Visita

A morte novamente veio nos visitar. Não de forma repentina ou abrupta como algumas vezes e nem de forma lenta e demorada como outras. Veio titubeante, como se estivesse em dúvida se o momento era o destinado a ela. Ficamos com a impressão de que batera na porta alguns dias antes, sem, contudo, entrar.
Como de costume, levou consigo um de nós para um lugar desconhecido, lugar este que, paradoxalmente, é o grande mistério da vida. E, como de costume, ao levar alguém, a morte, em troca, deixa vários sentimentos, como tristeza, alívio, arrependimentos, impotência, a sensação de que poderia ter sido feito mais, de forma diferente ou mesmo de dever cumprido.
A morte, ainda que represente o fim da vida, traz, em seu bojo, experiências que só podem ser vivenciadas por quem vive.
A morte nos rouba a presente, muitas vezes não valorizada, e nos deixa as lembranças que vão se acumulando até a mente se tornar pequena e deixá-las se extravasarem pelo corpo e coração. Como um mágico profissional, transforma mágoa em memórias, arrependimentos em combustível para mudança de vida, dor em saudade, o adeus em recomeço.
Algumas das visitas sempre serão mais dolorosas que outras, muitas vezes temidas, outras, ainda que não desejadas, esperadas ansiosamente, ainda que esse esperar seja prontamente negado por nós.
E a pessoa que a acompanha ao término da visita normalmente avança com medo. Medo do desconhecido. Medo de não ter cumprido a sua missão. Medo de deixar seus entes queridos sofrendo. E misturando todo o medo com toda a tristeza e dor aos poucos entendemos que a morte representa paz e descanso para quem foi e esperança e saudade para quem fica.
E como uma sábia professora, de forma paciente, a Morte, em cada visita, repete a mesma lição. O ensinamento de que se não sabemos a data do fim, devemos estar sempre preparados para esse dia. E estar preparado é fazer o que nos foi destinado a fazer da melhor forma possível. E se ainda não descobrimos os motivos pelos quais estamos aqui, devemos aproveitar cada dia para atingir esse objetivo, antes do fim chegar.
Nessa última visita a morte levou consigo alguém muito especial e, em seu lugar, deixou a gratidão. Gratidão por tudo que fez, por tudo que ensinou e pelos exemplos que deu. Não sabemos se há algo depois do fim. Mas sabemos que está em seu merecido descanso e, principalmente, em paz.

