A generic square placeholder image with rounded corners in a figure.


Quando chega a hora de partir


Por: Artigo de opinião
Data: 30/03/2026
  • Compartilhar:

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.

Instagram: fabiana_margonato

“Estou cansada”. É uma fala comum presente nos dizeres de muitas de nós, mulheres. Nas mais ou nas menos jovens, o cansaço toma conta diante dos afazeres, papeis, prazeres e lazeres que precisamos para dar conta da vida. Mas de que realmente precisamos? Se fizéssemos apenas o necessário, o cansaço nos abateria tanto? E o que é de fato necessitamos para ter sucesso na vida?

Caminhando no parque com uma amiga, psicóloga, começamos a falar sobre relacionamentos. E eis a grande pergunta: o que é necessário para sucesso nas relações amorosas? Difícil saber. Em anos de prática clínica, ela ainda se pega pensando nessa questão para a qual não encontra resposta. E relacionamentos difíceis aumentam o nosso cansaço. E todas nós sempre em busca do que muitos chamam de sorte no amor.

Nessa busca constante, percebemos a nós mesmas várias vezes adoecidas pelo desgaste de uma rotina estressante. É comum, para lidar com isso, recorrermos a consultas médicas, tomarmos vitaminas, suplementos, rivotril, etc., e ainda assim nos deparamos com aquela sensação constante de insuficiência que não nos deixa. As vinte e quatro horas do dia são poucas para darmos conta de tudo e ainda assim nos sentirmos satisfeitas, como manda o script social.

Me pergunto sobre a necessidade de desapegarmos e deixarmos para trás o que nos impede de seguir saudavelmente. Por mais que doa. Isso aprendi cuidando de uma planta que ganhei do meu pai nas últimas férias. Para que ela crescesse linda e exuberante, seguindo os preceitos da própria natureza, esporadicamente eu precisava podar pelo menos um de seus ramos, geralmente aquele mais robusto com as raízes mais profundas.

No começo sentia dó de fazer isso, mas percebi, aos poucos, que precisava mesmo de ser assim. E desse jeito cuido muito bem do meu pé de fortuna, e ele cresce dia após dia com mais propriedade, apesar das perdas dos ramos que sofre no decorrer de sua vida. Com minha planta e com as outras coisas que observo na vida, entendo a cada dia que amar é deixar ir. E que muitas vezes, cuidar de nós mesmas requer a decisão de partir de um lugar de escassez em busca de uma vida mais abundante, por mais que possa doer.

Enquanto pensava sobre isso, assistir ao filme americano “É assim que acaba”, baseado no romance de Colleen Hoover, despertou meus pensamentos sobre o momento certo para ir embora na vida. No drama estadunidense, a protagonista Lily Bloom se vê em uma delicada situação de violência que a obriga a tomar uma importante decisão e dar fim à relação abusiva que vivia em seu casamento. Ela, uma mulher linda, que representa um modelo feminino padronizado e aceito socialmente, se vê desempenhando diversos papeis que vão desde uma boa filha, até uma esposa exemplar de um médico rico que, com o passar do tempo, age abusivamente, culminando em uma agressão física que a faz sair de casa.

Um detalhe foi o fato de Lily, como muitas de nós, ter se sentido cansada por várias e várias vezes e, mesmo assim, disposta a investir em um relacionamento que não lhe fazia bem, esperando que um dia tudo mudasse. Curioso o fato de que a personagem vivida por sua mãe sofrera o mesmo problema com o marido, o pai de Lily, mas não teve coragem para encerrar o sofrimento. No caso das personagens, a violência física tornou as cenas dolorosas aos espectadores, ganhando destaque nas discussões sobre a produção cinematográfica que circularam e circulam até hoje nos espaços digitais.

No entanto, quando se fala de relações abusivas, elas não se restringem ao nível físico, como apresentado na narrativa. Viver entre quatro paredes com alguém como quem se tem uma total desconexão de almas por si só pode levar a conversas abusivas, e até mesmo a silêncios que sustentam uma prepotência gelada. E em uma relação a dois, não é possível viver o meio termo. Ou o amor é cultivado ou ele simplesmente não prospera, assim como a fortuna que ganhei do meu pai. Um dia desses, comecei a conversar em casa sobre o amor e nossas buscas por relacionamentos que nos nutrem.

Pensando sobre o que é, de fato, amar alguém, instintivamente cheguei a uma definição possível. Para mim, quando se ama, se é feliz pela simples existência do outro. Vejo esse como um parâmetro aplicável se quisermos para avaliar as nossas relações. É de se duvidar de alguém que afirma amar, mas não se alegra com as conquistas de seu parceiro ou não se abala nos momentos que que o outro passa por dificuldades.

É comum, até mesmo por convenções sociais ou por apego nos mantermos firmes e fortes em um relacionamento, mesmo que nada esteja bem. É claro que, como dizem os manuais de vida existentes por aí, o diálogo deve sempre ser incentivado e tudo mais. Mas mesmo assim, se nada mudar, depois de muitas e muitas tentativas, talvez seja mesmo a hora de partir. Ir embora pode ser um ato de coragem e de autorrespeito que conecta a quem realmente se é no fundo da essência da alma. Porque, de fato, mesmo que os relacionamentos nem sempre sejam fáceis, conversando com a minha amiga, no final da nossa caminhada, chegamos à conclusão de que o requisito mínimo para que durem é a presença de cuidado mútuo, algo essencial do qual todos os seres humanos precisam.

Em um terreno em que o cuidado acaba ou até mesmo nunca existiu, como vemos algumas vezes por aí, é impossível ver os frutos do amor e dos bons relacionamentos se fortalecerem. Então, pra responder ao título desta crônica, a hora de ir não é a hora em que o amor acaba, mas sim, quando cuidar um do outro não faz sentido em uma relação. É quando as disputas e a inveja se sobressaem e envenenam o que existe de saudável e genuíno que um dia podem ter levado a uma união.

Ir embora não necessariamente requer grandes deslocamentos. Talvez seja o simples fato de assumirmos com coragem a necessidade de nos encontrarmos com quem realmente somos e viver isso deixando de lado tudo que é superficial e nos tira do nosso eixo.


Anuncie com Jornal Noroeste
A caption for the above image.


Veja Também


smartphone

Acesse o melhor conteúdo jornalístico da região através do seu dispositivos, tablets, celulares e televisores.