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Guerra do Contestado: um movimento de resistência social no Sul do Brasil


Por: Especial para JN
Data: 17/09/2026
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Educanda: Joana Simões Souza
Série: 3.2

Em 2026, completam-se 110 anos do fim da Guerra do Contestado, conflito cujo desfecho foi decisivo para a definição da configuração e da extensão atuais da fronteira sul do território paranaense. Os limites entre Paraná e Santa Catarina foram estabelecidos diretamente a partir do Acordo de Limites Paraná–Santa Catarina, assinado em 20 de outubro de 1916. Mais do que recordar uma disputa territorial, a data permite retomar a história das populações sertanejas que resistiram às transformações sociais, econômicas e políticas impostas à região.

Entretanto, a definição das fronteiras foi apenas um dos desdobramentos de um conflito muito mais amplo. Inicialmente, foi concedido pelas autoridades o direito de construir uma ferrovia que ligava São Paulo ao Rio Grande do Sul para o norte-americano Percival Farquhar, paga em terras. Apesar de gerar empregos na produção da linha férrea, o que já expulsou sertanejos que viviam na região, após a finalização da construção essas pessoas foram abandonadas sem opção de volta para suas casas.

Nesse cenário de profundas transformações, a insatisfação da população sertaneja ganhou força. Como aponta Rogério Rosa Rodrigues (2008; 2026), a denominação “Contestado” não faz jus à complexidade do movimento que eclodiu em 1912, pois a disputa pelos limites territoriais entre Paraná e Santa Catarina constituiu apenas um dos elementos do conflito. Embora a questão territorial tenha sido importante, ela não explica, por si só, a magnitude da mobilização. As profundas desigualdades sociais, os conflitos pela posse da terra, a expansão das companhias ferroviárias e madeireiras e a exclusão das populações sertanejas constituíram fatores centrais para a eclosão e a permanência da guerra. É nesse contexto que a Guerra do Contestado deve ser compreendida, sobretudo, como uma expressão das tensões sociais e da resistência das populações do interior diante das transformações econômicas e políticas que marcaram o início do século XX.

Foi justamente nesse contexto de exclusão e resistência que surgiram as principais lideranças do movimento.

Entre essas lideranças, destacou-se a figura do monge José Maria. José Maria foi um curandeiro e rezador conhecido como monge, cuja liderança reuniu milhares de sertanejos durante a Guerra do Contestado. Ao oferecer benzeduras, conselhos e auxílio aos necessitados, tornou-se símbolo de esperança para a população excluída. Após sua morte no Combate de Irani, em 1912, seus seguidores acreditavam em seu retorno, fortalecendo o caráter messiânico e a resistência do movimento.

A resistência surpreendeu e desencadeou o uso de uma ampla força militar para dar fim ao conflito. A repressão atingiu os redutos sertanejos e provocou a morte de combatentes e civis, incluindo mulheres, crianças e idosos. O desfecho político aconteceu em outubro de 1916, com a assinatura do acordo que definia as fronteiras entre o Paraná e Santa Catarina. O fim oficial do conflito, entretanto, não apagou as consequências sociais da guerra para as populações da região.

Por isso, a memória da Guerra do Contestado permanece relevante para a compreensão das desigualdades sociais e dos processos históricos que marcaram a formação da região. Nesse sentido, os 110 anos do conflito, completados em 2026, constituem uma oportunidade para refletir sobre as múltiplas dimensões desse episódio, evidenciando que a história também é construída pelas experiências e pelas formas de resistência das populações marginalizadas. Revisitar o Contestado, portanto, é também reconhecer que a formação do Sul do Brasil foi marcada por disputas de terra, interesses econômicos e pela resistência de grupos que muitas vezes permaneceram à margem das narrativas oficiais. 

REFERÊNCIAS

RODRIGUES, Rogério Rosa. Guerra do Contestado. Atlas Histórico do Brasil, Fundação Getulio Vargas. Disponível em: https://atlas.fgv.br/verbetes/guerra-do-contestado. Acesso em: 16 ago. 2026.

RODRIGUES, Rogério Rosa. Veredas de um grande sertão: a Guerra do Contestado e a modernização do Exército brasileiro. 2008. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.


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