Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor

Vamos falar a verdade, tem filme que demora para encontrar seu lugar, mesmo quando o seu gênero era o queridinho da vez. Da Magia à Sedução, lançado em 1998, foi um deles. Na época, a mistura de romance, fantasia, comédia e suspense não agradou a todo mundo. Com o tempo, porém, o filme de Sandra Bullock e Nicole Kidman ganhou outro status. Virou cult, conquistou uma nova geração e acabou se transformando naquele tipo de produção que muita gente gosta de rever simplesmente porque se sente bem assistindo. Como atualmente Hollywood vive de nostalgia e de repaginar antigas ideias, essa foi justamente essa sensação que Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor tenta recuperar com sua estreia no cinema.
Quase trinta anos depois, voltamos à família Owens. Sally, interpretada novamente por Sandra Bullock, perdeu o marido e decidiu fazer aquilo que acredita ser melhor para as filhas. Apagou da memória delas a história da família, a magia e, principalmente, a maldição que acompanha as mulheres Owens há gerações. Só que esconder uma história de família nunca é tão simples assim.
Quando Kylie, vivida por Joey King, se apaixona e o namorado sofre um grave acidente, o segredo começa a aparecer. É a partir daí que a jovem descobre quem realmente é e parte em busca das origens da família e de uma maneira de acabar de vez com a maldição. A história é simples e, em alguns momentos, previsível. Mas há uma diferença importante entre ser previsível e não funcionar. Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor sabe muito bem o tipo de filme que quer ser e não tem vergonha disso.
A diretora Susanne Bier diminui bastante o suspense em relação ao filme de 1998. A magia continua presente, mas não é tratada como algo necessariamente assustador. Ela faz parte da vida das Owens. Está dentro de casa, nas relações familiares, nas lembranças e nos conflitos entre mãe e filhas. E essa escolha funciona. O verdadeiro problema de Sally nunca foi a magia. Foi o medo. Medo de que as filhas sofressem o mesmo que ela sofreu. Medo de perder alguém novamente. Medo de permitir que a história se repetisse. Ao tentar proteger as filhas, entretanto, ela acaba cometendo justamente o erro que mais queria evitar.

É aí que o elenco principal mostra todo seu talento! Sandra Bullock apresenta uma personagem diferente daquela que conhecemos no primeiro filme. Sally está mais contida, insegura e até atrapalhada. Bullock entende esse lado da personagem e consegue tirar humor de pequenos gestos, tropeços e situações desconfortáveis, sem transformar Sally em uma caricatura. Sutilezas que surgem com a experiência. Já Nicole Kidman, por outro lado, continua sendo uma das melhores coisas do filme. Gillian mantém aquela personalidade livre, impulsiva e divertida que fez a personagem funcionar tão bem. A química entre as duas continua ótima e é difícil não gostar de vê-las novamente juntas. Esse é provavelmente o maior acerto da continuação. Bullock e Kidman não parecem estar simplesmente repetindo personagens de quase trinta anos atrás. Existe uma história entre elas. Existe um passado. E isso aparece na relação entre Sally e Gillian.
O retorno de Stockard Channing e Dianne Wiest como Franny e Jetty também funciona muito bem. É impossível não sentir um pouco de nostalgia quando elas aparecem. Só que, desta vez, a presença das duas tem um peso emocional ainda maior. Elas representam uma ligação direta com aquilo que veio antes e ajudam a reforçar uma das ideias mais interessantes do filme: a história dessas mulheres não começa nem termina em uma única geração.
A nova geração, entretanto, poderia ter sido melhor aproveitada. Joey King faz um bom trabalho como Kylie e consegue carregar boa parte da história. É a personagem que coloca a trama em movimento e que precisa descobrir, praticamente de uma hora para outra, tudo aquilo que sua mãe tentou esconder. Maisie Williams, infelizmente, recebe muito menos espaço do que poderia. Antonia é uma personagem importante para a ideia de uma nova geração dos Owens, mas o roteiro não desenvolve suficientemente sua relação com a irmã. E isso é uma pena, porque se existe uma coisa que Da Magia à Sedução sempre entendeu bem é que essa não é apenas uma história sobre bruxas. É uma história sobre irmãs.
O roteiro também tem seus tropeços. Há diálogos que poderiam ser melhores e algumas situações parecem forçadas demais. Em determinados momentos, o filme aposta na ingenuidade dos personagens para fazer a história avançar. Não chega a estragar a experiência, mas deixa evidente que estamos diante de uma produção que poderia ter sido um pouco mais cuidadosa. Por outro lado, o filme entende muito bem a nostalgia. As referências ao original aparecem na medida certa. A trilha sonora também ajuda a recuperar aquela atmosfera, especialmente com a presença de Stevie Nicks. Ao mesmo tempo, a produção tenta conversar com um público mais jovem, sem abandonar completamente quem estava esperando esse reencontro desde 1998.
Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor não é um filme que pretende inovar o gênero ou fazer história no cinema. Também não precisa. Ele sabe que existe um público que gosta das Owens e quer simplesmente passar algumas horas novamente ao lado delas. Hoje, quando Hollywood tem buscado constantemente personagens e histórias dos anos 1990 e 2000, existe sempre o risco de transformar a nostalgia em produto. Nem todo retorno consegue justificar sua existência. Aqui, pelo menos, existe uma história nova, ainda que simples, e personagens que continuam funcionando.
Por que ver esse filme no cinema? No final das contas, Da Magia à Sedução: Feitiço do Amor é exatamente aquilo que promete. Uma fantasia leve, divertida, familiar e com uma boa dose de nostalgia. Talvez não tenha a mesma força do original. Talvez alguns personagens merecessem mais espaço. Talvez o roteiro pudesse ser mais cuidadoso, mas, bem por isso, não precisa ser perfeito para funcionar. Ele só precisa nos fazer lembrar por que gostávamos tanto das Owens. E consegue. Boa sessão!

