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Ladrões


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 28/08/2025
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De tempos em tempos Hollywood é capaz de surpreender até o mais cético dos críticos de cinema. Se há pouco tempo alguém afirmasse que Darren Aronofsky, um diretor cult, premiado e conhecido por construir obras densas e, muitas vezes, inacessíveis (veja o terror/suspense Mãe!, de 2017) se enveredaria pela trilha dos filmes populares e comerciais eu diria que isso era uma piada. Porém, isso acabou de acontecer e a principal estreia dessa semana é um thriller de suspense e ação, completamente comercial e assinado por esse grande diretor. Essa semana, na Coluna Sétima Arte você vai saber um pouco mais sobre essa obra intitulada Ladrões.

Há diretores que carregam consigo uma marca tão forte que, ao entrarmos numa sala de cinema para assistir a um novo trabalho, já esperamos certas atmosferas, dilemas e até angústias. Darren Aronofsky é um desses nomes. Conhecido por mergulhar fundo no sofrimento humano em filmes como Cisne Negro e A Baleia, ele sempre nos entregou histórias intensas, sufocantes, quase sempre dolorosas. É justamente por isso que Ladrões chega como uma boa surpresa. Trata-se de um Aronofsky de alma mais leve, quase debochada, brincando com o caos urbano e com um humor ácido que não costuma fazer parte de sua cartela de cores.

Baseado no livro de Charlie Huston, o filme nos transporta para a Nova York dos anos 1990, um cenário que pulsa sujeira, neon e tensão social. Não é a cidade turística das comédias românticas, nem o cartão-postal iluminado. Essa é aquela Nova York caótica do passado, suada, pegajosa, quase claustrofóbica, e ela se torna um personagem tão importante quanto os próprios protagonistas neste filme. É nesse ambiente que o público irá acompanhar Hank Thompson, interpretado por Austin Butler, um ex-jogador de beisebol que viu seus sonhos desmoronarem antes mesmo de começarem. Um favor aparentemente banal, cuidar do gato de seu vizinho Russ, papel de Matt Smith, vai colocá-lo numa grande enrascada. Aos poucos, a trama se transforma em uma espiral de perseguições, espancamentos, gângsteres de toda etnia e uma chave misteriosa que pode valer milhões.

A princípio a história parece meio exagerada, é porque é para ser mesmo. Ladrões se assume como um thriller caótico, cheio de reviravoltas, personagens caricatos e um senso de humor que se equilibra com a violência explícita. O diretor não esconde suas influências, tanto que há ecos claros de Guy Ritchie e dos irmãos Coen, principalmente na mistura entre violência gráfica e momentos extremamente absurdos, que lembram uma atmosfera cartunesca. O curioso é ver um diretor tão identificado com o drama existencial abraçar o exagero narrativo com entusiasmo juvenil.

No centro de tudo está Austin Butler. Desde que encarnou Elvis, o ator tem mostrado uma capacidade rara de combinar magnetismo com profundidade. Em Ladrões, ele não é apenas bonito ou carismático: ele se transforma em Hank, um sujeito azarado que se descobre herói improvável em meio ao caos. Butler carrega o filme nas costas com uma naturalidade impressionante, lembrando antigos astros como James Dean ou Al Pacino em início de carreira. Sua química com Zoë Kravitz, que interpreta Yvonne, uma paramédica envolvida em sua confusão, traz um equilíbrio interessante entre sensualidade e vulnerabilidade. Não dá pra negar, os dois têm muita química em cena!

O elenco de apoio também brilha. Regina King encarna uma policial durona que tenta dar algum contorno à bagunça; Os excelentes Liev Schreiber e Vincent D’Onofrio vivem irmãos mafiosos grotescos e inesquecíveis; Matt Smith, que tem brilhado muito em A Casa do Dragão, surge como o vizinho problemático que dá o pontapé inicial na trama; e até a bola da vez, o rapper porto-riquenho, Bad Bunny, surpreende como o chefão Colorado, transitando entre o carisma e a ameaça. Esse é um time de peso, claramente se divertindo em cena!

Sobre o visual do filme, é preciso destacar novamente a reconstrução da Nova York noventista e seus muitos detalhes. São ruas mal iluminadas, bares esfumaçados e perseguições que exploram cada canto da metrópole. A fotografia aposta em contrastes fortes, com um clima de HQ que dialoga tanto com o noir clássico quanto com a estética pop da saudosa década de 1990. A trilha sonora, carregada de batidas pulsantes e guitarras, reforça a energia alucinada e o clima de época.

Mas nem tudo é perfeito. Em alguns momentos, o filme parece se perder no próprio labirinto de subtramas. A sensação é de que Aronofsky se empolga demais com a bagunça e demora a conectar os pontos, alongando certas passagens além do necessário. Há também uma previsibilidade em algumas reviravoltas que pode frustrar espectadores mais atentos ao gênero. Ainda assim, a história, o elenco e agilidade do conjunto acaba compensando essas falhas. O filme é diversão para quem quer se divertir.

O mais interessante é perceber como Ladrões se encaixa dentro do histórico filmográfico de Aronofsky. Por um lado, é disparado seu filme mais acessível, mais “comercial”. Por outro, ainda carrega traços de sua obsessão pelo limite humano, tal qual ele trilhou em Cisne Negro (filme que eu particularmente considero como superestimado, inclusive por causa do Oscar). Na obra em questão, o protagonista é um personagem constantemente colocado contra a parede, sendo esmagado pelo ambiente e pela violência que o cerca. Há aqui, no meio da comédia sombria e do caos policial, ecos do Aronofsky mais intenso, só que revestidos de ironia e sarcasmo.

Por que ver esse filme? Ladrões não pretende ser uma obra-prima ou reinventar o gênero. Sua força está justamente em abraçar o exagero, a confusão e até a falta de solenidade. É o tipo de filme que se assume como entretenimento inteligente, sem medo de ser bizarro, e que ganha muito por mostrar um Aronofsky relaxado, testando novos territórios sem a obrigação de carregar o peso do mundo nos ombros. Assistir a Ladrões no cinema é embarcar numa montanha-russa de violência, humor e surpresas. É rir de situações absurdas minutos depois de se encolher diante de uma surra brutal. É se encantar com um gato roubando a cena em meio a tiroteios e correrias. É, acima de tudo, ver um grande ator consolidar sua presença e um diretor consagrado mostrar que ainda pode nos surpreender.

Certamente esse filme não entrará para a lista dos melhores filmes do ano, mas é bem provável que ele irá figurar entre aqueles que a gente recomenda aos amigos com um sorriso no rosto, dizendo: “É uma bagunça, mas é uma bagunça boa demais”. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


Anuncie com Jornal Noroeste
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