A generic square placeholder image with rounded corners in a figure.


Hamnet: A Vida Antes de Hamlet


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 26/01/2026
  • Compartilhar:

Com o anúncio oficial dos indicados ao Oscar 2026, o cinema brasileiro tem motivos de sobra para comemorar. O Agente Secreto conquistou quatro indicações, consolidando-se como um dos grandes destaques da temporada e reafirmando a força do audiovisual nacional no cenário internacional. O reconhecimento se amplia ainda mais com a indicação de Adolpho Veloso ao Oscar de Melhor Fotografia pelo filme Sonhos de Trem, um feito que merece ser celebrado não apenas como conquista individual, mas como vitória simbólica de toda uma cadeia criativa que insiste em produzir cinema de qualidade no Brasil, mesmo diante de tantas dificuldades. É nesse clima de entusiasmo, expectativa e valorização do cinema como arte que a Coluna de hoje se volta para outro concorrente que tem chamado atenção na corrida pelo Oscar: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet.

Dirigido por Chloé Zhao, esse longa antes mesmo da divulgação oficial dos indicados, já aparecia como um possível concorrente forte. Independentemente de como a corrida pelo Oscar vai se desenhar, o fato é que estamos diante de uma obra que merece ser vista e discutida. Baseado no romance de Maggie O’Farrell, o filme parte de um episódio pouco explorado da vida de William Shakespeare, a morte de seu filho Hamnet, aos 11 anos. Tradicionalmente, esse acontecimento é associado à escrita de Hamlet, uma das peças mais importantes da história do teatro. No entanto, quem espera um filme sobre o processo criativo de Shakespeare ou sobre os bastidores da obra pode se surpreender. Chloé Zhao não constrói um retrato do gênio, mas um drama familiar. E, mais do que isso, um filme que desloca o centro da narrativa para Agnes, a mãe da criança.

O maior acerto de Hamnet está justamente em não transformar Shakespeare no protagonista. O William vivido por Paul Mescal é um personagem secundário diante da força de Agnes, interpretada por Jessie Buckley. É nela que o filme se apoia emocionalmente. É a partir de seu corpo, de sua relação com a natureza e de sua forma de existir no mundo que a narrativa se organiza. Zhao opta por mostrar essa família antes da tragédia, destacando o cotidiano, os gestos simples, os vínculos e os silêncios.

Agnes é apresentada como uma mulher profundamente conectada ao ambiente em que vive. Ela conhece plantas, prepara remédios, observa os ciclos naturais. O filme faz questão de aproximar sua figura da terra, da floresta, da água. Essa escolha não é apenas estética. Ela prepara o terreno para o que virá depois. Quando a doença chega e o filho morre, não se trata apenas da perda de uma criança, mas da ruptura de uma ordem, de um modo de estar no mundo.

Jessie Buckley entrega uma atuação extremamente física. Seu trabalho não se apoia em longos discursos nem em cenas explicativas. A dor aparece nos movimentos, na respiração, no modo como Agnes se desloca pelos espaços. O luto, aqui, não é bonito nem organizado. Ele é confuso, insistente, muitas vezes desconfortável de acompanhar. Chloé Zhao não tenta suavizar essa experiência para torná-la mais agradável ao público. Pelo contrário, o filme retorna várias vezes à perda, sem oferecer alívio fácil.

Paul Mescal constrói um Shakespeare contido, quase sempre distante. Seu William é um homem que observa mais do que age, que parece frequentemente deslocado dentro da própria casa. Zhao o enquadra repetidas vezes por portas, janelas e estruturas que reforçam essa sensação de separação. Para quem espera um retrato vibrante ou carismático do dramaturgo, essa abordagem pode frustrar. Mas ela deixa claro qual é o foco do filme: não a genialidade, e sim o impacto da tragédia sobre uma família comum.

Do ponto de vista formal, Hamnet trabalha muito bem os contrastes. Os ambientes internos são filmados de forma mais estática, com planos longos e uma sensação quase opressiva. As casas parecem guardar a memória daquilo que aconteceu. Já os espaços externos ganham mais movimento, mais luz e mais ar. A natureza surge como refúgio, mas também como lembrança constante daquilo que Agnes perdeu.

A trilha sonora, baseada em temas vocais e piano, acompanha esse movimento emocional. Em alguns momentos, ela pesa a mão e conduz demais a emoção. Em outros, contribui para criar uma atmosfera de suspensão e melancolia que dialoga bem com a proposta do filme. Chloé Zhao não tem medo do excesso. O filme insiste, retorna, repete sensações. Isso pode incomodar parte do público, mas também revela coerência com o tema: o luto não é linear, nem econômico.

É importante dizer que Hamnet: A Vida Antes de Hamlet não é um filme sobre superação. Não há aqui uma trajetória clara de reconstrução. O que o longa propõe é a convivência com a perda. A narrativa circula em torno do vazio deixado por Hamnet. Algumas cenas se repetem em espaços semelhantes, mas com sentidos completamente diferentes. O quarto do menino, por exemplo, volta diversas vezes, e o que muda não é o cenário, mas aquilo que não está mais nele.

Essa ideia encontra seu ponto mais forte na sequência final, quando Agnes assiste a uma encenação de Hamlet. O teatro, nesse momento, deixa de ser apenas palco e se transforma em espelho. A obra consagrada retorna a ela como ferida. Chloé Zhao filma essa cena sem grandiloquência, mas com enorme carga simbólica. A arte surge não como explicação da dor, mas como consequência dela. Não há cura, há transformação.

Hamnet é um filme irregular. Em certos momentos, seus paralelos são literais demais. Em outros, a insistência emocional pode soar excessiva. Ainda assim, trata-se de uma obra honesta, que não tenta embelezar a dor nem transformá-la em discurso inspirador. Seu maior mérito é lembrar que, antes do mito Shakespeare, existiu uma casa, uma esposa, um filho, uma perda. Antes do texto, houve vida.

Por que ver esse filme? Porque Chloé Zhao constrói aqui um drama que foge da lógica tradicional das cinebiografias. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet não quer explicar a origem de uma obra-prima. Quer mostrar o que sobra quando algo irremediável acontece. É um filme que aposta na experiência, no desconforto e na permanência da dor como parte da existência. Pode não agradar a todos, mas certamente provoca reflexão. E, em tempos de produções tão formatadas, isso já é um ótimo motivo para ir ao cinema. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
A caption for the above image.


Veja Também


smartphone

Acesse o melhor conteúdo jornalístico da região através do seu dispositivos, tablets, celulares e televisores.