Se existe um tema que discutirei incansavelmente nesta coluna é a importância das palavras, motivo este inclusive, para o título da mesma. E também meu material de trabalho enquanto psicóloga e psicanalista.
Neste texto trarei alguns equívocos que costumeiramente cometemos sem nos darmos conta, pois já dizia Clarice Lispector: “O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar”. E é preciso enfatizar que o óbvio também precisa ser dito.
Alguns comportamentos que repetem-se frequentemente e você cansou de tentar entender o porquê, apenas rendeu-se aos caprichos daquilo que nomeou de “destino”.
Dito isso, Rubem Alves, escreve: “Todas as palavras tomadas literalmente são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua: toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!"
Às vezes, certos pensamentos e crenças nos invadem com tanta frequência que passou a fazer parte de nossa personalidade. Quando questionados de um possível por que agimos desta ou daquela maneira formulamos a resposta padrão: “Ah, eu sou assim mesmo!”. Esses pensamentos e crenças ganham uma magnitude maior a partir do momento que prejudicam o convívio social trazendo sofrimento ao próprio sujeito, bem como o desconforto a outras pessoas que começam a queixar-se de tais comportamentos.
E aqui, não citarei exemplos, mas é muito provável que isso já possa ter acontecido com você ou com alguém que conhece ou conheceu. Não é o meu propósito neste texto evidenciar comportamentos específicos, mas sim para a reflexão e questionamento do por que eles continuam a ocorrer para que possamos sair da sedução do óbvio.
Bartolomeu Campos de Queirós, diz: “Vejo a palavra enquanto ela se nega a me ver. A mesma palavra que me desvela, me esconde. Toda palavra é espelho onde o refletido me interroga."
Somos seres de linguagem. É por isso que o inconsciente, que diferente do que muito se diz por aí, não encontra-se nas profundezas do ser, nem está localizado num lugar inacessível, e também não está escondido do lado debaixo daquele famoso desenho de iceberg que viralizou nas mídias sociais e também entre muitos profissionais Psis e tantos outros que se utilizaram do tal modelo para explicar o que não é “explicável”. Todavia, é preciso que se leia Freud para poder afirmar que ele em sua teoria jamais usou nenhum iceberg.
Freud se reviraria no túmulo se visse esse desenho. E é dele a frase: “O inconsciente não descansa até ser ouvido”. Outro nome para o inconsciente também pode ser chamado de “intuição”. É aquela famosa sensação de que “alguém” está nos alertando, nos avisando sobre algo que deveríamos prestar mais atenção.
O inconsciente também está nos tropeços e lapsos da fala quando, por exemplo, querendo dizer um nome, dizemos outro, quando esquecemos aquela palavra importante, quando esquecemos compromissos. E aí você pode se questionar: “Como assim?” Preste atenção! Cuidado com o engano do óbvio. Por que você esqueceu de ir a determinado lugar? Por que você trocou um nome por outro? Contextualize teus lapsos e esquecimentos e se deparará com o teu inconsciente.
E o inconsciente continua nos sonhos, naquilo que se repete, naquela angústia que não passa. E a gente segue achando que “não é nada”, e insistimos num “não querer saber”, mas, o não dito volta e vinga-se de inúmeras maneiras, até que possamos finalmente, implicar-nos com aquilo que nos acontece, e é por isso que Paulo Leminski, um poeta que gosto muito, e encerro o texto de hoje, nos diz:
"Fora das palavras não há salvação".