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TIL: UMA OBRA ALÉM DO SEU TEMPO


Por: Especial para JN
Data: 08/10/2026
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Laura Bernardi da Silva

Lara Ernegas Rodrigues 

“A literatura humaniza porque nos permite compreender o outro.”
Antonio Candido
 

Quais marcas o abandono deixa na mente de uma criança? No Brasil, cerca de oito crianças são abandonadas por dia[1]. Essa realidade demostra ruptura dos vínculos familiares provocadas pelo abandono somada aos sentimentos de rejeição, de insegurança, de baixa autoestima e de dificuldades para estabelecer relações de confiança, podendo persistir definitivamente. Esse é tema abordado na obra Til, de José de Alencar, um dos principais representantes do romance regionalista do Romantismo no Brasil.

Til retrata a realidade rural do Segundo Reinado, cenário de profundas desigualdades sociais, José de Alencar apresenta personagens como Berta e Jão Fera, cujas trajetórias são diretamente influenciadas por esse contexto. Enquanto Berta (Til) enfrenta o abandono e o preconceito, Jão Fera é marcado pela exclusão e pela violência, evidenciando o condicionamento social na formação da identidade e do comportamento humano.

Ao expor essas questões, a obra revela os contrastes sociais e as injustiças presentes no Brasil do século XIX, permitindo refletir sobre estruturas sociais que ainda interferem na vida de muitas pessoas. As personagens são marcadas por conflitos familiares, desigualdades e dilemas morais. Jão Fera, personagem complexa, sendo marcado pelo isolamento e pela violência após vivenciar situações de rejeição e sofrimento. Berta, por sua vez, demonstra sua sensibilidade ao acolher personagens marginalizados. 

Essa questão evidencia consequências psicológicas profundas, pois a negligência pode comprometer o desenvolvimento emocional e a capacidade de estabelecer vínculos afetivos na infância e na adolescência. Dados sobre acolhimento no Brasil confirmam que a realidade retratada por José de Alencar permanece atual[2].

O lirismo romântico e a descrição da paisagem brasileira transformam a natureza em um elemento essencial da narrativa. O espaço rural ultrapassa a função de cenário e passa a representar os sentimentos e conflitos das personagens, condicionando-as. O uso de elementos simbólicos na construção da paisagem reforça a relação entre indivíduo e sociedade, evidenciando tensões, desigualdades e valores presentes no Brasil do século XIX[3].

Ademais, a obra evidencia como experiências de abandono e vulnerabilidade podem influenciar a formação dos indivíduos. Segundo Ana Maria de Castro (2010), situações de negligência e ausência de vínculos afetivos na infância podem gerar impactos no desenvolvimento emocional e social. De modo semelhante, Flávio Carneiro (2009) destaca que, nos romances de José de Alencar, as trajetórias das personagens são construídas a partir de suas vivências e conflitos. Em Til, essa perspectiva é perceptível na história de Jão Fera. Dessa forma, o romance demonstra como experiências passadas influenciam comportamentos e escolhas, revelando como a proteção da infância e o fortalecimento dos vínculos sociais são fundamentais para evitar ciclos de vulnerabilidade.

Portanto, mais de um século após sua publicação, a obra mantém-se atual ao tratar temas que transcendem seu contexto histórico. Ao retratar o abandono, a vulnerabilidade, a marginalização e as vivências traumáticas das personagens, José de Alencar revela aspectos fundamentais da condição humana. Dessa forma, a obra contribui para a compreensão de desafios ainda presentes, incentivando a reflexão sobre as relações sociais e seus desdobramentos. Assim, Til consolida-se como relevante instrumento de reflexão social e cultural.

 REFERÊNCIAS 

ALENCAR, José de. Til. 5. ed. São Paulo: Martin Claret, 2017. 

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 50. ed. São Paulo: Cultrix, 2015. 

CANDIDO, Antonio A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 2000. 

_____________. O direito à literatura. In: Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011. 

CARNEIRO, Flávio. José de Alencar: o romance e a formação do Brasil. Rio de Janeiro, 2009, p. 127. 

CASTRO, Ana Maria de. In: FREITAS, Marcos Cezar de (org.). História social da infância no Brasil. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2010, p. 45. 

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 2019. 

LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O foco narrativo. 10. ed. São Paulo: Ática, 2002. (Série Princípios). 

PNUD — PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO. Diagnóstico avalia situação das crianças afastadas do convívio familiar no Brasil. Brasília: PNUD Brasil, 2021. Disponível em: https://www.undp.org/pt/brazil/news/diagnostico-avalia-situacao-das-criancas-afastadas-do-convivio-familiar-no-brasil. Acesso em: 28 jul. 2026. 



[1] Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

[2]  Vide em estudos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

[3] Os teóricos da literatura Alfredo Bosi e Antonio Candido defendem a existência e a relevância da simbologia do espaço na análise literária.


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