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Coyote vs. Acme


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 03/09/2026
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O filme dessa semana é para quem cresceu assistindo desenho na tela da tv, isso porque há certos personagens que envelhecem com a gente. O Coiote, da turma do Pernalonga, é um deles. Durante muito tempo, assisti àquelas perseguições sabendo exatamente como terminariam e, ainda assim, havia sempre alguma expectativa de que daquela vez pudesse ser diferente. Não era. O Papa-Léguas escapava, a armadilha dava errado e o Coiote, depois de mais uma queda espetacular, voltava para casa provavelmente pensando em comprar outra coisa da Acme. Um enredo simples, mas que prendia a atenção e que agora, é pano de fundo de uma das estreias desta semana no cinema e que, no melhor estilo Uma Cilada Para Roger Rabbit, promete divertir crianças e adultos. Essa semana, na Coluna Sétima Arte, você vai saber mais sobre o filme Coyote vs. Acme.

Não há dúvidas de que, se algum personagem de desenho tem motivos para processar alguém, esse personagem é o Coiote. Não que ele jamais tenha demonstrado qualquer interesse por Justiça. Durante décadas, sua preocupação foi bem mais simples. Capturar o Papa-Léguas. Para isso, Wile E. Coyote confiou cegamente na empresa Acme. Comprou foguetes, armadilhas, explosivos e toda espécie de engenhoca que prometesse colocar suas mãos no adversário. O problema é que os produtos quase sempre funcionavam contra ele. E, mesmo depois de ser lançado contra uma parede, despencar de um penhasco ou explodir pelos ares, lá estava o Coiote novamente, pronto para tentar outra vez.

Essa foi, ao longo de décadas, uma das piadas mais conhecidas dos desenhos e também uma das mais curiosas. Afinal, em algum momento, alguém precisaria explicar por que o mesmo sujeito continua comprando de uma empresa que nunca entrega exatamente o que promete. Coyote vs. Acme finalmente resolve discutir essa questão. E faz isso levando o Coiote para um tribunal. A premissa tem uma simplicidade que combina perfeitamente com os Looney Tunes. Depois de mais uma tentativa desastrosa de capturar o Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide responsabilizar a Acme pelos prejuízos e procura o advogado Kevin Avery (uma clara referência ao mítico diretor e cartunista Tex Avery), interpretado por Will Forte. O que poderia ser apenas uma desculpa para reunir personagens conhecidos acaba funcionando como uma interessante experiência de convivência entre dois universos que Hollywood conhece muito bem, mas raramente consegue equilibrar.

A referência mais evidente, como já citado na introdução, é Uma Cilada para Roger Rabbit, filme de 1988 que marcou a história do cinema por misturar live action com animação. Não há como falar de um filme que coloca personagens desenhados ao lado de atores de carne e osso sem lembrar do clássico de Robert Zemeckis. A diferença é que Coyote vs. Acme não tenta transformar sua animação em algo sofisticado demais. Ele entende que o Coiote só funciona se continuar sendo o Coiote. Bem por isso, a realidade é que precisa se adaptar ao desenho. Uma estrada pode se comportar como um pedaço de borracha. Uma armadilha pode desafiar qualquer noção de física. Uma explosão pode acontecer em circunstâncias completamente absurdas e, alguns segundos depois, o personagem continua de pé. O filme não perde tempo tentando justificar essas coisas. Elas fazem parte das regras daquele universo e os atores precisam conviver com elas.

Dave Green demonstra bastante segurança nesse aspecto. O diretor sabe que a graça não está simplesmente em colocar um personagem de animação dentro de uma fotografia real, mas em fazer com que ele participe fisicamente daquele espaço. O trabalho dos animadores é fundamental para isso e rende algumas das melhores situações da produção. É também por isso que o filme funciona melhor quando está perto de seu protagonista desenhado.

Will Forte e John Cena, como o advogado do Coiote e o representante da Acme, respectivamente, cumprem bem a função de servir como contraponto à maluquice. Will Forte encontra humor na maneira contida de reagir às situações e Cena aproveita sua presença física e seu talento para a comédia para construir um adversário que combina perfeitamente com a arrogância da empresa. Lana Condor completa o núcleo humano, que, apesar de competente, não tem a mesma força dos personagens animados. Quando o roteiro se concentra demais nos problemas particulares dos humanos, a aventura perde um pouco da imaginação. É como se o filme deixasse escapar justamente aquilo que o torna diferente de uma comédia convencional. Mas, felizmente, sempre há uma nova oportunidade para o Coiote voltar à cena.

A Acme também ganha uma função maior do que tinha nos desenhos. De simples fornecedora de produtos absurdos, passa a ser uma corporação poderosa que conhece os defeitos de suas próprias mercadorias e parece ter meios para evitar qualquer responsabilização. A crítica às grandes empresas existe, mas não precisa dominar o filme para funcionar. Curiosamente, os próprios bastidores de Coyote vs. Acme tornaram essa situação ainda mais irônica. O longa quase foi impedido de chegar ao público depois que a Warner Bros. quase desistiu de seu lançamento e deixou ele por um bom tempo engavetado. Um filme sobre um sujeito tentando enfrentar uma corporação gigante acabou enfrentando, fora das telas, uma situação que parecia pertencer ao próprio roteiro.

Mas a melhor coisa em Coyote vs. Acme não está na coincidência. Está no Coiote. O filme percebe que, por trás de tantas quedas e explosões, existe uma característica que sempre fez o personagem funcionar. Ele nunca desiste. Pode estar coberto de fuligem, com o foguete preso ao corpo e uma bigorna prestes a cair sobre sua cabeça, mas no episódio seguinte estará novamente tentando. Aqui, essa insistência ganha um pouco mais de espaço. O Coiote começa a demonstrar certo cansaço e a história encontra uma maneira de olhar para sua perseguição ao Papa-Léguas com um pouco mais de afeto. O Projeto Sísifo (outra referência, dessa vez, ao mito grego em que Sísifo foi condenado a empurrar uma pedra morro acima eternamente, recomeçando do zero toda vez que ela caía) ajuda a transformar essa repetição em parte da narrativa, sem retirar do personagem aquilo que o tornou engraçado. E o mais interessante é que o filme não precisa separar os dois para fazer isso. Coiote e Papa-Léguas continuam presos à mesma perseguição de sempre. Um corre. O outro corre atrás. A diferença é que agora existe uma história ao redor dessa relação.

Por que ver esse filme no cinema? Para responder a essa pergunta é preciso ponderar que Coyote vs. Acme, por mais que lembre, não é Uma Cilada para Roger Rabbit, e seria um erro esperar que fosse. O filme não possui a mesma ambição nem a mesma importância. Mas encontra uma solução bastante competente para uma pergunta que parecia impossível de responder. Como levar um personagem de desenho para o mundo real sem tirar dele aquilo que o torna especial? A resposta é simples. Não é preciso torná-lo real. É preciso deixar o mundo real entrar no desenho. E, quando isso acontece na tela grande, há um prazer que nenhuma discussão sobre a trama consegue substituir. Ver o Coiote correndo por cenários reais, preparando mais uma armadilha e acreditando novamente que desta vez vai conseguir continua sendo engraçado. Mesmo depois de tantos anos, continuamos torcendo por ele. Talvez porque, no fundo, ainda exista uma pequena esperança de que, desta vez, dê certo. Não vai. Mas isso também faz parte da graça. Boa sessão!

 

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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