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A Hora do Mal


Por: Odailson Volpe de Abreu
Data: 07/08/2025
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Essa é uma semana com muitas estreias no cinema, tanto que para esta edição resolvi não trilhar o caminho óbvio e mais seguro e comentar sobre um filme fora da curva. O caminho óbvio a seguir seria comentar sobre o romance Drácula – Uma História de Amor, filme que já carrega o selo de qualidade de um diretor que está na ativa há mais de quarenta anos, conhecido por criar narrativas épicas sustentadas por uma estética vibrante. Ou seja, Luc Besson, famoso cineasta francês, é sinônimo de sucesso e qualidade no cinema. Entretanto, é impossível não se render a imprevisibilidade de um diretor que recentemente surpreendeu a muitos com seu filme de estreia e gerou grande frisson praticamente um leilão entre os maiores estúdios ao apresentar parte deste novo projeto que acabou de chegar aos cinemas. Eu estou falando sobre Zach Cregger, que já havia chamado atenção com o aclamado Noites Brutais, de 2022, e que agora entrega não só um bom filme, mas talvez um dos projetos mais ousados, bem arquitetados e narrativamente ambiciosos do ano. Essa semana, você vai conhecer o que é possível revelar sobre A Hora do Mal.

Primeiro, vamos deixar claro: é sempre uma boa surpresa quando um filme de terror consegue ser mais do que apenas sustos e sangue. Ou seja, é ótimo quando ele nos arrasta para um mistério profundo, nos faz pensar e, principalmente, sentir. Em A Hora do Mal, o ponto de partida é simples e assustador: numa madrugada qualquer, 17 crianças de uma mesma sala de aula levantam-se de suas camas e fogem noite adentro, desaparecendo sem deixar rastros. A única exceção é Alex Lilly, interpretado de forma tocante por Cary Christopher, que permanece. A professora Justine Gandy, interpretada com maestria por Julia Garner, torna-se rapidamente o centro das atenções – e das suspeitas. Afinal, por que só os alunos dela sumiram?

O que começa com um acontecimento inexplicável logo se transforma em uma rede intricada de mistérios, traumas, falsas pistas e revelações sombrias. E se você acha que já viu essa premissa antes, Cregger faz questão de mostrar que não está aqui para repetir fórmulas. A Hora do Mal é um filme que abraça o gênero do terror, mas o expande com camadas de drama psicológico, crítica social e uma estrutura narrativa inteligente, dividida em capítulos como em um bom romance.

O recurso da divisão por capítulos pode parecer pretensioso em outros contextos, mas aqui funciona como parte essencial da estrutura narrativa: cada capítulo foca em um personagem diferente da comunidade afetada pelo desaparecimento. São pais, professores, policiais, amigos e até forasteiros, algo que oferece ao público mais peças desse quebra-cabeça macabro. O espectador é constantemente desafiado a montar o panorama completo junto com os personagens, e essa interação silenciosa com a trama é uma das maiores virtudes do filme.

O roteiro é narrado por uma voz infantil, doce e serena, que começa dizendo: “Essa é uma história real.” É o tipo de detalhe que causa calafrios desde os primeiros minutos e que evoca a sensação de que há algo muito errado, mesmo quando tudo parece normal. Essa narração funciona como um guia sombrio ao longo da jornada e adiciona uma camada de ambiguidade que faz com que o espectador questione tudo o que está vendo.

Muita gente esperava Pedro Pascal no elenco (parece piada, já que falei na semana passada sobre a onipresença do ator nos lançamentos desse ano, mas é verdade!), porém a greve dos atores, de 2023, gerou conflito nas agendas e ele saiu do projeto. Entretanto, sua presença não faz falta num elenco competente e repleto de estrelas. Julia Garner, em especial, está brilhante. Sua Justine é uma mulher fragilizada, que carrega um passado cheio de cicatrizes emocionais, e que se vê pressionada por toda uma cidade que precisa desesperadamente de um culpado. Garner transita entre vulnerabilidade e força com uma naturalidade impressionante. Josh Brolin, como Archer, pai de uma das crianças, tem menos tempo de tela do que o esperado, mas entrega um desempenho contido e poderoso, especialmente em cenas mais introspectivas. O elenco de apoio também merece destaque. Amy Madigan, como a misteriosa tia de Alex, é magnética e inquietante. Há algo de sobrenatural na forma como ela se insere na trama, mas Cregger nunca entrega tudo de bandeja. O diretor prefere deixar o espectador saborear a ambiguidade.

Embora não seja um filme baseado em sustos fáceis (apesar de alguns jumpscares bem posicionados), A Hora do Mal cria tensão através da atmosfera, da incerteza e do desconforto crescente. A cada capítulo, a história mergulha mais fundo no mistério e arrasta o público junto com ela. As câmeras que mostram apenas as crianças correndo para a escuridão; os olhares cruzados; os silêncios prolongados. Tudo é milimetricamente construído para gerar inquietação.

A montagem é um show à parte. A câmera acompanha os personagens de perto, quase como se estivéssemos à espreita, observando, cúmplices de um segredo que ainda não compreendemos por completo. O uso de diferentes estilos visuais conforme os capítulos avançam também é um toque interessante que ajuda a construir a sensação de que estamos vendo partes isoladas de uma tragédia maior.

Falar mais que isso é estragar a experiência única que é ir ver esse filme no cinema. Por isso, caro leitor, fuja dos spoilers, porque o diretor reservou para esse filme certas reviravoltas impactantes que estão muito bem amarradas à narrativa, sobretudo no final. Saber disso antes da hora é praticamente uma ofensa. Só posso adiantar que esse é um daqueles desfechos que te fazem olhar para trás e reconsiderar tudo o que viu. E sim, você provavelmente sairá da sessão em silêncio, tentando reorganizar mentalmente cada pista deixada pelo caminho.

Por que ver esse filme? No fim das contas, A Hora do Mal é mais do que um filme de terror. É uma experiência narrativa, sensorial e emocional. Daquelas que que fazem o público sair do cinema com o coração acelerado, a cabeça cheia de teorias e a vontade de indicar para todos os amigos (sem spoilers, é claro!). Com esse segundo acerto em cheio, Zach Cregger se firma como uma das vozes mais criativas do novo terror americano, provando que o gênero ainda pode ser surpreendente, adulto e profundamente impactante. Se Noites Brutais foi sua carta de apresentação, A Hora do Mal é sua consagração. Boa sessão!

Odailson Volpe de Abreu


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