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Branca de Neve e os Sete Anões


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 03/04/2025
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Parece que essa onda de live-actions da Disney nunca chegará ao fim. Confesso que foi legal no começo, porém a sensação agora é de que essa iniciativa já rendeu tudo o que poderia e que o brilho se foi. Na coluna Sétima Arte dessa semana vamos considerar Branca de Neve e os Sete Anões, último lançamento da Disney nesse formato, que chegou recentemente aos cinemas e que já estreou envolto em polêmicas e insatisfações.

Sentar-se na poltrona do cinema para assistir à nova versão live-action de Branca de Neve e os Sete Anões é como abrir um presente cuja embalagem promete muito, mas cujo conteúdo traz uma mistura de emoções ao ser revelado. A todo-poderosa Disney, com sua tradição de reinventar contos de fadas, nos oferece uma releitura que, embora cheia de boas intenções e talentos notáveis, tropeça na difícil tarefa de equilibrar inovação e nostalgia.

Rachel Zegler, empurrada goela abaixo no público como a Branca de Neve contemporânea, independentemente das críticas, é um verdadeiro achado. Com uma voz invejável e uma capacidade de se conectar com o fantástico, ela entrega uma princesa que não apenas canta com alma, mas também se apossa de seu destino. É fascinante ver como Zegler empresta à personagem uma força interior que dialoga com as expectativas do século XXI: uma protagonista que não espera ser salva, mas que se levanta e salva o reino com a ajuda de seus amigos diminutos.

Gal Gadot, por sua vez, enfrenta um desafio de proporções épicas. Sua Rainha Má é um esforço audacioso de se despir da heroína de ação que a consagrou (a atriz ganhou fama mundial ao interpretar a Mulher-Maravilha da DC/Warner) e mergulhar no universo de vilanias e melodias. Há algo de admirável em sua disposição para sair da zona de conforto, mas infelizmente, o que vemos na tela é uma vilã que parece ter saído de uma esquete de comédia, com canções que não lhe fazem justiça e uma direção que não soube aproveitar todo o seu potencial. Ainda assim, é impossível não reconhecer a coragem de Gadot em tentar algo novo, mesmo que o resultado final não atinja o alvo.

Marc Webb, atrás das câmeras, demonstra uma habilidade considerável em coreografar números musicais, mas o filme padece de uma identidade visual inconsistente. Os seres pequeninos, outrora anões e agora criaturas mágicas sem nome definido, são um exemplo de como o CGI pode tanto fascinar quanto desconcertar. Sua aparência de bonecos de borracha é um lembrete constante de que estamos assistindo a uma criação meramente artificial, o que quebra o encanto que deveria envolver o reino encantado de Branca de Neve.

A trilha sonora é um capítulo à parte. Quando Zegler canta, o passado e o presente se entrelaçam em harmonia, mas fora desses momentos, a música parece não trazer sentido, se mostrando incapaz de sustentar o peso das cenas mais dramáticas. É como se o compositor tivesse esquecido que, em um musical, a música é a própria estrutura do filme, e se ela não está bem alinhada, tudo vai mal ao longo da trama.

A mensagem que o filme tenta transmitir é louvável: a beleza interior como verdadeiro valor. No entanto, essa ideia se perde em um mar de superficialidade. A Disney parece ter medo de mergulhar fundo demais, de tocar nas feridas que os contos de fadas costumam expor. O resultado é um discurso sobre moralidade que soa como um sussurro em meio a um banquete visual que grita por atenção.

A tentativa de reparação histórica, com a inclusão de um elenco diversificado, é um passo na direção certa, mas o filme não consegue sustentar essa diversidade com uma narrativa rica e envolvente. A sensação que fica é a de um grande potencial diluído em uma produção que se esforça para não ofender, mas acaba por não emocionar.

Por que ver esse filme? Branca de Neve e os Sete Anões em live-action é como um espelho mágico que reflete uma imagem distorcida. Deve ser visto porque traz em si lampejos de genialidade — a performance de Zegler, certamente, será lembrada como um ponto alto — porém o conjunto se perde em um emaranhado de decisões criativas que não se entrelaçam como deveriam. A Disney, em sua busca por reinvenção, talvez tenha se esquecido de que a verdadeira magia dos contos de fadas reside na sua capacidade de refletir, com profundidade e emoção, as lutas e triunfos do coração humano. Uma pena que o filme que encantou e entreteve a infância de milhares de crianças por gerações tenha se tornado em sua versão live-action algo tão controverso. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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