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Um texto e um poema


Por: Artigo de opinião
Data: 16/12/2025
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Jan Carlos Berto

Foto: Divulgação

A vida tem dessas coisas. Após mais um dia de professor intenso e corrido, com as demandas que envolvem o fechamento de mais um ano letivo, o sol se pôs. Ao cair da noite, o cansaço me abateu, como ocorre diariamente com grande parte da população.

Há quem sustente a ideia de que o sistema é cirúrgico em sua engenharia de exaustão: ele nos quer cansados, esvaziados de tempo e de espírito, para que a reflexão seja um luxo negado. Nesse ritmo, não há espaço para a reflexão, apenas a hora-relógio, que nos fornece o “tempo hábil” para cumprir tarefas diárias e compromissos agendados.

Suficientemente exausto e entregue a esse cansaço, preparo-me para dormir. Afinal, amanhã tem mais... Eis que o inesperado acontece, contradizendo o sistema que me quer dormindo e não pensando. O esgotamento deu lugar à reflexão, e a criatividade se aguçou.

Devo confessar que minhas inspirações surgem em momentos inusitados, seja no silêncio da conexão pessoal ou em momentos aleatórios do cotidiano. Desta vez, ocorreu no meio da madrugada. Em um lapso de inspiração, despertei de um sono leve e assim, exponho nas linhas que se seguem, o poema denominado “A Contradição em Versos” que me veio à mente.

 

Matam borboletas, e querem lagartas;

Desprezam as flores, e querem frutos no desabrochar;

Destroem a semente, e querem o fruto maduro;

Utilizam agrotóxicos, e querem frutos frescos;

Desprezam as minhocas, e querem solo fértil;

Queimam as folhas caídas, e querem a germinação das sementes;

Cimentam a terra, e querem coletar tubérculos;

Pintam o cinza, e querem o verde;

Arrancam as raízes, e esperam que o futuro floresça;

Cortam os pássaros, e querem as árvores de pé;

Destroem os ninhos, e querem os ovos;

Destroem os ovos, e esperam pelo voo;

Poluem os peixes, e querem águas saudáveis;

Secam o rio pleno, e querem preservar as nascentes;

Poluem o ar puro, e querem sentir a brisa do céu diurno;

Poluem as estrelas, e querem ver o céu noturno;

Plantam a ilusão, e querem a sinceridade nua;

Vestem a máscara, e almejam o laço puro;

Tecem a trapaça, e buscam o olhar franco;

Cultivam a dor, e querem sentir o amor;

Cultivam pesadelos, e querem acordar de sonhos leves;

Brigam entre si por dinheiro, e querem o equilíbrio e a conexão;

Rasgam a história, e querem escrever o livro;

Queimam a memória e a floresta, e querem sustentar o bem-estar humano;

Desencadeiam a guerra, e querem a paz e o silêncio;?

Clamam por abrigo, e destroem o lar;

 

Destroem o nosso lar.


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