Sebastião Salgado. “Êxodos”

A primeira obra que adquiri de Sebastião Salgado foi “Gênesis”, mas, na sequência, “Êxodos”, e as duas, por mais que feitas pelo mesmo fotógrafo, são incrivelmente destoantes. “Gênesis” vai a locais intocados da Terra, ao “paraíso”; já “Êxodos” mostra a humanidade em trânsito, ora em razão de guerras (refugiados), ora em busca de melhores oportunidades de vida (imigrantes).
“Êxodos” é uma obra que nasce na década de 1990, logo após Salgado ter concluído “Trabalhadores”, de modo que é possível dizer que “Trabalhadores”, “Êxodos” e “Gênesis” formam uma trilogia. Na primeira parte, o fotógrafo revela as pessoas em suas diversas profissões, o que é motivo de grande dignidade para elas, por mais que a exploração seja enorme; na segunda, conforme dito, se revela uma humanidade em trânsito, e parte deste se dá em razões de trabalho; e na terceira, após Salgado ter conhecido situações monstruosas, ele vai atrás do que poderia ser chamado de “paraíso”.
Acerca do “Gênesis”, são essas as palavras do fotógrafo:
Ao mesmo tempo, se a sobrevivência é o mais forte de nossos instintos, uma e outra vez a vi manifestar-se sob a forma de ódio, violência e ganância. Os massacres que presenciei na África e na América Latina, bem como a limpeza étnica na Europa, deixaram-me muito duvidoso quanto à possibilidade de que algum dia o homem venha a dominar seus instintos mais sombrios. (Salgado, 2016, p. 7).
Ao ler esse texto, do prefácio à primeira edição, de 1999, foi impossível não voltar à Freud e ao polêmico conceito de pulsão de morte. Esta pulsão, contraposta ao instinto de vida/sobrevivência, buscaria a autoaniquilação: o ser humano, ao repetir certos padrões destrutivos, buscaria a própria morte. É possível observar a pulsão de morte em um nível individual, mas, é sobretudo visível quando deslocado para a coletividade. Com essa perspectiva é possível dar os seguintes exemplos: o Holocausto, as guerras espalhadas pelo mundo e até mesmo a destruição do meio ambiente (vide as críticas de Krenak) e o individualismo, este chamado pelo fotógrafo de “receita para a catástrofe” (Salgado, 2016, p. 15).
Ao caminhar pelos prefácios, antes mesmo de chegar às fotografias, é possível encontrar outro valioso conceito: “ilusão de informação”. Eis o contexto: “Há não mais de meio século o mundo podia afirmar que “não sabia” da ocorrência do Holocausto. Hoje, a informação – ou ao menos a ilusão da informação – está disponível para praticamente todas as pessoas.” (Salgado, 2016, p. 10). A ideia é que, hoje, as pessoas não podem mais dizer que não sabem de algo por causa do desconhecimento, posto que o mundo se encontra globalizado. Mas, também o fotógrafo não é ingênuo quanto ao assunto, daí o termo “ilusão de informação”, pois nem a globalização é a solução para os problemas contemporâneos e nem a informação é a solução por si só. Quanto à ilusão de informação no século XXI, o mestre não poderia estar mais correto, vide as campanhas antivacinas e antimedicamentos. Quanto a esses infames movimentos, é possível combatê-los sob o seguinte viés: em campos de refugiados, como os fotografados por Salgado, muitas mortes teriam sido evitadas com simples remédios.
Sebastião Salgado, como declara em diversas entrevistas, sendo que eu as assisto de modo incansável, é economista de formação e foi para as lentes com o seu olhar social, não fazendo da fotografia algo neutro, mas preocupado com a melhoria da humanidade. Mas, que não haja ilusões: o fotógrafo também criticou regimes de esquerda, pois esses regimes em si também podem não ser a solução para os problemas, o que é possível ver, por meio das fotografias, nos casos do Vietnã e da China. Muitos fugiram dos regimes opressores comunistas, e isso também é uma catástrofe. Quanto ao assunto, eu posso prestar a minha contribuição: o regime ditatorial de Nicolás Maduro levou milhões ao exílio, de modo que vi uma Venezuela em trânsito.
Quanto às fotografias de “Êxodos”, há a seguinte divisão de capítulos:
1ª Migrantes e refugiados: o instinto de sobrevivência.
2ª A tragédia africana: um continente à deriva.
3ª A América Latina: êxodo rural, desordem urbana.
4ª Ásia: a nova face urbana do mundo.
Todos os capítulos são dramáticos, mas, um, como o próprio nome sugere, é ainda mais, “A tragédia africana”. É neste capítulo que há um conjunto chocante de fotografias acerca do genocídio em Ruanda, em 1994. Salgado conseguiu acompanhar essa catástrofe em detalhes, dividindo-a em quatro partes:
1ª Ruandenses buscam refúgio na Tanzânia.
2ª Ruandenses refugiados na região de Goma, no Zaire.
3ª Ruanda, uma nação dilacerada.
4ª A situação desesperada dos ruandenses refugiados no Zaire.
Em uma das entrevistas, Sebastião Salgado afirma que o genocídio ruandense poderia ter sido evitado com poucos milhões de dólares e com uma básica assistência internacional. Contudo, o contrário foi o que se verificou, uma Ruanda sendo deixada “à deriva”, assim como o continente africano, como afirma o fotógrafo. Neste sentido, o filme “Hotel Ruanda” é interessante de ser visto, pois mostra os estrangeiros e os órgãos internacionais saindo do país e deixando os seus moradores à própria sorte. O resultado? Mais de um milhão de mortos em poucos meses. O massacre dos Hutus contra os Tutsis foi arrasador. Mas, como a tragédia nunca termina em um ato só, antes os Tutsis que perseguiam os Hutus e, depois que conseguiram voltar ao poder, tornaram a perseguição. Estas poucas linhas sobre o assunto não devem redundar em simplismos, mas buscam estimular leituras a respeito, pois todos devemos ser responsáveis pelo mundo em que vivemos.
Outro capítulo dramático é o terceiro, “A América Latina”, sendo que o fotógrafo dá ênfase especial a duas megalópoles: Cidade do México e São Paulo. Quanto a São Paulo, eu já a visitei cerca de vinte vezes e quanto às fotos feitas pelo mestre, na década de 1990, posso afirmar que a realidade pouco mudou, ou, antes, se agravou. Quando vou à Avenida Paulista, para visitar o Museu de Arte de São Paulo (MASP), me choca a quantidade de moradores de rua, especialmente crianças, presentes no vão livre. Em uma das minhas últimas vezes estimo que lá havia cerca de cento e cinquenta moradores. E o que dizer d que eu vi nas calçadas do Parque Trianon, em frente ao MASP? Mais caos. E o que dizer da Catedral da Sé e da região da Praça Princesa Isabel? Mais e mais desordem. Como bem registrou Salgado, São Paulo, de um lado tem pessoas com poder, com alto poder de consumo, mas, de outro, há pessoas sem nada. Dualismo? Maniqueísmo? Não. Apesar das fotos do mestre serem em preto e branco, a realidade revelada por Salgado é cheia de nuances.
E por que a escolha pelo preto e branco? Uma das explicações, dada pelo próprio fotógrafo, é que, com isso, as pessoas não se perdem nas cores, como o vermelho, o verde e o azul, deixando o conteúdo em si da fotografia em segundo plano. E, também, há outra razão: como nada na vida é preto e branco, a pessoa pode ela própria compor a sua imagem do que foi registrado, participando diretamente do processo artístico. Nos termos do mestre, “o preto e branco é uma abstração”.
Todas as vezes que eu termino um livro de Sebastião Salgado, ou quando termino uma entrevista, é como se eu fosse levado para outro mundo. E qual mundo seria esse? Um mundo em que eu quero conhecer a realidade com mais propriedade e clareza, evitando as ilusões da informação; um mundo em que eu quero dialogar mais com as pessoas e agir mais. Essa ideia de querer dialogar, um dos objetivos do fotógrafo, é convergente com o desejo de Bauman, em “Estranhos em nossa porta”. Sem um diálogo, sem um diálogo horizontal, nada muda, e o ser humano pode, e isso não é nenhuma profecia apocalíptica, se destruir. O ser humano pode até buscar se preservar, mas, sob a égide do individualismo, pode, destruindo o meio ambiente e a humanidade, se destruir.
Sebastião Salgado. Êxodos. Cologne: Taschen, 2016.

