A filosofia política conservadora por João Pereira Coutinho
Por Gabriela Fernandes Bonini Enares[1]
“O conservadorismo não é uma doutrina, nem uma ideologia, mas antes uma atitude perante a realidade social e política.”
– João Pereira Coutinho, As ideias conservadoras, p. 25.
Este artigo analisa a filosofia política conservadora apresentada pelo doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa João Pereira Coutinho no livro As ideias conservadoras: explicadas a revolucionários e reacionários (2014).
O autor defende o conservadorismo como uma postura baseada em valores morais, como a prudência, bem como na consciência de que o ser humano é imperfeito. Para ele, mudanças sociais devem ser feitas com cautela, respeitando a tradição e o que já deu certo (pragmatismo político). O texto também mostra como Coutinho diferencia o conservadorismo dos extremos ideológicos – o revolucionário e o reacionário – e propõe o conservadorismo como uma forma equilibrada de pensar a política no mundo atual.
O fato é que muitas pessoas associam o conceito “conservadorismo” a ideias extremas ou retrógradas em comparação com avanços em direitos políticos, mas Coutinho mostra que essa visão está errada. Para ele, ser conservador do ponto de vista político é ter uma postura prudente em relação às propostas de mudanças radicais na estrutura da sociedade, pensar bem antes de mudar algo (sem anular a ação), e dar valor ao que já funciona na sociedade (seguir certo pragmatismo).
O conservadorismo, portanto, não é uma ideologia fixa, presa às tradições do passado, mas sim uma atitude perante o presente social e político. O conservadorismo parte do princípio de que, embora a humanidade possua ideais de caráter, civilidade e sociedade, o próprio ser humano que almeja tais ideias é naturalmente imperfeito e, por isso, qualquer tentativa de criar uma sociedade perfeita pode causar problemas, como lançar mão de certos princípios em busca da concretização desses ideias.
O conservadorismo é cético, do ponto de vista filosófico, e por isso prefere pequenas mudanças, feitas com calma e baseadas na experiência. Ele não é contra o progresso, mas acredita que é melhor conservar o que já funciona e evitar riscos desnecessários.
O autor diferencia o conservadorismo do pensamento reacionário e revolucionário. Os reacionários são aqueles que querem voltar ao passado, como se tudo fosse melhor antigamente. Querem que a ordem atual das coisas seja conformada à ordem primordial e ideal. Já os revolucionários querem romper totalmente com o presente e criar algo novo, algo nunca visto, que também, por sua vez, vai alcançar o ideal de civilização.
Coutinho critica os dois, dizendo que essas ideias são utópicas. Para ele, o conservadorismo é o caminho do meio: não idealiza o passado, nem acredita em promessas exageradas de futuro. O conservadorismo defende o valor do presente e do que já foi testado com o tempo, bem como se abre, com cautela, para as mudanças positivas no futuro.
Para João Pereira Coutinho, a prudência é a principal qualidade de um conservador. Daí o conservador americano Russel Kirk (1918-1994) ter escrito sua obra A Política da Prudência em 1954, enfatizando a capacidade de agir com cautela e sabedoria, respeitando as tradições e experiências acumuladas pela sociedade, evitando mudanças radicais e precipitações que possam desestabilizar a ordem social.
Afinal, em um mundo complexo, não dá para tomar decisões políticas com pressa ou com base apenas em “teorias de gabinete”. Ou seja, a prudência é a virtude que permite evitar erros, tomar decisões precipitadas baseadas em utopias, e preservar o que é bom. Por isso, o conservadorismo tem o histórico de valorização das instituições estáveis, leis justas e respeito pelas tradições. É uma forma de proteger a liberdade e manter a ordem sem cair em extremos.
O conservadorismo apresentado por João Pereira Coutinho é uma proposta de equilíbrio, cautela e respeito pela história. Em vez de apostar em grandes revoluções ou nostalgias do passado, ele defende um caminho mais seguro e realista. Neste artigo, vimos como essa visão pode ajudar a entender melhor a política e a enfrentar os desafios do presente com responsabilidade. Em tempos de polarização, o conservadorismo pode ser uma alternativa valiosa.
Referências bibliográficas:
COUTINHO, João Pereira. As ideias conservadoras: explicadas a revolucionários e reacionários. Lisboa: Três Estrelas, 2014.
BURKE, Edmund. Reflexões sobre a Revolução na França. Tradução de José Miguel Nanni Soares. São Paulo: Edipro, 2014.
KIRK, Russell. A mentalidade conservadora: de Edmund Burke a T. S. Eliot. Tradução de Márcia Xavier de Brito; apresentação e posfácio de Alex Catharino. São Paulo: É Realizações, 1. ed., 2020.
OAKESHOTT, Michael. A política da fé e a política do ceticismo. Tradução de Daniel Lena Marchiori Neto. São Paulo: É Realizações, 2018.
SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Tradução de Bruno Garschagen. Rio de Janeiro: Record, 17. ed., 2015.