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Ciência, tecnologia e geopolítica: como a inovação das potências globais transformou a história e a economia da América Latina em As Veias Abertas da América Latina


Por: Especial para JN
Data: 15/10/2026
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Arthur Alexandre Quiamolera Tonia L.
Série 2.1

Uma obra essencial, não só para entender a América Latina, mas para entender a vida e o mundo. (Eric Nepomuceno)

A América Latina é realmente pobre? Ou será que essa é uma percepção construída ao longo da história? Desde a colonização, a região concentrou reservas de ouro, prata, cobre e petróleo, cujas riquezas nem sempre permanecem na região. Essa abundância contrasta com as dificuldades econômicas de seus países, cujas reservas foram usadas, por muito tempo, para o enriquecimento de potências mundiais. Esse contraste demonstra que possuir recursos naturais não garante o desenvolvimento, levantando um debate sobre seu valor e a dependência econômica latino-americana.

A análise dessa perspectiva foi possibilitada pela obra As Veias Abertas da América Latina, edição comemorativa de 50 anos, publicada por Eduardo Galeano (1940–2015), em 1971, concentrando-se no capítulo As fontes subterrâneas de poder. Galeano era uruguaio, escritor e jornalista e, aos 31 anos, ao publicar a primeira versão do livro, marcou seu nome na literatura política latino-americana. Sua escrita tornou-se base para compreender a dominação e colonização dos povos latinos.

O ensaio histórico de Galeano foi considerado subversivo e banido na Argentina, no Chile, no Brasil e no Uruguai durante as ditaduras militares. Preso no Uruguai, foi obrigado a se exilar na Argentina e depois na Espanha, retornando a Montevidéu em 1985.

Segundo Galeano, a riqueza natural nunca bastou. Para o autor, o verdadeiro poder reside na capacidade científica, tecnológica e geopolítica, que define o valor dos recursos. Enquanto países europeus e, posteriormente, os Estados Unidos se desenvolveram, outros foram “organizados” para fornecer e não prosperar. Assim, a miséria latina seria consequência do sucesso de outros: “a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já foi dito, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial” (Galeano, 1971, p. 18).

Um exemplo dessa disputa entre riqueza natural e poder tecnológico é a queda do salitre chileno e o processo Haber-Bosch. Após a Guerra do Pacífico, na qual o Chile venceu Bolívia e Peru, o salitre correspondia a mais de 50% do orçamento chileno.

Durante a guerra, impedida de importar o material chileno, a Alemanha aperfeiçoou o processo Haber-Bosch para produzir nitratos a partir do nitrogênio do ar. O salitre sintético derrubou o salitre natural chileno e provocou forte queda na economia do país. Das 120 usinas salitreiras de Tarapacá, apenas uma permaneceu em funcionamento. Galeano evidencia, assim, a fragilidade dos recursos diante da superioridade tecnológica.

Ao longo do século XX, outros recursos estratégicos latino-americanos, como o ferro brasileiro e o petróleo venezuelano, ocuparam posição central nas disputas geopolíticas e econômicas das grandes potências.

No contexto brasileiro, o subcapítulo Dentes de ferro sobre o Brasil evidencia como as reservas de minério de ferro foram fundamentais para o desenvolvimento industrial de grandes potências. Galeano destaca a jazida do Vale do Paraopeba, uma das maiores do mundo, cujo valor era estimado em cerca de 200 bilhões de dólares. Apesar dessa riqueza, multinacionais como Saint John e Hanna Mining Co. exerceram influência sobre sua exploração, reforçando a dependência econômica.

A obra também aborda o petróleo. Galeano mostra que, assim como o ferro brasileiro, o petróleo venezuelano foi amplamente aproveitado por estrangeiros. Ao citar Standard Oil e Shell, explora como petroleiras internacionais influenciavam a política venezuelana e drenavam a riqueza nacional.

Dessa forma, a disputa entre riqueza natural e poder tecnológico reforça a perspectiva de Galeano. Afinal, quem domina a tecnologia controla o mercado; quem controla o mercado influencia governos; e quem influencia governos interfere na soberania. Conforme o especialista jurídico Marcelo Maurício da Silva, a obra de Galeano ao Direito Internacional, evidencia como a exploração histórica da América Latina ressalta os limites e as contradições desse Direito na proteção da soberania e da igualdade entre os países. Trata-se de uma relação vertical, na qual os países não se encontram em condições materiais de igualdade, embora o Direito Internacional reconheça formalmente sua igualdade jurídica.

Diante do exposto, reitera-se que Galeano demonstra que a história da região foi marcada por uma relação de dependência em que o domínio científico, tecnológico e geopolítico das grandes potências determinou o valor dos recursos naturais e condicionou o destino de diversas nações latino-americanas. A obra possibilita compreender as raízes latino-americanas e compará-las com os dias atuais, deixando o seguinte questionamento: a América Latina continua refém da tecnologia estrangeira ou caminha para converter suas riquezas em desenvolvimento e soberania?

 

Referências

GALEANO, Eduardo. As fontes subterrâneas de poder. In: As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2021.

 

 

 


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