Molière. “As eruditas”

Molière figura entre os escritores que mais li e reli. “O Tartufo” e “As eruditas”, estimo que li cerca de cinco vezes cada. Contudo, “As eruditas” ocupa um destaque porque dessa obra já me servi largamente, nas épocas de mestrado e doutorado. Como estudei a crítica ao eruditismo em Nietzsche, o livro de Molière caía como uma luva. O curioso é que, ao que tudo indica, segundo as minhas pesquisas, nos primeiros escritos do alemão, o comediógrafo francês não é sequer mencionado, apesar das convergências entre eles. Tanto um quanto outro têm desprezo pelo eruditismo, pelo conhecimento pelo conhecimento; no caso de Molière, pelo saber falso que quer se passar por verdadeira cultura; no caso de Nietzsche, pelo academicismo.
Veja bem, preciso dizer desde já que Molière, em “As eruditas”, por meio do casal Henriqueta e Cristóvão, não está a menosprezar o saber verdadeiro, pois isto seria até um paradoxo, já que o comediógrafo era culto. No entanto, e isso perpassa as obras do francês, há uma crítica aos costumes, como por exemplo, ao do casamento forçado, arranjado. Hoje, no Ocidente, isso pode soar ultrapassado, mas, o contexto em que Molière escreveu era do século XVII, e, não custa dizer, que casamentos arranjados até hoje existem. É um problema isso que estou a dizer, já que há culturas e religiões que ainda o praticam? Certamente, porém, o que ocorria no cenário criticado por Molière era a violência da imposição. Filomena, mãe de Henriqueta, queria que ela se casasse com um interesseiro, com o fajuto doutor Tremembó, só porque este passava o ar de ser culto, além de ser um bajulador de Filomena, que também se erguia como modelo de cultura. Basta citar alguns versos abaixo, de Tremembó, para perceber o nível de sua literatura.
Vossa prudência cochila,
abrigando na barriga
e tratando como pupila
vossa cruel inimiga. (MOLIÈRE, 2018, p. 66).
Mandai-a embora, ó doente
de vossa rica mansão
onde essa ingrata insolente
prepara o vosso caixão. (MOLIÈRE, 2018, 68).
Sem respeito ao sangue azul,
vos acata ao norte e ao sul. (MOLIÈRE, 2018, p. 72).
Mas enfrentai, senhora, os miasmas malsãos,
afogando-os com suas próprias mãos,
como quem afoga as mágoas.
Vá a uma estação de águas! (MOLIÈRE, 2018, p. 72).
Todavia, é importante fazer um adendo. Nem tudo em Molière é uma crítica aos costumes, pois, há momentos em que se revela também uma espécie de “lugar das mulheres”, que seria na cozinha, arrumando a casa e até apanhando do marido, quando preciso. É o que se lê em algumas falas, como as de Crisaldo e Martina, esta, empregada da família
Crisaldo: Esquecer um pouco o que se faz na lua/ e preocupar-se mais com a arrumação da casa, obrigação sua./ Não é nada direito que uma mulher estude mil coisas irreais/ e descuide, na prática, das coisas mais banais./ Orientar os filhos no caminho da vida, dirigir e comandar/ a criadagem, manter a casa limpa e arejada, gastar/ o dinheiro com economia, taí uma filosofia./ (...) E nesta casa, então, isso/ chegou à loucura total,/ pois aqui vocês sabem tudo, tudo, tudo, menos o fundamental./ Sabem como vai a lua, a estrela polar, Vênus, Saturno,/ Marte – eu sei que sabem! -, mas, sabendo tanto, eu/ não me explico/ é que nunca saibam onde está meu penico./ Até as criadas, para agradar as patroas, estudam matemática/ e desinências gregas, distinguem que de cuja/ mas não limpam o pó da sala e deixam a roupa suja./ O racionalismo aqui virou uma doutrina/ e, racionalizando, ninguém mais raciocina. (MOLIÈRE, 2018, p. 52-53).
Martina: Se eu tinha um marido, eu acho/ que eu queria ele bem macho./ Alguém prefere mole o marido?/ em qualquer sentido?/ E se eu agisse mal/ eu acho que ele devia me sentar o pau./ O meu marido./ Em qualquer sentido. (MOLIÈRE, 2018, p. 132-133).
Sim, Martina, de modo ambíguo, diz ser razoável apanhar, o que faz lembrar, um pouco, da história de “Niketche”, da moçambicana Paulina Chiziane, e também a música “Na subida do morro”, de Moreira da Silva: “Na subida do morro me contaram/ Que você bateu na minha nêga/ Isso não é direito/ Bater numa mulher/ Que não é sua”.
Para mim, é difícil expressar como que “As eruditas” me impacta, mas, posso exemplificar. Ela é um deboche a falsos cultos, sabichões, e a sociedade está repleta deles; ela é uma crítica feroz às tradições, não dando alívio ao leitor, sendo que não podemos sentir alívios no que diz respeito à cultura; ela é objetiva: em pouquíssimas páginas toda uma tradição é questionada; ela é uma crítica não vulgar; e ela é uma obra de humor maravilhoso. Como eu gosto de escrever, a tenho como inspiração há anos, e, no que diz respeito ao uso do humor e da ironia, ela é uma das minhas referências.
Agora, que também seja dito e redito. Molière não critica o saber verdadeiro, o que fica explícito na boca de Cristóvão a Filomena: “(...) não sou contra os sábios, sou só contra os pedantes./ Não combato a ciência,/ combato a impertinência/ que se faz passar por ciência. Não sou contra a leitura/ mas contra quem arrota uma falsa cultura.” (MOLIÈRE, 2018, p. 107).
E por que é preciso deixar isso claro? Porque uma leitura cínica, ignorante, poderia pensar que então o saber é inútil. Não. Não é nada disso. A cultura é importante. não é possível aceitar alguém que, sem se dar ao esforço dos estudos, sem cansar a mente, os ombros, as costas, venha dizer o que é a cultura e a ciência, por meio de toscas teorias da conspiração tiradas de vídeos duvidosos. Molière não é um apologista da preguiça. Se no passado ele criticou os falsos cultos, que liam toscamente Horário, Dante, Homero, hoje, provavelmente, ele criticaria os adeptos das referidas teorias e suas respostas para tudo.
O que Molière intensamente revela é a hipocrisia humana. Em “O Tartufo”, ele critica a falsa moralidade, a falsa religiosidade, algo que foi tão bem retratado no filme de nome homônimo de Murnau. Em “As eruditas” se revela outro tabu: o de criticar o saber que para nada serve. Quem se vê sempre ao lado dos livros é preciso estar atento às suas ciladas. Os pensadores da Escola de Frankfurt, como Adorno, criticaram a indústria cultural; Nietzsche criticou o eruditismo e a massificação; ou seja, a cultura pode ser convertida em o oposto da própria cultura. Não se trata de um elitismo, de ir contra a democracia, por mais que, polemicamente, Nietzsche tantas vezes se coloca contra isso, mas, isto sim, de não colocar tudo em um mesmo balde, Homero com algum autor vulgar. Isso seria o mesmo que colocar Homero com Tremembó no Hades, tornando o grego o rei de todos os escritores cadavéricos, a exemplo de Aquiles, que era “o rei de todos os defuntos cadavéricos.” (HOMERO, 2013, p. 199-200). Não. Há livros vivos, como “As eruditas”, e outros mortos, que não convém citar. Disse Jesus (Mat 8:22): “Segue-me e deixa aos mortos sepultar os seus mortos.”
“As eruditas” encontra-se dividida em cinco atos, que vão desde o desejo de Henriqueta e Cristóvão de se casar, até que o altar lhes aproxima e lhes é tirado. Não contarei o final da história, e tampouco o que acontece em seu meio, mas, basta dizer que é uma história deliciosa que desafia a cultura do leitor e também o seu bom humor.
Homero. Odisseia. Trad. de Trajano Vieira. São Paulo: Editora 34, 2013.
Molière. As eruditas. Trad. de Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 2018.

