Hannah Arendt. “Eichmann em Jerusalém”

“Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que este longo curso de maldade humana nos ensinou – a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos.” (ARENDT, 2021, p. 274).
Adolf Eichmann foi um nazista austríaco conhecido por cooperar com o extermínio do povo judeu. Ele foi um dos maiores responsáveis pelo transporte de judeus para os campos de extermínio. Por meio do seu departamento, ele ajudou a tirar pessoas da normalidade e encaminhá-las para o fim. Anos de história eram simplesmente fuzilados; anos de história eram levados por meio de trens que tinham como destino final o extermínio do povo judeu. A ideia de uma Europa e, em especial, de uma Alemanha livre de judeus (“judenrei”), foi intensamente levada a sério por Eichmann, que era a representação do funcionário ideal.
(Como a temática deste artigo se liga ao totalitarismo, ilustrarei por meio de fotos esse poder. As imagens foram tiradas por mim em janeiro de 2018.)
Eichmann vivia no pós-guerra na Argentina, em Buenos Aires, e levava uma vida normal com a sua família. Quem trabalhasse com ele ou quem fosse o seu vizinho, poderia dizer: “ele é uma pessoa normal, cujo modo de vida é até desejável”. Todavia, o que se escondia por trás dessa normalidade era um passado sombrio, que, por mais estranho que possa aparentar, de sombrio não tinha nada, já que durante o período da Segunda Guerra Eichann de modo nenhum caminhou nas sombras, mas fazia questão de que o seu trabalho aparecesse, até que pudesse ser promovido, se possível a saltos largos. A questão sombria citada é que após a Segunda Guerra ele se escondeu na Argentina, e só isso lhe é por sombra. Porém, passo a passo, por causa da fama atribuída ao seu nome, Eichmann foi se revelando. Era como se ele estivesse orgulhoso do bom trabalho feito. Na verdade, estava realmente orgulhoso do trabalho feito. Às tarefas que no passado lhe atribuíram ele cumpriu de modo impecável.
A abordagem de Hannah Arendt em “Eichmann em Jerusalém”, por meio da síntese dos dois parágrafos acima, choca, pois o nazista é vislumbrado não como um monstro, não como a encarnação do diabo, mas enquanto alguém normal. O subtítulo do livro de Arendt é: “um relato sobre a banalidade do mal”. Esse título, segundo a autora, lhe rendeu polêmicas:
Como é quase sempre o caso em discussões conduzidas com grande demonstração de emoção, os interesses concretos de certos grupos, cuja excitação se deve inteiramente a questões factuais e que, portanto, tentam distorcer os fatos, acabam rápida e inextricavelmente entremeados com a inspiração desenfreada de intelectuais que, ao contrário, não estão nada interessados em fatos, mas os tratam simplesmente como um trampolim para “ideias”. Mas mesmo nesses combates simulados, se podia muitas vezes detectar uma certa seriedade, um grau de autêntica preocupação, e isso até mesmo na contribuição de gente que se gabava de não ter lido o livro e prometia não o ler nunca. (ARENDT, 2021, p. 308).
Nessa seara, cabem alguns questionamentos: o que para Arendt é a “banalidade”? A filósofa se portou de forma neutra diante de um criminoso que atentou contra a humanidade? Acaso Eichmann, por ter apenas “cumprido ordens”, deveria ser inocentado de todos os crimes a ele atribuídos? E qual a intenção de Hannah Arendt com a obra aqui em resenha, que se originou do julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém?
Um dos primeiros aspectos analisados pela pensadora acerca da personalidade de Eichmann é que ele era uma pessoa normal, até normal demais, que mesclava mediocridade e anseio de progresso pessoal/profissional. Mediocridade: enquanto aluno, foi pífio, não conseguindo concluir os estudos, nem chegando a atingir o nível universitário; isso faz lembrar o próprio Führer, tão bem apresentado no livro “A mente de Adolf Hitler”, de Walter Langer. Progresso pessoal: Eichmann, que antes de pertencer ao movimento nazista e ao Serviço Secreto (SS), não foi mais do que mediano profissionalmente, agora se viu diante da oportunidade de começar do zero, de crescer, e nisso se engajou com todas as forças, chegando à patente de tenente-coronel (claro que há patentes superiores e que ele as almejava, porém, ninguém há de desprezar um oficial desse quilate). E Eichmann fez de tudo para ser um funcionário modelo, transformando a burocracia em algo sofisticado e célere, e transformando os trens em truques de mágica aptos ao desaparecimento da maior quantidade possível de judeus.
Bunker construído em Eperlecques-França, por ordem de Hitler
Fotos: Divulgação
Por diversas vezes diante dos juízes e do promotor, Eichmann disse que era “Inocente, no sentido da acusação.” O que seria essa inocência? Que ele apenas cumpriu ordens, que por si mesmo jamais teria a capacidade para manter ninguém e que nunca matou ninguém pessoalmente. Ele até tinha consciência de que os trens eram o mecanismo mais célere para a trágica “Solução Final”. E o que seria essa “Solução”, tão fundamental para entender o livro de Arendt? Um conjunto de ações disparadas por Adolf Hitler em 1941 para que a Europa ficasse “judenrei”.
O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele e ainda são terrível e assustadoramente normais. Do ponto de vista de nossas instituições e de nossos padrões morais de julgamento, essa normalidade era muito mais apavorante do que todas as atrocidades juntas, pois implicava que – como foi dito insistentemente em Nuremberg pelos acusados e seus advogados – esse era um tipo novo de criminoso, efetivamente hostis generis humani, que comete seus crimes em circunstâncias que tornam praticamente impossível para ele saber ou sentir que está agindo de modo errado. (ARENDT, 2021, p. 299).
O que é interessante e complexo é que após essa ideia de “Solução Final” a burocracia e a legislação nazistas despejaram uma tempestade de ordens e leis aptas a dizer que era bom e legal o extermínio. Eichmann passou a ser um executor de ordens dentro de uma ordem que inverteu o mandamento básico “Não matarás” em “Matarás”. Porém, como a pensadora alemã problematiza, muitos na sociedade também fizeram a inversão a inversão do mandamento. É nisso que se encontra a banalidade do mal e a normalidade de Eichmann. “Não matarás” passa a ser seguido por uma exceção, e o “Matarás” torna-se o normal.
E assim como a lei de países civilizados pressupõe que a voz da consciência de todo mundo dita “Não matarás”, mesmo que o desejo e os pendores do homem natural sejam às vezes assassinos, assim a lei da terra de Hitler ditava à consciência de todo: “Matarás”, embora os organizadores dos massacres soubessem muito bem que o assassinato era contra os desejos e os pendores normais da maioria das pessoas. (ARENDT, 2021, p. 167).
Memorial do Holocausto, em Berlim – Alemanha
Hannah Arendt não se deixou levar por maniqueísmos, e esse é um raciocínio que assusta o senso comum. Como pode a filósofa não denunciar Eichmann como mau, como demoníaco, sendo que os nazistas são a tão conhecida encarnação do mal? Aqui está a beleza da argumentação da filósofa: ela busca compreender primeiro para depois concluir, uma virtude escassa na sociedade. quem não conhece promotores de justiça que gostam de espetáculos midiáticos? Quem não conhece delegados que gostariam de ser artistas ovacionados? O caso da Escola Base, de São Paulo, é um trágico exemplo de condenação antes do processo de conhecimento. Segundo Arendt: “A Justiça não admite coisas desse tipo; ela exige isolamento, admite mais a tristeza do que a raiva, e pede a mais cautelosa abstinência diante de todos os prazeres de estar sob a luz dos refletores.” (ARENDT, 2021, p. 16).
No cenário burocrático e legal nazista, as pessoas passam a seguir o Führer como encarnação da verdade. Quem pensa o contrário é punido e até morto. Claro que há exceções, como quando grupos e países se opõem, em especial quando estes se opõem, como é o caso da Dinamarca, que o próprio rei se opôs às ordens nazistas e nada sucedeu a ele e aos seus cidadãos. Porém, e vale a pena frisar, infelizmente essas resistências não foram em larga escala, o que prova o extermínio de milhões de judeus. Países como a Romênia, por exemplo, foram até mais radicais do que os alemães, ao que considerou Hitler:
O próprio Hitler tinha consciência do risco de ser superado pela Romênia, e reclamou com Goebbels em agosto de 1941, poucas semanas depois de ter ordenado a Solução Final, dizendo que “um homem como Antonescu procede nesses assuntos de maneira bem mais radical do que nós procedemos até o presente’”. (ARENDT, 2021, p. 210-211).
O que está em jogo para a máquina nazista funcionar é que as pessoas simplesmente executem as ordens emanadas de determinado poder/departamento. A neutralidade é a palavra-chave nesse cenário. Zygmunt Bauman, em “Estranhos à nossa porta”, afirmou que a neutralidade é um dos piores perigos sociais, pois ela despotencializa as ações humanas, isto é, despotencializa a vida, deixando o ser humano em posição de robô. Quando a neutralidade impera, e isso não é difícil de acontecer, a humanidade não é mais respeitada e valorizada e facilmente cria-se um padrão que permite dizer quem é certo e quem é errado e que divide, consequentemente, os seres humanos em bons e maus.
Monumento “Sapatos à beira do Danúbio”, em Budapeste - Hungria
Todavia, é preciso destacar que o modo de analisar de Hannah Arendt, por meio da banalidade do mal, em nada tem a ver com considerá-lo um “lugar-comum”, como se ele fosse a todo tempo promovido e que as pessoas preferissem o mal ao bem. Não é nada disso. Nas palavras da filósofa: “E se isso é “banal” e até engraçado, se nem com a maior boa vontade do mundo se pode extrair qualquer profundidade diabólica ou demoníaca de Eichmann, isso está longe de se chamar lugar-comum.” (ARENDT, 2021, p. 311). É diante disso que Arendt ainda apresenta uma esperança, ao dizer que é possível à humanidade tornar a Terra um lugar próprio à vida: “Humanamente falando, é preciso nada mais, e nada mais pode ser pedido dentro dos limites do razoável, para que este planeta continue sendo um lugar próprio para a vida humana.” (ARENDT, 2021, 254).
O pensamento da filósofa é trágico, mas não diz que o mal há de prevalecer ou que a vida neste planeta não é mais possível. O que ela cria é um mal-estar no leitor, dizendo, por exemplo, que depois da Segunda Guerra mais e mais problemas devem se avizinhar ao ser humano, e que ele deve promover a justiça, a paz, não por meio de uma fraseologia sem sentido (eis uma crítica aos direitos do homem, posto que tantas vezes serem apresentados abstratamente), mas por meio de ações e instituições, por meio de responsabilidades individuais e coletivas.
Quando se diz responsabilidade individual é justamente para que pessoas como Eichmann não possam dizer: “fui vítima das circunstâncias”. O determinismo não pode imperar, sob o risco de tornar obsoleta a justiça, o Judiciário, afinal, ninguém seria mais julgado, sob o argumento “sou vítima das circunstâncias”. E no que diz respeito à responsabilidade coletiva é porque há coletivos, partidos e países que são responsáveis pelas ações de seus indivíduos, que devem também responder pelo mal que causaram aos seus cidadãos. É nesse sentido que se pode falar em uma responsabilidade política. A título de exemplo, há países que são condenados a reparar outros.
Um livro que bem caso com “Eichmann em Jerusalém” é “O Processo”, de Franz Kafka. Na obra do escritor tcheco, Josef K. é julgado e condenado por um crime que não tinha noção, sendo insistentemente massacrado pelas paredes do tribunal e dos cartórios, que estão por todos os lados. O fim de K.? deixo que o leitor fique curioso e leia a obra de Kafka. O ponto é que Kafka, com a sua obra, e com outras como “A Metamorfose”, está a trabalhar de modo metafórico e a profetizar o que viriam a ser as sociedades totalitárias, que buscavam despersonificar e burocratizar tudo, deixando tudo como o “governo de Ninguém” (ARENDT, 2021, p. 313). Gregor Samsa torna-se um inseto asqueroso; Josef K., só de ouvir o seu nome, sinto uma facada em meu coração. No caso de Eichmann, ele não é Gregor ou K., mas a face da banalidade do mal, e, se é possível dizer, a encarnação da burocracia, e esta deve, sim, ir para o banco dos réus, ela própria, que ama julgar, condenar e executar, deve ser julgada e, quem sabe, condenada e executada. Eichmann seria também uma das muitas faces do Zé Ninguém, este tão bem apresentado pelo psicanalista Wilhelm Reich. Esse Zé Ninguém tem como uma de suas características o argumento de que só executava ordens.
“Ouçam, mas este tipo acusa-me a mim, um Zé Ninguém! Que poder tenho eu para influenciar o presidente dos Estados Unidos? Eu cumpro o meu dever, faço o que me manda o meu patrão e não me meto em altas políticas.”
E quando arrastas milhares de homens, mulheres e crianças para as câmaras de gás, mais não fazes que cumprir o que te mandam, não é assim, Zé Ninguém? És tão inofensivo que nem sequer te dás conta do que se passa. És um pobre diabo que nada tem a dizer, sem opinião própria; quem és tu para te meteres na política? Eu sei, já te ouvi a mesma tirada com frequência. Mas deixa-me perguntar-te: porque não cumpres o teu dever quando alguém te afirma que és responsável pelo teu trabalho, ou que não deves bater nas crianças, ou seguir ditadores? Onde está então o teu sentido do dever, a tua inócua obediência? Não, Zé Ninguém, tu não ouves quando fala a verdade, só podes ouvir o ruído sem sentido. E gritas então “Viva!”. És covarde e cruel, sem o mínimo senso do teu verdadeiro dever, o de ser humano e preservar a tua humanidade. És uma medíocre imitação do sábio e extraordinária a da do ladrão. Os teus filmes, programas de rádio e histórias de quadrinhos abundam em toda a espécie de crimes. Terás de arrastar ainda durante séculos a tua mediocridade antes de poderes tornar-te senhor de ti próprio. Se me separo de ti é a fim de melhor poder servir o teu futuro. Porque à distância não podes atingir-me e tens mais respeito pelo meu trabalho. desprezas o que te está perto. Colocas os teus líderes em pedestais porque doutra forma não poderias “fazer de conta” que os respeitas. É por isso que, desde que a história é história, os grandes homens sempre souberam manter-se à distância. (REICH, 1977, p. 76-77).
Campo de extermínio de Auschwitz - Polônia
Há ainda muito a ser dito sobre a obra da filósofa, contudo, em uma resenha mais se deve trazer problemas do que respostas, mais provocações do que sínteses. A escrita de Hannah Arendt, concisa, objetiva e profunda, toca na essência do direito e da condição humana. É impossível sair da leitura de “Eichmann em Jerusalém” da mesma forma que entrou. Frases como “É simples assim: um manda e o outro obedece” não são mais lidas como virtude, como obediência. É preciso sempre pensar a responsabilidade, que passa pela esfera coletiva e individual.
Hannah Arendt. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Trad. de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
Wilhelm Reich. Escuta, Zé Ninguém! Trad. de Maria de Fátima Bivar. 8ª edição. São Paulo: Livraria Martins Fontes, 1977.

