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Wilhelm Reich. “Escuta, Zé Ninguém!”


Por: Dr. Felipe Figueira
Data: 23/07/2026
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Para desenvolver esta resenha, a farei por meio de seis tópicos. Antes, porém, duas considerações.

Primeira. “Escuta, Zé Ninguém!” é um livro do psicanalista Wilhelm Reich, escrito em 1945, que não tinha como preocupação inicial ser publicado, mas isto se tornou inevitável devido ao seu valor humano, histórico, filosófico e psicológico.

Segunda. Tomei contato com esta obra em 2008, na condição de aluno de História e sob indicação da minha ex-orientadora, professora Luciana Pomari, e tornei a relê-la em 2021. Da primeira vez, a li em um dia apenas; da segunda, levei um pouco mais de tempo (dois dias), mas o mesmo fervor da primeira leitura me tomou, o que me faz afirmar: eis um trabalho atemporal.

 1 – O trabalho

         Enquanto professor, lido com todo tipo de pensamento e não procuro formatar ninguém às minhas visões de mundo. Não gosto de exercer o papel de fiscal da vida alheia. Por outro lado, tudo tem limite, não posso ouvir o erro e aplaudi-lo: que professor eu seria se assim procedesse? Seria melhor que eu me aposentasse das salas de aula e não mais escrevesse sobre educação.

         A luta para manter viva a esperança é realmente uma luta, que é preciso deixar os músculos (mente) sempre em prontidão. Mas, há épocas, também, em que se achega um cansaço e relação às asneiras que se escuta, como se a luta estivesse à beira da derrota. Quando alguém defende político que é contra a educação pública, gratuita e de qualidade, sendo eu um professor, só me restam as palavras de Reich: “Foi então que os teus chefes destruíram o meu trabalho e que tu os seguiste em silêncio.” (REICH, 1977, p. 25).

 2 – O Zé Ninguém face a face

         Ah, são tantas as possibilidades de ver o Zé Ninguém, na verdade, de ver os milhares de Zés Ninguéns face a face... Quando alguém começa a palpitar na vida alheia; quando dizem a alguém ser outra espécie de pessoa; quando dizem a alguém trocar de profissão... Ah, são tantas as formas de se conhecer um Zé Ninguém... Quem nunca se contenta com o que tem; quem, podendo, economiza no arroz e no feijão e depois reclama da qualidade do que comprou; quem pensa na profissão a partir do dinheiro e não da vocação...

         Eu sei, e Reich também sabe, que a estão da vocação é um problema grave, ainda que seja ele próprio algo simples. Vocação significa voz interior. Só que só é possível escutá-la onde há vida interior, do contrário, nada se ouve, talvez apenas um eco do que vem de fora. E são muitos os barulhos que vêm de fora. A quem é vazio, é impossível ouvir a si próprio. O deserto cresce.

         Diziam Políbio e Nietzsche, recuperando-o: “Torna-te quem tu és”. O “torna-te” é mais importante do que o “és”, mas um não vive sem o outro. Nietzsche, filósofo, sabia que a filosofia era o seu carro-chefe, então, o que ele deveria fazer para alimentá-la? Ler, escrever, viajar, meditar, viver a vida. tudo o que fugisse disso lhe seria como um castigo ao “és” e ao “torna-te”. É interessante trazer o exemplo de Nietzsche, pois Reich o considerava um grande homem. O próprio psicanalista fez uso do “torna-te quem tu és” ao indagar o Zé Ninguém: “O que o torna aquilo que é após várias décadas de sofrimento?” (REICH, 1977, p. 33). Mais um exemplo: Kafka dizia que o que não era literatura o aborrecia.

         As questões que te faço, caro leitor, são: Quem você é? O que você faz para tornar-te quem tu és? Cuidado com os Zés Ninguéns, pois eles gostam de dizer o que você deve fazer. A felicidade é sempre precária e provisória, mas mais incerto ainda é o caminho indicado pelo Zé Ninguém.

 

Tu não tens sequer a capacidade de reconhecer um homem verdadeiramente grande. O seu modo de ser, o seu sofrimento, as suas aspirações, raivas e lutas em teu nome são-te completamente alheios. Nem sequer entendes que existem homens e mulheres incapazes de suprimir-te ou explorar-te e que genuinamente desejam que sejas livre, real e verdadeiramente livres. Nem te agradam, porque são de outra natureza. São simples e diretos; para eles, a verdade corresponde às tuas táticas. Veem-te à transparência, não em derrisão, mas em mágoa pelo destino dos homens. Mas tu sentes apenas que olham através de ti, e tens medo. Só os aclamas, Zé Ninguém, quando muitos outros Zés Ninguéns te dizem que esses grandes homens são grandes. Tens medo deles, do tão perto que estão da vida e do amor que lhe têm. O grande homem ama-te simplesmente como criatura humana, ser vivo. (REICH, 1977, p. 32).

 

         O tornar-se o que se é não é uma utopia, mas, antes, um desafio que visa orientar e formar humanos e não pseudohumanos. O que está em jogo é que não basta o Zé Ninguém se tornar um mero alguém, pois este seria uma das faces do Zé Ninguém. Quantos que dizem “estude para ser alguém na vida”, pensando esse alguém somente sob o viés do dinheiro? Em síntese, a pessoa precisa se colocar para além da moldagem e do assujeitamento.

 3 – A alegria

         Imaginemos que a alegria seja uma pessoa. Que pessoa gosta de ser maltratada? Nenhuma (não entremos aqui nos méritos do masoquismo ou em quaisquer síndromes). Pelo contrário, toda pessoa gosta de carinho e de estar em paz. A alegria não é um sentimento que aparece sem motivação. É preciso cativá-la para que ela se hospede na alma de alguém. É preciso dizer à alegria: “Que bom que você está aqui. Vamos apreciar a vida?” E assim um bem chama outro bem e o mal, que sempre aparece, é visto como inevitável e até mesmo como estimável. Inevitável porque ele de fato o é, e estimável porque ele ajuda a regular certos excessos: o hormônio do estresse tem sentido para o corpo.

         Ai de quem, sentindo a alegria por perto, tentar devorá-la: ela fugirá da pessoa, pois, voltando à imagem da alegria enquanto uma pessoa, ninguém gosta de ser dilacerado. A alegria foge de quem almeja devorá-la: “Entendes agora porque te é negada a alegria? Porque é algo que se trabalha e se ganha. Mas tu apenas sabes devorar a alegria, que por isso te escapa.” (REICH, 1977, p. 46). Portanto, amemos a alegria e deixemos um espaço para ela em nosso coração. Na verdade, por que deixar um espaço para o que não ocupa espaço nenhum? Isso seria tão ilógico quanto dar um tempo para Deus em nossas vidas.

 4 – Reich, o imigrante

         O psicanalista passou parte da vida entre um país e outro, como Alemanha, França, Inglaterra, Dinamarca e Estados Unidos. “Escuta, Zé Ninguém” foi escrito neste último. O tom de “Zé Ninguém” é por vezes amargo e doloroso, pois Reich, ele próprio um imigrante, vivenciou trágicas situações de escárnio e de invasão de seu ser em alguns países, como a “pátria da liberdade”, os Estados Unidos. De todas as maneiras, tentaram desmoralizar o pensador, o que remete à estratégia mesquinha: se não é possível ir contra alguém no campo das ideias, desmoralize-o. E Reich, apesar do renome mundial, foi desmoralizado, e “Escuta, Zé Ninguém!” é o seu depoimento contra as suas acusações, que ora atacavam o seu trabalho, ora a sua condição de imigrante.

 

O amor, o trabalho e o conhecimento não têm pátria, não conhecem fronteiras nem uniformes. São internacionais, são o patrimônio da humanidade. Só que tu preferes o teu patriotismo medíocre, porque tens medo do amor genuíno, do trabalho responsável, medo do conhecimento. E por isso explorar o amor, o trabalho e o conhecimento dos outros, mas nunca poderás criar. Por isso usas a tua alegria como um ladrão furtivo, por isso não consegues suportar sem azedume e inveja a felicidade dos outros. (REICH, 1977, p. 50).

        

E o que o Zés Ninguéns fazem com os imigrantes, como tão bem falaram Hannah Arendt, em “Nós, os refugiados”, e Bauman, em “Estranhos à nossa porta”? Tiram sarro dos sotaques, dificultam a questão profissional (Reich teve dificuldades para exercer a Medicina nos Estados Unidos), criam estereótipos que facilitam o “nós contra eles”, falam da liberdade, mas desde que o outro fique distante e não tenha voz.

 5 – A responsabilidade pelo mundo

         Cada pessoa é responsável pelo bem do mundo. Claro que há responsabilidades maiores e outras menores, contudo, todas são importantes para um mundo melhor. Ninguém pode dizer que não tem parte na vida, pois isso traz como consequência a indiferença, e está é perigosa, o pior dos males sociais.

         A quem diz “Ouçam, mas este tipo acusa-me a mim, um Zé Ninguém! Que poder tenho eu para influenciar o presidente dos Estados Unidos? Eu cumpro o meu dever, faço o que me manda o meu patrão e não me meto em altas políticas.” (REICH, 1977, p. 76), é preciso ficar atento. A burocracia é algo que às vezes é necessário, mas às vezes não. O que não pode ocorrer é que ela se torne um fim em si mesmo. Um professor preso ao currículo e aos métodos é de pouca utilidade. Um juiz preso às leis pouco sabe sobre o exequente e sobre o executado. A vida é o fim da vida.

 6 – A esperança

         Nem tudo está perdido, do contrário, de quê valeria escrever e sair para o trabalho diário? É certo, quem sabe, que se tudo estivesse perdido, ainda assim sairíamos à labuta e escreveríamos, mas, não estou interessado em ir por esse estranho caminho. E se nem tudo está perdido, o que fazer para melhorar os horizontes e respirar, mesmo que de quando em quando, um ar puro? Que não nos desprezemos em nome de nada. Que, conforme afirma Reich, amemos mais a vida e jamais a morte: “Mais tarde ou mais cedo aprenderás a servir apenas a vida, e nunca a morte.” (REICH, 1977, p. 105). Que não deixemos que nos governem, que administrem/dominem o nosso trabalho, o nosso amor, o nosso casamento. Isso é o que também deseja o escritor estadunidense John Reed, tão bem retratado por Warren Beatty no filme “Reds”, de 1981. Por outro lado, ai de quem se deixar dominar por terceiros. Ai de quem deixar de ser quem é e se tornar um fantasma. Há esperança no horizonte, mas é preciso lutar por ela, pois essa luta, tão urgente, é em prol da vida.

 Wilhelm Reich. Escuta, Zé Ninguém! Trad. de Maria de Fátima Bivar. 8ª edição. São Paulo: Livraria Martins Fontes, 1977.

Dr. Felipe Figueira

Felipe Figueira é doutor em Educação e pós-doutor em História. Professor de História e Pedagogia no Instituto Federal do Paraná (IFPR) Campus Paranavaí.


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