Wicked: Parte II


Após uma longa espera, o desfecho final de uma das histórias mais icônicas da Broadway chegou aos cinemas. E vale a pena recordar, quando Wicked chegou aos cinemas no ano passado, a sensação era quase infantil, isso porque despertava aquele encantamento gostoso de quem revisita um mundo familiar, mas por uma nova trilha, mais delicada e mais humana. Jon M. Chu encerrou o primeiro capítulo com tanta paixão, que a expectativa pelo desfecho cresceu mais do que deveria, fazendo com que fosse quase impossível não esperar algo grandioso. Agora, um ano depois, voltamos às telonas para o segundo ato. E a pergunta que ecoa é aquela: será que Wicked: Parte II entrega grandeza? Entrega. Mas nem sempre na medida certa e, muitas vezes, à custa daquilo que tornava o início tão mágico.
É preciso destacar que o que salta aos olhos logo de saída é o tom. Enquanto o filme anterior tinha um brilho quase acolhedor, um mundo que se apresentava cheio de nuances e cores vibrantes, aqui as tintas escurecem. A paleta muda, a direção acelera, a narrativa corre como se estivesse sempre atrasada. Dá pra entender a intenção por trás disso, afinal, é o mergulho definitivo na queda (e renascimento) de Elphaba. Mas a transição brusca parece mais uma troca de cenário do que uma evolução natural da história.
Com menos duração, era de se esperar que o filme se tornasse mais objetivo. Mas acontece o oposto, Wicked: Parte II reúne arcos importantes demais espalhados num ritmo apressado demais. Há momentos que passam voando, quase como recados, exemplos disso são a estrada de tijolos interrompida, ou o anúncio do casamento de Glinda e Fiyero, essas decisões políticas que mudam o rumo da trama, porém todas tratadas como flashes que nos empurram para o próximo clímax. E esse talvez seja o maior desafio do filme, ele parece querer transformar cada cena em um momento inesquecível. O resultado? Uma sucessão de “grandes momentos” que, justamente por serem incessantes, perdem impacto.
A direção de Chu, tão segura no primeiro capítulo, aqui parece inquieta. A câmera gira, dança, sobe, desce, e às vezes tudo isso tira o ar da própria cena. A montagem acompanha esse ritmo frenético, dificultando o espaço para uma intimidade mais profunda entre personagens, algo que, ironicamente, era o alicerce emocional do filme anterior. A sequência do casamento é o exemplo mais claro: cercada de ângulos e cortes, a emoção se dilui. Faltam pausas. Falta silêncio. Falta aquele segundo de olhar que diz mais que qualquer música.
E por falar em música, finalmente chegamos à parte boa do filme. A canção que dá nome ao filme em inglês, Wicked for Good é, sem exagero, o momento em que a produção reencontra sua alma. Não é só porque a música é linda (embora seja), mas porque Cynthia Erivo e Ariana Grande conseguem, ali, fazer aquilo que era necessário desesperadamente no restante do longa: deixar que a cena respire. Os gestos, os olhos, o simples enquadramento das duas separadas por uma parede, tudo funciona com uma precisão que o filme, curiosamente, vinha evitando. Nesse instante, sentimos o que Wicked: Parte II deveria ser o tempo todo, ou seja, uma história sobre duas mulheres tentando sobreviver a um mundo que as interpreta antes mesmo de ouvi-las.
E aqui entramos na grande polêmica: quem é a protagonista de Wicked: Parte II? O filme insiste em colocar Glinda no centro das decisões, mesmo quando a lógica dramática sugere que aquele desenvolvimento pertenceria à Elphaba. A escolha não é apenas estrutural, ela é simbólica. Cynthia Erivo entrega uma Elphaba poderosa, sólida, dolorida e carismática; é quase impossível não desejar que o roteiro lhe ofereça espaço suficiente para brilhar. Mas, repetidamente, é Glinda quem resolve conflitos, enfrenta a vilania de Madame Morrible, finaliza arcos que pareciam construídos para a Bruxa Má.
Não é uma crítica moral, é narrativa. A personagem que tinha mais a perder, mais a evoluir e mais a enfrentar acaba sendo conduzida para a plateia, enquanto a loira angelical assume o protagonismo de um enredo que, originalmente, não deveria ser dela. Pode não incomodar todos os espectadores, mas certamente empobrece a força da mensagem que a própria franquia construiu com tanto cuidado.
No entanto, é impossível ignorar o brilho das duas atrizes. Cynthia Erivo faz Elphaba viver não apenas na voz (que é um assombro) mas no olhar, no meio sorriso, na dor silenciosa. Ariana Grande, por sua vez, mergulha na vaidade e ingenuidade de Glinda com um timing perfeito, evitando a caricatura que sempre foi um risco. Mesmo quando o roteiro tropeça, é nelas que encontramos firmeza.
Entre os coadjuvantes, Jeff Goldblum entrega o Mágico com aquele carisma excêntrico que parece brotar naturalmente dele, por mais que na mina cabeça ele, em qualquer obra, esteja sempre reprisando o mesmo personagem, caricato e espalhafatoso. Já Michelle Yeoh, tão brilhante em outros papéis, aqui escorrega em gestos exagerados, numa vilania mais ruidosa que ameaçadora. E Fiyero? Bem, esse sofre com um roteiro que não sabe o que quer dele. Suas motivações mudam sem aviso, sem pistas, sem preparação e o talentoso Jonathan Bailey faz o que pode para salvar seu personagem.
Por que ver esse filme? Porque, no fim das contas, Wicked: Parte II é um filme ambicioso. Talvez ambicioso demais. Quer ser épico, quer ser grandioso, quer ser lembrado. E, nisso, acaba esquecendo que o que faz uma história ficar na memória não é o tamanho do clímax, mas a força do caminho até ele. Mas, ainda assim, deve ser visto, pois há beleza. Há talento. Há momentos em que Oz volta a ser Oz, muito menos pela fantasia, mas muito mais pela humanidade. E, mesmo com seus tropeços, a jornada de Elphaba e Glinda continua sendo uma das amizades mais complexas e encantadoras que a cultura pop já abraçou.
Não é o desfecho perfeito. Mas é, pelo menos, um convite interessante para revisitar o que a primeira parte nos prometeu, ou seja, que ninguém nasce vilão e que, às vezes, o verdadeiro feitiço está na coragem de ser diferente. Boa sessão!

