Avatar: Fogo e Cinzas
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James Cameron faz parte de um seleto grupo de diretores que parecem possuir o toque de Midas, fazendo referência ao personagem da mitologia grega que tinha o dom de transformar em ouro tudo o que tocava. Ao longo da carreira, firmou-se como diretor de filmes extremamente comerciais, no melhor estilo blockbuster, seja com o início da franquia O Exterminador do Futuro, nos anos 1980, seja com o icônico Titanic, lançado em 1997. No entanto, foi já no novo milênio, mais precisamente em 2009, que Cameron apresentou seu projeto mais ambicioso e revolucionário. Avatar, enquanto franquia, consolidou-se como uma obra capaz de revolucionar, de forma contínua, o uso dos efeitos visuais no cinema. Não por acaso, cada novo capítulo é marcado não apenas por enorme expectativa, mas também por salas de cinema lotadas de espectadores curiosos para se deslumbrar, mais uma vez, com as paisagens e inovações visuais que Cameron é capaz de transportar para a tela grande. Neste ano, o novo filme pretende marcar o período de festas de muitas pessoas. Por isso mesmo, a Coluna Sétima Arte desta semana traz informações relevantes sobre o mais recente filme dessa grandiosa saga.
Depois de tanto tempo convivendo com Pandora, é curioso perceber como Avatar: Fogo e Cinzas chega aos cinemas em um lugar muito diferente daquele ocupado pelo primeiro filme, em 2009. Naquela época, tudo era novidade: o 3D parecia magia, o mundo criado por James Cameron soava infinito e a sensação de estar “dentro” da tela era algo realmente transformador. Hoje, mais de quinze anos depois, o impacto visual continua impressionante, mas já não basta. E talvez o próprio filme saiba disso.
O terceiro capítulo da saga começa sem pressa de suavizar o que veio antes. A história retoma os acontecimentos poucos dias após O Caminho da Água, e a morte de Neteyam ainda paira sobre a família Sully como um silêncio pesado. Cameron decide não tratar o luto como pano de fundo, mas como motor dramático. Jake se fecha, endurece, volta-se para a lógica da guerra. Neytiri, por outro lado, vive uma dor quase física, atravessada por raiva, culpa e desejo de vingança. Essa diferença de reações não só torna os personagens mais críveis, como também cria fissuras internas que fazem o filme respirar emocionalmente.
É nesse cenário instável que surge a grande novidade de Fogo e Cinzas: o Povo das Cinzas. Visualmente, eles representam uma ruptura forte dentro do imaginário da franquia. O verde exuberante e a fluidez da água dão lugar à terra marcada pelo fogo, à destruição e à sensação constante de ameaça. Liderados pela implacável Varang, esses Na’vi não buscam coexistência, mas dominação. Sua presença devolve à narrativa um senso real de perigo, algo que, em alguns momentos do filme anterior, parecia diluído.
A aliança entre Varang e Quaritch é um dos movimentos mais interessantes do roteiro. Ao unir tecnologia militar humana com saberes tribais, o filme cria um antagonismo menos óbvio do que o tradicional embate entre natureza e colonizadores. Quaritch, que poderia facilmente se tornar apenas uma repetição de si mesmo, ganha novos contornos ao ser deslocado para um território de desejo, ambiguidade e alianças instáveis. Não é uma transformação profunda, mas é o suficiente para evitar que o personagem se torne completamente previsível.
Ainda assim, Cameron não consegue, ou talvez não queira, se libertar totalmente de uma visão bastante maniqueísta. As divisões entre bem e mal continuam claras, marcadas por símbolos, rituais e crenças. A fé em Eywa segue funcionando como uma espécie de selo moral, enquanto as práticas espirituais do Povo das Cinzas são tratadas como algo obscuro, perigoso ou profano. Há ali um embate religioso potente, com temas como espiritualidades marginalizadas e crenças dominantes, mas o filme prefere sugerir essas ideias em vez de encará-las de frente.
O núcleo jovem, por sua vez, é onde Fogo e Cinzas encontra parte de sua força. Spider segue sendo o personagem mais desconfortável da história, sempre deslocado, sempre rejeitado por aquilo que é e pelo que representa. Sua relação com Kiri ganha novos contornos, e a jovem Na’vi passa a ocupar um lugar cada vez mais simbólico dentro da narrativa. Sua conexão com Pandora parece ultrapassar a espiritualidade tradicional, aproximando-a de uma figura quase messiânica. Esses arcos apontam claramente para o futuro da franquia, sugerindo uma passagem de protagonismo que, embora ainda tímida, começa a se desenhar.
Visualmente, o filme segue sendo um espetáculo. O uso do fogo como elemento narrativo amplia o repertório estético da saga e rende imagens de grande impacto. A técnica é irrepreensível, o CGI é tão bem integrado que praticamente desaparece, e a sensação de imersão continua forte. No entanto, é impossível ignorar que o assombro já não é o mesmo. Pandora continua linda, impressionante e detalhada, mas já não surpreende como antes.
O maior tropeço de Avatar: Fogo e Cinzas está no roteiro, especialmente em sua duração e repetição. Com mais de três horas, o filme se estende em situações que parecem girar em círculos. Os diálogos, em muitos momentos, carecem de densidade, e o humor ocasional surge mais como tentativa de aliviar a tensão do que como ferramenta narrativa eficaz. Ainda assim, seria injusto descartar o filme como um mero capítulo de transição. Ele é, sim, um “filme do meio”, mas um que assume essa condição com certa honestidade. O tom é mais sombrio, as consequências são mais duras e a crítica ambiental e colonial aparece aqui de forma menos alegórica e mais direta. Cameron parece menos interessado em encantar e mais disposto a alertar.
Por que ver esse filme? Diferentemente de seu primeiro capítulo, Avatar: Fogo e Cinzas não revoluciona o cinema, nem redefine a experiência audiovisual como seu antecessor fez. Mas aprofunda personagens, amplia conflitos e prepara o terreno para decisões mais difíceis e só por isso já merece ser visto. É um filme que talvez não fique na memória por cenas isoladas, mas pelo sentimento persistente de que Pandora, assim como o nosso mundo, está caminhando para um ponto de não retorno. E isso, gostemos ou não, é uma ideia difícil de ignorar. Boa sessão!

