abstrato a ponto de não ser possível definir, mas, tão prático que é até possível ouvi-la. Quem lê Freud, sabe que está diante do pai da psicanálise; quem lê Machado, sabe que está diante do mestre da ironia. A voz do autor é exatamente isso: a sua voz. Por mais que para escrever seja necessário ler, ler muito, estar atento a escritores que apreciamos, se a pessoa só observá-los e não se colocar em cena, será apenas um figurante. O maior elogio que recebo é: “Ao ler seus textos consigo ouvir sua voz, como se estivéssemos conversando.” Isso ocorre geralmente quando alunos me leem. Admito que quando me dizem isso o meu fracasso e os meus tormentos dão uma volta – mas, depois, voltam.

          Dizia Daniel Pennac: “Os males da gramática são curados pela gramática” (PENNAC, 2008, p. 97). William Zinsser diz a mesma coisa ao insistir que quem quer escrever deve fazer isso continuamente. Ninguém fica bom, como já foi dito, de primeira ou segunda vez, talvez de cem vezes. Esse é um problema que me deparo quanto oriento trabalhos de conclusão de curso, pois, quase sempre, são estudantes que só nesse momento se aproximaram da escrita com mais cuidado. Quanto trabalho para o estudante – e para o professor... No entanto, eu gosto desse trabalho, pois é o que de mais próximo, no meu dia a dia docente, consigo ensinar sobre a escrita. Nas orientações cuido sempre para que os textos tenham unidade, organização. Quanto a isso, unidade e organização, Zinsser os elenca como aspectos elementares para o escritor, já que sem isso o texto se perde e o leitor, que não gosta de perder tempo, vai embora. Pobre escritor sem sentido, sem unidade e sem organização.

 

Você aprende a escrever escrevendo. É um truísmo, mas o que faz disso um truísmo é o fato de ser uma verdade. A única maneira de você aprender a escrever é se obrigar a produzir certa quantidade de frases regularmente. (ZINSSER, 2017, p. 67).

 

Toda escrita é, em última instância, um modo de resolver um problema. (ZINSSER, 2017, p. 67).

 

O elemento crucial da boa escrita é a unidade. Então, antes de mais nada, organize cada coisa rigorosamente. A unidade não só impede o leitor de se dispersar em diferentes direções, mas também atende a uma necessidade subconsciente que ele tem de ordem e lhe garante que o leme está em boas mãos. Assim, escolha alguma das várias possibilidades e mantenha-se firme nela. (ZINSSER, 2017, p. 67-68).

 

          Escrever é difícil. Quem falar o contrário provavelmente é porque a esse ofício não se dedicou o bastante. Eu gosto de esclarecer que uma coisa é falar, outra é pensar e outra é escrever. Um dia contei para os meus alunos que fiquei quatro horas para escrever três páginas para uma reportagem de jornal e eles se espantaram. Então eu disse: “Se eu, com toda experiência, fiquei todo esse tempo, imaginem vocês.” O que falei comporta relativizações, pois é mais provável que eu demore mais para escrever do que alguém sem prática, já que todo detalhe, para mim, importa. A esse respeito, Zinsser traz um caso interessante, de quando foi convidado por uma escola para falar sobre o ato de escrever, e ao seu lado estava alguém que escrevia como hobby. O escritor amador achava a escrita fácil e prazerosa, já Zinsser a considerava difícil e dolorosa; o não profissional, quando cansava de escrever, simplesmente parava, já o jornalista não podia se dar a esse luxo, pois ele tinha prazos e a escrita era o seu trabalho.

          Entre as valiosas dicas de escrita que encontrei em “Como escrever bem” eu ainda destaco quatro: 1ª É precisa fazer com que o leitor pense no que está lendo; 2ª É preciso cuidar do lide e do final; 3ª A palavra não pode ser jogada fora; 4ª Não se preocupe com o produto final, chamado pelo autor de “tirania do produto final”.

          1ª É preciso fazer com que o leitor pense no que está lendo. Isso significa que um livro não é trabalho somente do escritor. Portanto, advertirá Zinsser, o escritor precisa ser claro e deixar que o leitor seja ativo. Não é preciso dar tudo de mão beijada.

          2ª O lide e o final. A primeira ou as primeiras frases de um texto são por demais importantes para que o leitor seja fisgado. É a ideia, um tanto clichê, de que a primeira impressão é importante. Quanto ao final, eis outro problema, pois muitos não sabem como terminar e começam a dar voltas no globo. É interessante quando o término seja convincente, que complete o que foi abordado, mas que também surpreenda, deixando questões a serem pensadas.

          3ª Palavras não podem ser jogadas fora. Toda palavra deve ter um porquê no texto, sob o risco dele se tornar cansativo. É melhor jogar o tempo fora na presença de amigos do que lendo um texto de um autor descuidado. Não se trata aqui do rigor publicitário, que Marcos Rey abordou em “O caso do filho do encadernador”, em que cada palavra vale ouro, porém, por que complicar o que pode ser claro?

          4ª A “tirania do produto final”. Há pessoas que sabem o título da obra ou do artigo, onde almeja publicá-lo, contudo, não têm o principal: o texto. Isso parece loucura, mas não é, e eu próprio já estive nessas ciladas. Eu já cheguei a pensar, quando adolescente, em tudo, de capa à diagramação, mas o texto eu não tinha, ou ele era insuficiente para ser chamado de livro. Outra questão sobre o “produto final” é a do público. O escritor não deve se preocupar com o público, com “multidões”, por mais que saber para quem escreve seja importante. Mas, e aqui está o fundamento do conselho de Zinsser: o escritor deve escrever primeiramente para si. Minha esposa sempre me adverte: “Você escreve porque gosta de escrever ou não?”, e isso porque não são poucas as ocasiões em que eu me incomodo por não ter retornos sobre o que eu escrevo. O que a minha esposa quer dizer, sem dizer, é que eu tenho o direito de fracassar, e também o de escrever para mim mesmo, algo que era caro a Sossélla, um dos meus poetas preferidos.

          Sinto que esta resenha de fato pode chegar ao infinito, mas, para que não chegue, quero dizer que escrevê-la foi um doloroso prazer. Doloroso porque sinto que fui aquém da qualidade de “Como escrever bem”, mas há um prazer envolvido porque pude falar de assuntos que me são especiais há décadas. Minha mãe, vendo que eu relia o livro de Zinsser e que estava, como de costume, com uma caneta azul e uma folha sulfite, disse: “Você nunca escreve com ódio. Você nunca disse que detestava o que fazia. Você escreve porque gosta e porque tem conhecimento. Não dá para escrever sem conteúdo, fica bobo.” É verdade, nunca tive ódio pela escrita, ainda que o ódio sobre certas situações pudesse ir para o papel, e quanto ao conhecimento, não consigo escrever sem bases culturais fortes e sem rever tudo o que considero importante. Não gosto de jogar palavras fora, isso me envergonharia.

 

Clarice Lispector. A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979.

Daniel Pennac. Diário de Escola. Trad. de Leny Werneck. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

William Zinsser. Como escrever bem: o clássico manual americano de escrita jornalística e de não ficção. Trad. de Bernardo Ajzenberg. São Paulo: Três Estrelas, 2017.

 

 

Dr. Felipe Figueira

Felipe Figueira é doutor em Educação e pós-doutor em História. Professor de História e Pedagogia no Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Paranavaí.


Anuncie com Jornal Noroeste
A caption for the above image.


Veja Também


smartphone

Acesse o melhor conteúdo jornalístico da região através do seu dispositivos, tablets, celulares e televisores.