Coração de Lutador – The Smashing Machine

Interessante como nas últimas semanas todas as grandes estreias vieram carregadas de grandes chances para o Oscar, inclusive, a estreia dessa semana não foge a essa regra. O filme que estreou na última quinta-feira já nasceu com cheiro de Oscar, porém, o grande desafio para esse tipo de filme é entregar mais do que apenas uma fórmula, na maioria das vezes conhecida, que é seguida à risca para ter bom resultado em grandes premiações. Coração de Lutador – The Smashing Machine, dirigido por Benny Safdie, consegue ser um pouco dos dois. Ele é ao mesmo tempo um drama esportivo feito sob medida para chamar a atenção no Oscar e uma cinebiografia que encontra humanidade nas fissuras de um gigante. Sobre esse drama baseado em fatos a Coluna Sétima Arte traz tudo o que é importante para você na edição desta semana.
O protagonista da vez é Mark Kerr, lenda do MMA no início dos anos 2000, conhecido pelo apelido que batiza o filme. E quem o interpreta é ninguém menos que Dwayne Johnson. Sim, The Rock, esse titã que já foi astro da luta livre, conquistou Hollywood em franquias de ação e se tornou um dos homens mais populares do planeta. Pois bem, o projeto exigia que o ator deixasse de lado o herói musculoso e invulnerável para revelar um homem de carne, osso, suor e fragilidade. O resultado? Talvez a atuação mais surpreendente de sua carreira.
Safdie, o diretor, opta por um recorte pouco glamoroso da vida de Kerr. Não vemos aqui a ascensão triunfal de um campeão, mas sim os bastidores da decadência: a dependência de analgésicos e opioides, as derrotas que se acumulam e a relação turbulenta com a namorada Dawn, interpretada com energia e instabilidade por Emily Blunt. É nesse mergulho em contradições que o filme encontra seu coração.
Um ponto que merece destaque é a forma como a obra é filmada, com uma proximidade que chega a incomodar. É como se o espectador estivesse espionando a intimidade de Kerr. Há planos-sequência que acompanham o lutador desde o ringue até o vestiário, registrando o cansaço físico e a desorientação emocional. O estilo documental reforça a sensação de realismo, mas também traz um risco: a narrativa, por vezes, parece se arrastar, perdida entre tantas dores e quedas do protagonista. Não há uma linha clara de superação ou de queda definitiva, e isso pode frustrar quem espera a curva clássica dos dramas esportivos.
Mas talvez aí esteja a força de Coração de Lutador: ele não tenta enfeitar a vida real para caber em fórmulas hollywoodianas. Kerr não é Rocky Balboa, não terá a luta final da redenção. É apenas um homem tentando se manter em pé, ainda que tropeçando a cada passo.
Johnson agarra essa oportunidade como se fosse sua própria luta. Camuflado em próteses discretas e alterando voz e postura, ele constrói um Kerr doce, quase infantil em sua ingenuidade, mas também trágico em sua incapacidade de lidar com as pressões do corpo e da fama. A cena em que o personagem se permite chorar, depois de mais uma derrota, é daquelas que não só pedem lugar em retrospectivas de premiação, mas que realmente convencem o público de que The Rock pode ser mais que músculos e carisma.
Emily Blunt, por sua vez, confirma por que é considerada uma das grandes atrizes de sua geração. Dawn poderia ser reduzida a “namorada problemática”, mas Blunt dá densidade ao papel, revelando insegurança, dependência e, ao mesmo tempo, uma chama caótica que ameaça tanto quanto sustenta Kerr. A química entre os dois atores, já vista em Jungle Cruise, de 2021, aqui aparece em um registro totalmente diferente, pois é cru, doloroso e intenso.
Há ainda participações de peso, como Ryan Bader no papel de Mark Coleman, amigo e parceiro de Kerr, que traz autenticidade às cenas de treino e camaradagem. Esse cuidado com o elenco secundário ajuda a reforçar o caráter quase documental da obra.
Do ponto de vista técnico, Safdie merece aplausos pela fotografia que evoca o espírito dos anos 1990 e 2000. A paleta de cores sóbria, os cortes bruscos e o uso constante da câmera na mão criam uma atmosfera que mistura brutalidade e melancolia. É uma estética que, às vezes, exagera na repetição, mas que, no geral, aproxima o espectador daquilo que o diretor queria, que, nesse caso, é sentir o peso físico e emocional de estar dentro daquele universo.
O grande dilema de Coração de Lutador talvez esteja em sua estrutura. Em alguns momentos, o filme parece indeciso sobre o que quer contar: a história de um atleta dependente de drogas? Um estudo sobre relações tóxicas? Uma reflexão sobre a efemeridade da fama no esporte? Ao tentar dar conta de tudo, acaba não aprofundando tanto quanto poderia em nenhuma dessas frentes. Esse é um dos pontos que dividiu os críticos: para alguns, o filme não justifica plenamente a razão de revisitar a vida de Kerr.

Ainda assim, é difícil negar o impacto da experiência. Quando o filme acaba o que sobra é apenas a imagem de Dwayne Johnson em sua melhor forma dramática, mas também a sensação de ter conhecido um personagem que, mesmo distante da glória eterna, carrega uma humanidade universal. O título não mente, isso porque realmente é um coração que pulsa por trás do lutador, e é esse coração que permanece.
Por que ver esse filme? Coração de Lutador – The Smashing Machine não é perfeito. É longo, às vezes repetitivo e talvez não convença quem procura apenas um filme de esportes com finais grandiosos. Mas para quem gosta de cinebiografias que mostram as fragilidades por trás da fachada, o longa é um prato cheio. E, convenhamos, ver The Rock largar a pinta de super-herói para mostrar vulnerabilidade já é, por si só, uma vitória. No fim das contas, o filme funciona como uma metáfora do próprio Johnso, ou seja, um homem que já conquistou tudo na arena do entretenimento, mas que ainda precisava provar que, sob a rocha, há também carne, alma e fragilidade. E ele prova. Com força, com emoção e, acima de tudo, com verdade. Boa sessão!

