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Um pouco de História: Das décadas de 1950 a 1970, a era da aviação em Nova Esperança


Por: Alex Fernandes França
Data: 17/09/2026
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Aeródromo criado para facilitar o deslocamento de produtores e comerciantes chegou a integrar a cidade às rotas de companhias como Real-Aerovias e Vasp.

Nos anos 1950, Nova Esperança vivia um período de intenso desenvolvimento econômico, impulsionado principalmente pela agricultura, especialmente o café. Entretanto, a falta de estradas pavimentadas dificultava a rápida locomoção dos fazendeiros para grandes centros, como Londrina, São Paulo, Curitiba e Paranaguá, locais essenciais para a realização de negócios. Foi nesse cenário que o primeiro prefeito da cidade, Dr. José Teixeira da Silveira, identificou a necessidade urgente de um campo de aviação.

A Companhia de Terras Norte do Paraná, já prevendo o potencial da cidade, havia reservado uma área para a construção do aeródromo. Restava apenas preparar o terreno. Com a ajuda de trabalhadores e máquinas, a mata que cobria o local foi derrubada, e em cerca de seis meses, Nova Esperança contava com um campo de aviação de 180 mil metros quadrados, com uma pista de 1.200 metros de comprimento por 150 metros de largura. A estrutura simples, porém, funcional, incluía uma pequena casa para abrigo dos passageiros.

O campo de aviação de Nova Esperança atraía multidões sempre que um avião pousava -  Foto Acervo pessoal de Glória Maria Uchôa Kawahisa

Apesar de modesto, o campo necessitava de homologação do Ministério da Aeronáutica para que pudesse receber voos regulares. Foi por intermédio de Roberto Silveira, irmão do prefeito e figura de destaque no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que o processo foi agilizado, contando com o apoio do presidente Getúlio Vargas e de João Goulart, então ministro do Trabalho. Assim, em 1953, o aeródromo foi devidamente autorizado, sendo batizado de "Dr. Getúlio Vargas".

Hangar da pista de pouso construída na década de 1970 em Nova Esperança, destinado exclusivamente a aviões pequenos - Foto Acervo pessoal de Glória Maria Uchôa Kawahisa

Com o campo de aviação pronto, o desafio seguinte era atrair companhias aéreas. A Prefeitura elaborou um dossiê destacando a riqueza da região, principalmente o cultivo de café e a demanda de fazendeiros que precisavam viajar com rapidez. O documento foi entregue pessoalmente pelo prefeito a empresas como Real, Vasp, Cruzeiro do Sul e Varig. Embora o processo tenha levado tempo, a cidade começou a receber voos fretados, principalmente de táxi-aéreo de Londrina, através de empresas como Atlas e BOA (Brasil Organização Aérea).

Escritório da Vasp em Nova Esperança, com o veículo utilizado por Antônio Frias Filho para transportar passageiros que chegavam ou partiam da cidade (Foto: Acervo pessoal de Antônio Frias Filho)                              

O campo de aviação não apenas facilitou o transporte para negócios, como também despertou o interesse de jovens pelo mundo da aviação. Um grupo de aspirantes a pilotos, liderado por Riad Ibrahim Malouf, conseguiu que o Aeroclube de Maringá oferecesse aulas teóricas e práticas em Nova Esperança. Contudo, um acidente interrompeu as atividades. Os jovens tentaram seguir com os estudos no Aeroclube de Paranavaí, mas um incêndio destruiu o único avião disponível. Assim, os sonhos de formação em aviação na cidade foram, temporariamente, frustrados.

Foi em março de 1955 que Nova Esperança deu um grande passo, recebendo o primeiro voo regular de passageiros. A Real-Aerovias foi a pioneira, operando voos de São Paulo com escalas em Londrina, Mandaguari e Maringá, chegando a Nova Esperança às 16h45. Poucos meses depois, a Vasp também passou a operar na cidade, aumentando a frequência de voos e diminuindo o tempo de viagem para São Paulo.

Os aviões Douglas DC-3 eram uma presença quase diária no campo de aviação de Nova Esperança - Foto Acervo pessoal de Glória Maria Uchôa Kawahisa

Entre 1955 e 1956, Nova Esperança já mostrava os frutos desse novo meio de transporte. Fazendeiros, comerciantes e até mesmo as famílias locais começaram a usufruir do transporte aéreo, o que facilitou não só as transações comerciais, mas também o acesso a novas tendências da moda e visitas a parentes em outras cidades. O movimento no campo de aviação foi intenso: 2.176 pessoas embarcaram, 1.846 desembarcaram e cerca de 37 toneladas de bagagens foram transportadas.

Com o crescimento da demanda, os escritórios das companhias aéreas na cidade tornaram-se essenciais. A Vasp, por exemplo, era representada por Antonio Frias Filho, que não só coordenava as operações da empresa, mas também transportava os passageiros até o campo de aviação. O trabalho era modesto, mas de extrema importância para garantir o bom funcionamento dos serviços aéreos.

 Eem 1959, um Consolidated B24-M Liberator da Companía Boliviana de Aviación fez uma aterrissagem de emergência no campo de aviação de Nova Esperança devido à falta de combustível, gerando grande curiosidade entre os moradores - Foto Acervo pessoal de Glória Maria Uchôa Kawahisa

Assim, Nova Esperança consolidava seu campo de aviação como um marco para o desenvolvimento econômico da região. Em pouco tempo, a cidade se tornaria um ponto estratégico para o transporte aéreo no norte do Paraná, conectando-se de maneira eficiente aos grandes centros do Brasil.

Companhia aérea

         O charme de trabalhar para uma companhia aérea, mesmo em uma cidade do interior como Nova Esperança, era motivo de orgulho para muitos dos funcionários. Além disso, essa rotina movimentada e cheia de responsabilidades reforçava a importância da aviação para o desenvolvimento local.

Com a popularização dos voos e a crescente demanda, a cidade começou a se destacar no cenário regional. O transporte aéreo facilitava as conexões comerciais, sobretudo para os fazendeiros, que agora tinham acesso rápido aos grandes centros, e também abria novas possibilidades de negócios para os comerciantes e empresários locais. Em poucos anos, Nova Esperança já não era mais vista apenas como uma pequena cidade no norte do Paraná, mas como um ponto estratégico no mapa de rotas aéreas que ligava a região a São Paulo, Londrina, Maringá e outras cidades importantes.

O DC-3 é amplamente considerado um dos aviões mais emblemáticos da aviação. No período imediato pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ele era responsável por impressionantes 90% do tráfego aéreo mundial - Reprodução

O impacto do campo de aviação na vida cotidiana também foi notável. Não apenas os fazendeiros e empresários tiravam proveito dos voos; a comunidade em geral começou a incorporar essa nova forma de transporte às suas vidas. Era comum ver famílias inteiras no campo de aviação para se despedir de alguém que embarcaria para uma viagem importante, ou então para aguardar ansiosamente a chegada de parentes e amigos vindos de outras regiões. A aviação trouxe consigo um novo ritmo para Nova Esperança, conectando a cidade com o resto do país de uma forma rápida e moderna.

Com o passar dos anos, no entanto, o campo de aviação Dr. Getúlio Vargas começou a perder seu protagonismo. O aumento do transporte rodoviário, impulsionado pela pavimentação das estradas e pela expansão das linhas de ônibus, tornou-se uma alternativa mais prática e acessível para a população. Além disso, com a inauguração de aeroportos maiores em cidades vizinhas, como Maringá e Londrina, os voos comerciais passaram a ser concentrados nesses polos regionais, deixando o campo de aviação de Nova Esperança cada vez menos utilizado.

A falta de infraestrutura adequada também pesou contra a continuidade das operações. Sem uma pista pavimentada e com pouca modernização ao longo dos anos, o campo de aviação não conseguia atender às exigências das aeronaves mais modernas que demandavam pistas maiores e mais seguras. Aos poucos, os voos regulares que faziam escala em Nova Esperança foram sendo cancelados, e o movimento que outrora trouxe tanto dinamismo à cidade começou a diminuir.

Nos anos 1970, com o crescimento econômico de Nova Esperança e a expansão urbana, o terreno do campo de aviação passou a ser cobiçado para outros usos. A proximidade do centro da cidade e a necessidade de novas áreas para a construção de moradias e empreendimentos comerciais impulsionaram debates sobre o destino da área. Em um determinado momento, o campo de aviação foi oficialmente desativado, e o espaço passou a ser dividido em lotes urbanos.

Com o fim das operações aéreas, o campo de aviação foi gradualmente esquecido como ponto de conexão da cidade com o restante do país. No lugar das pistas de terra batida, surgiram ruas pavimentadas, bairros residenciais e pequenos estabelecimentos comerciais. O terreno, que outrora abrigou as decolagens e aterrissagens de aviões, passou a fazer parte do cotidiano dos moradores como um novo bairro.

Embora o campo de aviação tenha sido encerrado oficialmente, seu impacto histórico nunca foi apagado da memória da cidade. Muitos moradores mais antigos ainda recordam com nostalgia o tempo em que o som das aeronaves era comum no céu de Nova Esperança, e como a aviação ajudou a conectar a cidade ao resto do Brasil em uma época crucial de seu desenvolvimento. Nos arquivos históricos e nas lembranças daqueles que viveram aquela era, o campo de aviação Dr. Getúlio Vargas permanece como um símbolo de uma Nova Esperança que almejava crescer, modernizar-se e romper barreiras.

Assim, o fim do campo de aviação marcou o encerramento de um ciclo na história da cidade, mas também sinalizou o início de um novo capítulo, no qual a cidade se desenvolveu com outras prioridades, adaptando-se às demandas de um Brasil em transformação. Hoje, o legado do campo de aviação ainda ressoa, não apenas como um marco de progresso, mas como um testemunho da visão de líderes locais e da ambição de uma cidade que sempre buscou alçar voos maiores.

·        Com informações da obra intitulada “Por Aqui Voou: A História do Transporte Aéreo em Nova Esperança, Norte do Paraná”, de Gustavo Ribeiro de Francisco.


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