A Empregada


Se você me perguntasse há duas semanas se eu nutria fortes expectativas pelo bom desempenho de O Agente Secreto na premiação do Globo de Ouro 2026 eu diria que não. Afinal, não é comum para a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood dar tanto destaque a filmes de um mesmo país seguidamente. Porém, contrariando todo o meu pessimismo, o Globo de Ouro surpreendeu e premiou não apenas Wagner Moura com a estatueta de Melhor Ator em filme dramático, mas também a obra O Agente Secreto como Melhor Filme em Língua Não-Inglesa. Um feito histórico, que só reforça a potência do cinema brasileiro nesse período de renascimento após o apagão vivenciado entre 2018 e 2022, repetindo o feito inédito de Ainda Estou Aqui. O Brasil abre o novo ano mantendo vivo o sentimento de orgulho pelas produções nacionais e o resultado, é claro, são salas de cinema lotadas para ver os filmes que contam as nossas histórias e mostram a nossa gente. O que é fantástico! Depois dessa surpresa positiva no Globo de Ouro, o que se espera é que o filme de Kleber Mendonça Filho apresente um bom desempenho também no Oscar, começando pelas indicações que serão anunciadas no próximo dia 22 de janeiro (quinta-feira). Agora, é hora de torcer, aguardar e ir ver ou rever O Agente Secreto, que segue em cartaz nos cinemas!
Porém, caso você já tenha visto O Agente Secreto e não queira vê-lo novamente, outra indicação é um suspense que, surpreendentemente, se equilibra de maneira improvável a partir do melodroma. Lançado bem no feriado de Ano Novo, a obra segue em cartaz e tem chamado atenção principalmente de quem quer ir ao cinema nas férias para ver um filme naquele estilo sessão da tarde para adultos, que é meio tenso, mas bem leve. A Coluna Sétima Arte desta semana, traz um pouco mais sobre a adaptação para o cinema do best-seller A Empregada.
A obra original, escrita por Freida McFadden, parte daquilo que está escondido por traz da intimidade de famílias perfeitas. Era de se imaginar que Paul Feig encontraria aí um campo interessante para trabalhar. Embora consagrado na comédia, ele já havia mostrado, em Um Pequeno Favor, que sabe brincar com a instabilidade das aparências. O problema e, a meu ver, também a graça, é que sua versão de A Empregada nunca se decide totalmente entre o thriller psicológico e o melodrama exagerado. O filme oscila, tropeça, exagera… mas, curiosamente, não deixa de envolver.
A premissa é simples e eficiente. Millie Calloway aceita um emprego como empregada doméstica na casa dos Winchester, uma família rica de Long Island. Ela carrega um passado nebuloso, precisa desesperadamente daquela oportunidade e se esforça para acreditar que aquele é o começo de uma vida melhor. Nina, a patroa, se apresenta como uma mulher gentil, quase frágil, mas aos poucos passa a revelar um comportamento instável, por vezes cruel. Andrew, o marido, surge como o polo oposto: educado, contido, aparentemente sensato. Em pouco tempo, o que parecia apenas um trabalho difícil se transforma num jogo de tensão, desejo e manipulação.
Esse tipo de história pede paciência. Pede olhar demorado, detalhes, ruídos pequenos que incomodam mais do que gritos. Muitos dizem que livro constrói isso com habilidade. Já o filme, não. Feig tem pressa. Ele quer chegar logo aos momentos de choque, às viradas bruscas, às cenas que rendem comentário. Com isso, sacrifica parte do prazer que existe na construção lenta do desconforto. Em vários momentos, A Empregada parece desconfiar da própria trama, como se temesse que o público se distraísse caso o suspense não viesse acompanhado de trilha alta, reações intensas ou situações escancaradas.
Essa falta de sutileza aparece também na construção dos ambientes. A casa dos Winchester é grande, bonita, impecável e não vai além disso. Bem por isso, é uma casa com falta de personalidade. Falta nela a sensação de espaço vivido. Os ambientes não contam história; apenas exibem riqueza. Objetos que poderiam carregar simbolismo surgem como adereços, só porque são coisa de rico. Tudo é funcional demais, genérico demais. O resultado é um cenário elegante, mas dramaticamente vazio, que não colabora muito para aprofundar os conflitos que se desenrolam ali dentro.
No meio disso, o elenco tenta, com diferentes níveis de êxito, dar carne a personagens que o roteiro nem sempre sabe como tratar. Sydney Sweeney constrói uma Millie contida, quase neutra. É uma atuação econômica, por vezes limitada, mas que acaba dialogando com o próprio espírito do filme: há algo de artificial na personagem, como se ela estivesse sempre representando uma versão aceitável de si mesma. Em alguns momentos isso empobrece; em outros, curiosamente, funciona. O que só reforça sua imagem de atriz mediana, após os recentes casos de polêmica envolvendo uma campanha de jeans supostamente camufladas de promoção de eugenia (ideia discriminatória de que alguns indivíduos seriam geneticamente superiores a outros), o que só pirou depois que o presidente americano resolveu politizar a polêmica já desastrosa.
Por outro lado, quem realmente sustenta o interesse dramático é Amanda Seyfried. Sua Nina é instável, imprevisível, desconfortável. Seyfried alterna doçura e crueldade com uma facilidade que prende o olhar. Mesmo quando o filme exagera, ela encontra maneiras de ancorar a personagem em algo reconhecível. Seu trabalho dá densidade às primeiras sequências e cria a impressão de que, ali, existe de fato uma mulher jogando um jogo que só ela parece compreender por inteiro. Já Brandon Sklenar, como Andrew, permanece raso. Está em cena, muitas vezes, como presença física e elemento de tensão romântica, mas raramente como personagem complexo. O roteiro pouco o ajuda, e sua interpretação não encontra brechas para ir além do óbvio. O mesmo acontece com figuras secundárias, introduzidas com promessa de mistério e abandonadas sem maior consequência.
Quando o filme entra em seu segundo tempo e se aproxima das grandes revelações, Feig opta sem hesitação pelo excesso. A reviravolta central é explicada mais do que sugerida, exibida mais do que construída, um didatismo desnecessário. Há pouco espaço para que o espectador participe; o filme prefere conduzir pela mão. É nesse ponto que A Empregada começa a flertar com o involuntariamente cômico. Algumas cenas que deveriam provocar tensão acabam arrancando risos. Os diálogos ganham um ar quase novelesco. A encenação se torna maior que a situação.
E, curiosamente, é aí que o longa encontra uma identidade inesperada. Ao abandonar de vez qualquer compromisso com a sutileza, ele passa a funcionar como prazer culposo. Um suspense que sabe, ou que aparenta saber, que é caricato. Que aceita sua artificialidade. Que se permite ser mais exagerado do que profundo. Não é o thriller elegante que poderia ter sido, mas se transforma num entretenimento curioso, desses que a gente comenta depois da sessão, rindo de algumas soluções e admitindo que, apesar de tudo, se deixou levar.
Confesso ter uma certa simpatia por filmes assim. Desagradam no começo, mas depois, acabam compensando. Obras imperfeitas, irregulares, mas vivas. A Empregada erra quando não confia no silêncio, quando explica demais, quando troca o clima de tensão por espetáculo. Mas acerta ao oferecer uma dinâmica central interessante, ao dar espaço para uma grande atriz se divertir em cena e ao não ter vergonha de escorregar para o exagero.
Por que ver esse filme? Diferente de O Agente Secreto, a obra em questão não é um filme destinado a ocupar listas de melhores do ano. A Empregada dificilmente ficará na memória como grande suspense. Mas merece ser visto porque cumpre um papel honesto: o de provocar, confundir, às vezes rir de si mesmo e, acima de tudo, entreter. Daqueles títulos que talvez não respeitemos muito como críticos, mas que assistimos até o fim com público. E isso, no cinema, é claro que ainda diz bastante coisa. Boa sessão!

