Mudanças no consumo impõem novos desafios ao comércio local
Avanço das compras pela internet, facilidade na comparação de preços e novas exigências dos consumidores transformam o varejo e levam lojas físicas a buscar alternativas para manter a competitividade.
A possibilidade de pesquisar preços pelo celular, comparar ofertas de diferentes vendedores e receber produtos em casa tem transformado a maneira como os brasileiros compram. O crescimento do comércio eletrônico amplia as opções para os consumidores e cria novos desafios para os estabelecimentos físicos, que precisam adaptar suas estratégias para continuar competitivos em um mercado cada vez mais digital.
Os números confirmam a dimensão dessa mudança. Segundo a Radiografia do Comércio Eletrônico 2026, da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), elaborada com dados da própria entidade, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o comércio eletrônico brasileiro movimentou R$ 295,6 bilhões em 2025, crescimento de 20% em relação ao ano anterior. No mesmo período, as vendas on-line corresponderam a 6,5% do faturamento do varejo brasileiro.
A evolução também aparece na comparação histórica. Em 2016, o faturamento do comércio eletrônico era de R$ 55,9 bilhões. Em 2025, alcançou R$ 295,6 bilhões, aumento nominal de aproximadamente 429% em dez anos. Os valores demonstram a expansão do setor, embora não signifiquem, por si só, que as vendas das lojas físicas tenham diminuído na mesma proporção. (Fonte: FecomercioSP/IBGE/MDIC.)
Consumidor mais conectado
A mudança não se limita ao crescimento das vendas pela internet. Ela também altera a jornada de compra. Antes de entrar em uma loja, o consumidor pode consultar preços, pesquisar características dos produtos, verificar avaliações e analisar as condições de pagamento oferecidas por diferentes vendedores.
Dados divulgados pelo IBGE em 2026, referentes ao uso da internet em 2025, mostram que 52,7% dos usuários de internet com dez anos ou mais utilizaram a rede para comprar ou encomendar bens ou serviços. Foi a primeira vez que a proporção ultrapassou a metade desse grupo na série investigada pelo instituto. O indicador considera usuários de internet, e não a totalidade da população brasileira.
Com o acesso facilitado, a concorrência deixou de se restringir aos estabelecimentos de uma mesma rua ou cidade. Dependendo do produto, uma loja do interior do Paraná pode disputar a preferência do consumidor com vendedores de diferentes regiões do país.
Pressão sobre o comércio de rua
Para os estabelecimentos tradicionais, um dos principais desafios está na concorrência por preço e variedade. Grandes plataformas digitais reúnem milhares de vendedores e podem operar com estruturas de distribuição e logística em larga escala. Essas características podem favorecer determinadas ofertas, embora os preços, os prazos de entrega e as condições de compra variem conforme o produto e o vendedor.
O pequeno comerciante, por sua vez, nem sempre consegue competir exclusivamente pelo menor preço. Custos operacionais, aluguel, funcionários, estoque e outras despesas precisam ser considerados na formação dos valores cobrados.
Isso não significa, entretanto, que o comércio de rua esteja condenado a perder espaço. Os dados sobre a expansão do e-commerce demonstram o crescimento do canal digital, mas não permitem concluir que todos os segmentos ou estabelecimentos físicos estejam registrando queda nas vendas.
As lojas presenciais mantêm vantagens importantes. A possibilidade de ver e experimentar um produto, receber orientação de um vendedor, levar a mercadoria imediatamente e resolver questões diretamente com o estabelecimento pode influenciar a decisão de compra.
A proximidade também favorece a construção de relações de confiança. Em cidades menores, o atendimento personalizado e o conhecimento das necessidades dos clientes podem representar diferenciais para os comerciantes locais.
O digital como aliado
Em vez de tratar a internet apenas como concorrente, os comerciantes podem utilizá-la para ampliar o alcance de seus negócios. Redes sociais, catálogos virtuais e atendimento pelo WhatsApp permitem apresentar produtos, divulgar preços, esclarecer dúvidas e receber pedidos sem que o consumidor precise visitar a loja inicialmente.
A integração entre os canais também pode facilitar as compras. O cliente pode conhecer um produto pelas redes sociais, conversar com o vendedor pelo celular, experimentar a mercadoria no estabelecimento e optar pela retirada ou entrega. A estratégia permite combinar a conveniência digital com as vantagens do atendimento presencial.
Essa adaptação, porém, exige planejamento. Manter informações atualizadas, responder aos clientes com agilidade, organizar os pedidos e calcular corretamente os custos de entrega são medidas importantes para que a presença digital contribua efetivamente para os resultados do negócio.
Atendimento e confiança fazem diferença
Em um mercado no qual a comparação de preços está a poucos cliques de distância, o atendimento pode ganhar importância na fidelização dos consumidores. Conhecimento sobre os produtos, transparência nas condições de pagamento, facilidade para realizar trocas e qualidade no pós-venda são fatores que ajudam a construir relacionamentos duradouros.
Para os comerciantes, o desafio é identificar o que seus clientes valorizam e quais ferramentas fazem sentido para a realidade do estabelecimento. Nem todos precisam montar uma grande operação de vendas on-line, mas compreender os novos hábitos de consumo tornou-se cada vez mais relevante.
Uma transformação que vai além das vendas
O avanço do comércio eletrônico também amplia o alcance geográfico das empresas. Negócios que antes dependiam principalmente dos consumidores que circulavam pela região podem encontrar novos públicos por meio da internet. Ao mesmo tempo, estabelecimentos locais passam a enfrentar concorrentes que anteriormente tinham pouca presença em seu mercado.
No comércio de rua, a adaptação envolve não apenas tecnologia, mas também atendimento, gestão, divulgação e capacidade de oferecer uma experiência de compra satisfatória.
A tendência é que os ambientes físico e digital continuem coexistindo e se complementando. Para o consumidor, isso representa mais alternativas de compra. Para o comerciante, significa a necessidade de compreender uma realidade na qual a decisão de compra pode começar no celular e terminar no balcão — ou seguir o caminho inverso.
A vitrine continua nas ruas, mas a disputa pela atenção do consumidor também acontece nas telas. A capacidade de combinar proximidade, confiança, conveniência e presença digital pode ser determinante para que o comércio tradicional acompanhe as mudanças do mercado.

