Vitória
O cinema nacional segue forte, vivo e ativo. Ainda em meio às comemorações do tão esperado Oscar, chega aos cinemas mais um filme promissor dessa nova leva do cinema brasileiro. Nesta semana, a Coluna Sétima Arte irá se dedicar ao novo filme estrelado por Fernanda Montenegro, baseado numa história verídica recheada de fatos que dialogam muito bem com a realidade do Brasil. Nesta edição, você saberá um pouco mais sobre Vitória.
Sentar-se numa poltrona, na sala escura do cinema, para assistir Vitória é como preparar-se para ouvir uma história de coragem contada por um velho conhecido. A sensação de familiaridade vem, em grande parte, da presença icônica de Fernanda Montenegro, cuja carreira é composta por muito talento e dedicação, algo que dialoga com a alma do público brasileiro. Em Vitória, Montenegro não apenas adiciona mais uma pedra preciosa a sua trajetória como artista, mas também nos convida a refletir sobre a verdade e a justiça em um contexto onde a imagem vale mais que palavras.
A história real de Joana Zeferino da Paz, a mulher que enfrentou o submundo do tráfico e a corrupção policial no Rio de Janeiro, é um daqueles relatos que parecem escritos pela própria mão do destino, clamando por uma adaptação cinematográfica. O filme, inicialmente idealizado por Breno Silveira e concluído por Andrucha Waddington após a trágica partida de Silveira, mantém o espírito de luta e resistência que marcou a vida de Joana. No entanto, a escolha de Montenegro para o papel principal trouxe à tona um debate sensível sobre representatividade.
É um dilema delicado, sem dúvida. Joana era uma mulher negra, e sua identidade foi mantida em segredo por anos, até sua morte em 2023. A produção argumenta que a mudança na etnia da protagonista, representada como Nina, foi uma estratégia para preservar a memória de Joana, evitando que detalhes da adaptação pudessem traçar um caminho de volta à sua vida anônima. Independentemente da polêmica, o que se observa na tela é uma luta universal pela dignidade e pelo direito de viver sem medo.
A narrativa, tecida com simplicidade e poder por Paula Fiúza, com a colaboração de Silveira, nos permite entrar na vida cotidiana de Nina. Waddington, com sua direção sensível e atenta, nos guia por essa existência que, de repente, é assolada pela violência. A câmera de Waddington é um olhar cúmplice, que se detém nos detalhes e permite que o elenco respire vida nas entrelinhas do roteiro.
Fernanda Montenegro, com seus quase cem anos de sabedoria e experiência, entrega uma performance que é o coração pulsante do filme. Ela é a vizinha que todos gostariam de ter, a guardiã silenciosa da moralidade, cuja determinação é tanto tocante quanto inspiradora. Montenegro faz com que cada riso e cada lágrima sejam genuínos, um convite para que o espectador compartilhe da jornada emocional de sua personagem.
O elenco coadjuvante é igualmente notável. Linn da Quebrada, mesmo em aparições breves, deixa uma marca indelével, demonstrando uma segurança cênica que promete muito para o futuro. Thawan Lucas, em sua estreia, encanta ao dar vida a Marcinho, um personagem que, com sua presença, aquece a tela. Alan Rocha, como o jornalista Fábio, é a luz no fim do túnel para Nina, transmitindo uma verdadeira sensação de aliança e esperança com sua atuação.
A direção de arte de Claudio Amaral Peixoto é um capítulo à parte. O apartamento de Nina se transforma em um microcosmo da cidade do Rio de Janeiro, onde a beleza dos cartões postais é substituída por uma realidade crua e despojada. A solidão de Nina é palpável, e o espaço ao seu redor é um reflexo de sua luta interna e externa. O trabalho de fotografia, que esteve sob a responsabilidade de Lula Cerri, complementa essa visão, criando uma dança de imagens e cortes que mantém o espectador em um estado de alerta constante, como se estivesse espreitando a realidade através das persianas de Nina.
Vitória é, em essência, um filme sobre o poder da imagem. Não apenas como registro, mas como agente transformador. A protagonista, ao filmar os crimes que ocorrem sob a vista grossa das autoridades, se torna uma cineasta por necessidade, e o cinema de Waddington se apropria dessa ideia para questionar o papel do observador e a responsabilidade do artista na sociedade.
Andrucha Waddington, afastado das telas enquanto dedicava seu talento à série Sob Pressão, do Globoplay, retorna com uma obra que exige ser vista. Seu cinema é um lembrete de que a arte pode ser tanto um espelho quanto uma lente de aumento para os problemas sociais. A Copacabana que vemos em Vitória é desprovida de glamour, uma escolha estética que reflete a realidade dura enfrentada por Nina e tantos outros cidadãos que vivem à sombra dos holofotes turísticos.
A controvérsia sobre a representação racial é um ponto que merece atenção e debate. No entanto, não se deve permitir que essa discussão — por mais importante que seja — ofusque a mensagem central do filme: a de que a coragem e a busca pela justiça são inerentes ao espírito humano, independentemente de quem as encarna na tela.
Por que ver esse filme? Vitória é um filme que nos faz sair do cinema com a cabeça cheia de perguntas e o coração cheio de emoções. É uma obra que, através de suas virtudes técnicas e performances memoráveis, especialmente a de Fernanda Montenegro, se posiciona como um ponto de reflexão no panorama do cinema nacional. Uma história de resistência que, ao ser contada, se torna um grito silencioso, mas poderoso, ecoando a luta de uma mulher que, mesmo na solidão de seu apartamento, encontrou na imagem uma forma de gritar por justiça — um grito que, através do cinema, ressoa alto e claro, desafiando-nos a ouvir e a agir.